Caro leitor junho 2018

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O valor da disciplina no cotidiano

Gilberto Silva

Presidente do Racionalismo Cristão

    Recentemente, introduzimos um novo quadro em nosso programa Racionalismo Cristão, uma filosofia para o nosso tempo, que vai ao ar, ao vivo, todas as terças-feiras, das 18h30min às 20h pela nossa webRádio A Razão (www.radioarazao.com.br) e também pelo nosso canal no YouTube (youtube.com/racionalismocris

tao). Trata-se da abordagem de um tema previamente escolhido pelos nossos ouvintes e telespectadores, através de uma enquete em nossas redes sociais. Reproduzimos nesta coluna um tema recente que reuniu dois conceitos importantes na estrutura doutrinária do Racionalismo Cristão, o Valor e a Disciplina.

A disciplina é a força propulsora para o desenvolvimento de cada pessoa e da sociedade como um todo. É necessária para o enfrentamento dos desafios cotidianos, uma vez que possibilita a organização do tempo e das ideias, tornando-se via segura para a edificação de uma vida feliz. Assim, ao compromisso com a vida disciplinada, a pessoa não deve corresponder de modo parcial ou abstrato, mas com integridade, para que não haja incoerência entre o discurso e a prática.

O Valor, por seu turno, é uma das características marcantes da personalidade humana, permite às pessoas se comprometerem com altruísmo e generosidade em suas relações interpessoais. Por isso, ao nos utilizarmos do vocábulo Valor, no presente texto, queremos fazer uma distinção, pretendemos indicar o significado da ação valorosa, ou seja, do Valor enquanto mérito. A relação entre princípios e valores é de indiscutível reciprocidade, na medida em que Valor expressa apreço e consideração a determinados aspectos da moral. Entretanto, não podemos confundir este conceito com o de Valor, característica inata, que todos possuem em maior ou menor dimensão.  Trata-se de uma distinção importante e necessária em todos os aspectos, e de maneira toda especial, nos domínios da espiritualidade. Portanto, queremos deixar claro que o valor atribuído a algo tem um sentido concretamente diverso, do Valor característico do ser humano.

Entretanto, o valor da disciplina no cotidiano, constitui o ponto de partida de nossa reflexão. É sabido que cada pessoa se realiza na vida encontrando paz interior ao se vincular de forma comprometida com seu planejamento evolutivo. Com efeito, a realização plena desse projeto depende fundamentalmente da disciplina, é aderindo a ela que, em certa medida, o ser humano se torna livre. Podemos exemplificar: estabelecendo horários regulares para as suas atividades cotidianas, a pessoa passa a assumir o controle da sua vida no aspecto temporal, deixa de estar internamente dividida e desarmoniosa, passa a entender suas limitações e esforça-se conscientemente para superá-las com maior liberdade e responsabilidade.

No entanto, seria um equívoco limitar o conceito de disciplina à organização cronológica de atividades, a um modo de vida imposto por um grupo, a um treinamento sistemático e preparatório para um fim específico, a uma matéria acadêmica ou a um objeto usado com propósitos repressivos. A similaridade dos significados em torno da palavra disciplina nos permite discernir o quão estrita é a visão consagrada pelo senso comum. Ademais, não podemos esquecer que atravessamos uma época em que a procura do prazer e da satisfação imediatos é apresentada como ideal de felicidade. Neste contexto, o conceito de disciplina tende a ser confundido também com o de repressão.

Vale a pena salientar, que disciplina é muito mais do que foi elencado anteriormente, como demostraremos na sequência. Ela é antes de tudo um mecanismo substancial para a efetiva prática do bem, por conseguinte, é um instrumento de evolução. Na perspectiva racionalista cristã, o conceito de disciplina não está circunscrito às dimensões puramente corporativas, hierárquicas, econômicas e técnicas, mas implica a valorização dos recursos disponíveis no planeta e o respeito próprio e coletivo.

Autodisciplina. Os acentuados desafios por que passa a humanidade nos tempos atuais exigem efetiva mudança de paradigma que leve a estabelecer novos estilos de vida, pautados na ética e no bem-querer. Tais estilos de vida devem ser inspirados na sobriedade, na prudência e, sobretudo, na autodisciplina.

É necessário sair da lógica reducionista do imediatismo, da egolatria e do individualismo, que desorganizam a vida das pessoas e das sociedades e promover formas de produção de conhecimento, abordando conteúdos espiritualistas que respeitem as diferenças e satisfaçam as necessidades evolutivas do conjunto humano. Tal atitude, apoiada por uma autêntica consciência da interdependência que une todos os seres humanos, só é possível quando entendemos o elevado sentido de disciplina.

A disciplina concorre para eliminar diversas causas de desequilíbrios e de acidentes, infelizmente tão comuns na vida das pessoas. Por outro lado, é certo que o hábito disciplinar garante pronta capacidade de resposta quando tais eventos surgem inesperadamente. A questão da disciplina não deve ser abordada somente pelas funestas consequências que o seu negligenciar implica: ela deve traduzir-se, sobretudo, em uma forte motivação para a prática do bem. Entendem agora os amigos, quando dissemos que a disciplina é um instrumento de evolução?

Todos possuem uma dimensão criativa, esta é um elemento essencial da ação humana, em todas as fases da vida o ser humano manifesta aptidão a criar e a inovar. Qualquer que seja o projeto, é necessário organização, esforço produtivo e planejamento, a fim de que corresponda positivamente à finalidade a que se propõe.

Como vencer a indisciplina? A tendência à indisciplina é uma realidade no ser humano. Influenciado pela materialidade própria do mundo físico, o indivíduo sente-se impelido, muitas vezes, a agir desordenadamente. Logo, nada pior em relação à indisciplina do que tentar escondê-la, fingindo que não existe. O impulso à desordem deve ser confrontado escrupulosamente e não negado, pois, quando reconhecido, as chances de superação aumentam exponencialmente. Quando a desorganização não é vencida, a negatividade de sua expressão aumenta e o ser humano, displicente e indisciplinado, tende a projetar nos outros o caos que vivencia. Estamos diante de uma das consequências do flagelo da indisciplina: a projeção ou transferência de responsabilidades. Contudo, todos podem tornar-se disciplinados e fortes espiritualmente, desde que ponham em ação sua força de vontade, no sentido de se valorizarem e, acima de tudo, prestigiarem a vida, que por sua vez representa uma magnifica oportunidade de evolução.

Desejamos arrematar estas reflexões com a figura de Luiz de Mattos, fundador e codificador do Racionalismo Cristão, porque ele soube dar ao mundo exemplos de disciplina e dignidade, conjugou com maestria esses dois conceitos importantíssimos, que devem referenciar todas as ações humanas. Sua vida de sucessos e realizações demonstra como é válido o cultivo da disciplina, aliás, sem ela, o mestre espiritualista não teria feito tanto em tão pouco tempo.

Boa leitura!