História do racionalismo – 65

Afinando por outro diapasão

J.A. Martins      

Militante da Filial São Paulo

A dúvida é o princípio da sabedoria.

Aristóteles

Dissemos no artigo anterior que o acesso aos cursos ministrados por Aristóteles no período da manhã era permitido apenas a pequeno número de discípulos mais adiantados, ou “iniciados”; e que, à tarde e à noite, ele ministrava cursos chamados abertos, sobre retórica e dialética, franqueados a contingente bem maior de alunos, ou grupo dos “não iniciados”.       

Houve, por isso, quem perguntasse se Aristóteles era adepto de alguma das religiões de mistérios da Grécia antiga, nas quais se praticavam rituais secretos, de acesso exclusivo aos “iniciados” em tais crenças.

Ora, no caso do Liceu, escola de Aristóteles, ao invés, os cursos da manhã eram assistidos por “iniciados” não em mistérios de seitas ocultistas, e sim em ciências como matemática, física, lógica e assuntos filosóficos mais difíceis, entre outras disciplinas, algumas delas desenvolvidas ou até criadas pelo racionalismo grego – conhecimentos, portanto, nada secretos ou místicos. Por se tratar de matérias de cunho mais abstrato, que exigiam estudos mais profundos, não interessavam senão a pequeno número de estudantes, os de maior alcance intelectual. Os cursos da tarde e da noite, sobre retórica e dialética, mais úteis aos que sonhavam com cargos políticos, atraíam maior número de interessados e não exigiam grande preparo.

Através desta história do racionalismo (ou singelo histórico a respeito de filósofos, cientistas e suas obras), o leitor terá percebido que os grandes representantes da filosofia e da ciência do passado já contestavam, se não in totum, ao menos em parte, os conceitos filosóficos ou científicos de seus predecessores.

O grande Aristóteles foi o maior contestador do grande Platão, seu amigo e maior mestre. O antigo aluno sempre haveria de reconhecer e admirar a importância e genialidade do antigo professor e confessar sua própria dívida para com ele.

Amizade à parte. Isso, porém, não seria empecilho a que em sua obra Aristóteles rejeitasse, de plano, ou “de cara”, como se diz mais comumente, nada menos que a ideia fundamental da filosofia platônica. Ou seja, que nenhum conhecimento, como já foi dito aqui, pode ser considerado confiável no “mundo sensível”, segundo Platão a realidade que pode ser apreendida por nossos sentidos e que se apresenta em constante mutação a esses mesmos sentidos.   

Assim, para ele, as coisas consideradas objeto de verdadeiro conhecimento habitariam outro mundo, um reino abstrato, independente de tempo e de espaço, não acessível aos sentidos, e sim apenas à razão, ao intelecto.   

Essa ideia fundamental do sistema filosófico de Platão ou, como diria alguém, filha primogênita do racionalismo (ou intelectualismo) platônico, o levaria também a concluir que as coisas do mundo sensível não seriam mais que meras imitações ou cópias imperfeitas do que existiria nesse reino abstrato, ou mundo ideal.

Porém o maior discípulo de Platão haveria de afinar as ideias de sua obra filosófica por outro diapasão e assim contrariar tais especulações de seu antigo mestre. Com efeito, para ele, Aristóteles, não existiria mundo a respeito do qual se possa filosofar ou especular que não seja aquele em que se vive e que se vivencia. Esse conceito (ou “pré-conceito”), por sua vez filho primogênito do racionalismo aristotélico, há de ser o pressuposto, ou alicerce, sobre o qual o ilustre filho da Macedônia vai erigir sua filosofia e sua ciência.