Carência de meio psicológico

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Prof. Olga C. de Almeida

Atravessa-se uma época em que o meio social está influenciando desfavoravelmente as atividades da consciência. Forçados pelas necessidades comuns da vida, órgãos, ossos e músculos, funcionando sem descanso, desenvolvem-se espontaneamente. E a conformação orgânica muscular à esquelética não é a mesma, se compararmos o homem da montanha ao da cidade.

O mesmo não acontece com as atividades mentais, que nunca se desenvolvem espontaneamente. O filho do sábio não herda qualquer dos conhecimentos do pai. Abandonado numa ilha deserta, não seria superior aos nossos antepassados. As funções mentais se conservam com existência aparente, enquanto lhes falta a educação e um meio em que a inteligência e o senso moral, o sentido estético e espiritual dos antepassados deixaram vestígios.

É o caráter do meio psicológico que, em grande parte, determina a qualidade e intensidade das manifestações da consciência de cada um. O meio muito pobre impede que a inteligência e o senso moral se desenvolvam normalmente. Se for mal, essas atividades se tornam viciosas.

O homem acha-se imerso no meio social, como as células no meio interior. Tal qual elas, não pode furtar-se à influência do que o rodeia, se não for esclarecido.

O corpo se protege melhor do mundo cósmico, que a consciência, do mundo psicológico.

Enquanto aquele se defende das contaminações dos agentes físicos e químicos, a consciência, contrariamente, está exposta a todas as invasões intelectuais e morais do meio social.  E, por isso mesmo, essas invasões se desenvolvem normal ou defeituosamente.

A inteligência de cada um depende, em grande parte, da educação recebida do meio em que vive, da disciplina interior, das ideias correntes na época pelo estudo metódico das humanidades e das ciências, pelos hábitos de pensamentos.

Professores primários ou universitários, bibliotecas e laboratórios, livros ou revistas bastam o desenvolvimento do espírito, mas na falta de professores podem bastar os livros.

Não será tão difícil, vivendo num meio social pouco inteligente, possuir elevada cultura. O mesmo não acontece com a formação das atividades morais, estéticas e espirituais. A influência do meio sobre tais aspectos é muito sutil.

Não é frequentando um curso que se aprende a distinguir o bem do mal, o feio do belo. Moral e espiritualidade não se ensinam como gramática, história, matemática… Compreender e sentir são coisas diferentes e profundas. O ensino formal visa somente à inteligência. É impossível compreender o sentido da moral num meio em que essa coisa não está presente, fazendo parte do dia a dia.

Ao desenvolvimento da inteligência basta o exercício, ao passo que ao da consciência é exigido um meio, um grupo de seres humanos em cuja existência se ache incorporado.

Nossa civilização não conseguiu criar, até o momento presente, o meio propício às atividades mentais. O fraco valor intelectual e moral dos homens atuais deve ser atribuído, em grande parte, à insuficiência e à má composição da atmosfera psicológica.

A primazia da matéria e o utilitarismo estão suprimindo o sentimento da beleza e da moral, como não acontecia na era cristã. Ao mesmo tempo, as modificações no gênero da existência provocaram a dissolução do grupo familiar e social com individualidades e tradições próprias.

A enorme difusão de jornais, da radiofonia, do cinema e da televisão nivelou as classes intelectuais da sociedade pelo ponto mais baixo. A televisão e o rádio (com algumas exceções) levam a vulgaridade que agrada à multidão.

Torna-se vulgar a inteligência, apesar da excelência dos inúmeros colégios e faculdades. Os estudantes moldam o espírito pelo desvalor dos programas de rádio, televisão e cinema.

O meio social, além de não favorecer o desenvolvimento da inteligência, ainda se lhe opõe: monumentos de grande beleza se transformam, pelo imperativo da arquitetura atualizada. Despida de senso moral, a sociedade se inspira na irresponsabilidade. Consciência, ciência e arte rastejam diante da fascinação que exerce a posse do dinheiro.

Floresce a homossexualidade. Os que distinguem o bem do mal, que trabalham e são previdentes, são considerados seres inferiores, “quadrados”.

Publicado em 20 de outubro de 1975.