Nossas duas mentes

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Caruso Samel

Escritor, militante da Filial Butantã (SP)

No artigo Cérebro, mente e intelecto, de nossa autoria, publicado em duas partes no jornal A Razão de julho e agosto de 2004 e, posteriormente, inserido em nosso livro Valor dos sentimentos, página 132, publicado em dezembro de 2012, conceituamos e fizemos uma incursão nessa tríade, mostrando como eles interagem entre si. Mais recentemente, no artigo Os nossos dois eus, publicado no jornal A Razão de janeiro de 2018, nós tratamos com objetividade como se manifestam os nossos dois “eus” nas nossas atividades diárias e como alcançar o nosso “verdadeiro eu”.

No primeiro artigo acima citado, sobre a mente escrevi “como encontrar o que é imaterial, o que é transcendental, no que é material? Esta é a questão. Por isso, o conceito de “mente” permanece tão obscuro e controverso entre tantos e tantos filósofos, cientistas, neurocientistas, pesquisadores e, mais recentemente, psicólogos.” Por isso mesmo, a busca por esse  conhecimento tem recorrência em minha mente, de tal modo que não paro de pesquisar os avanços da ciência neste particular. E, já adiantamos, não vamos parar neste artigo.

Quando se busca encontrar um liame entre o racional e o emocional encontramos dificuldades, mas qualquer pessoa pode sentir essa dicotomia que não os tornam antagônicos, já que ambos se complementam. O modo racional é a compreensão de que a pessoa se vale conscientemente da consciência com reflexão e ponderação, levando a mente ao bom senso em suas ações. Paralelamente, junto com o modo racional existe outro sistema de conhecimento, de natureza impulsiva e poderosa, embora muitas vezes ilógica – o sistema emocional. É como se aqui, para os materialistas, o comando partisse do coração e não do cérebro, que para eles é o único centro pensante racional. Esse sistema, por reagir mais rapidamente com os recursos do sistema límbico do cérebro, promove uma reação praticamente instantânea nas situações de perigo, nas quais, muitas vezes, ele salva as nossas vidas.

Interessante é concluir que estes dois sistemas são interdependentes e trabalham em harmonia um com o outro, entendendo-se que os sentimentos são essenciais para o pensamento de convivência e vice-versa. Enquanto a mente emocional reage impulsivamente, a mente racional refina e harmoniza as consequências mediante o uso do livre-arbítrio. Aqui neste artigo vamos tratar mais amplamente da mente, colocando o nosso olhar sobre três pontos de vista, a saber, o materialista, o budista e o espiritualista:

1. A mente sob o ponto de vista materialista. Na vanguarda desses estudos encontramos o psicólogo PhD Daniel Goleman, que, em seu livro pioneiro intitulado Inteligência Emocional, publicado no Brasil em 1994 pela Editora Objetiva, introduziu o conceito de inteligência emocional, criando o Coeficiente de Inteligência Emocional, abreviado QE, que veio complementar o conhecido Coeficiente de Inteligência – QI. Foi uma teoria revolucionária que redefiniu o que é ser inteligente, com base nos sentimentos e emoções. Este conhecimento, embora baseado no que a neurociência havia revelado até então sobre o funcionamento do cérebro, teve boa aceitação pelos estudiosos das relações humanas, a ponto de o QE – Coeficiente de Inteligência Emocional, juntamente com o QI – Coeficiente de Inteligência serem modernamente aplicados na avaliação de candidatos a empregos nas grandes empresas de todo o mundo.

Mais tarde, já em pleno século XXI, o Dr. António R. Damásio, neurocientista português, autor do livro O erro de Descartes, editado no Brasil pela Companhia das Letras em outubro de 2004, veio reforçar que a mente é um produto do cérebro e se localiza em algum lugar dele. No capítulo 7 – Emoções e sentimentos – de seu livro ele apresenta, com sua notoriedade em neurociência, o mecanismo biodinâmico de formação das emoções e sentimentos pelo cérebro. Suas conclusões, aceitas pela ciência, fundamentam a aceitação científica da hipótese materialista da mente.

2. A mente sob o ponto de vista budista. O budismo nos ensina que para questionar sobre a natureza da mente devemos procurar saber, a um nível mais profundo, o que realmente somos. E afirma que os que se enquadram e buscam por essa resposta são realmente raros. Segundo Kalu Rinpoche, “a questão básica é que a mente conheça a si mesma porque aquele que a procura, o sujeito, é a própria mente, e o objeto que ele procura examinar também é a mente”. E, ainda, ele nos explica essa dificuldade com esta conclusão: “Não reconhecemos a nossa mente simplesmente porque ela está muito próxima. Um provérbio relacionado ao Dharma diz: “O olho não pode ver a sua própria pupila”. Igualmente, nossa própria mente não tem a capacidade de ver a si mesma; ela está próxima, tão íntima, que não podemos discerni-la”. Esbarramos, assim, com um paradoxo de difícil solução.

A questão básica aqui é que experenciamos tudo através de um ponto central de referência – o nosso corpo físico, o que não permite expandir a mente para a reconhecermos e nos certificarmos de que ela existe invisível em nós para nós e para os outros. Enfim, esse centro de referência é irremovível, porque ele é o próprio observador que encerra a mente, nosso objeto de procura. Então, devido à ilusão do nosso próprio “eu”, ficamos embaraçados e ignorantes sobre a natureza da mente. Segundo o autor citado, quatro véus impedem conhecermos a mente: o véu da ignorância, o véu da tendência básica ou do apego ao dualismo sujeito-objeto, o véu das paixões e a ignorância.

3. A mente sob o ponto de vista espiritualista. Longe de nós considerarmos o cérebro irrelevante para a compreensão de nossa mente. Na verdade, seu cérebro foi concebido e estruturado por você mesmo antes de encarnar, de modo a fazer tarefas simples e repetitivas, como se aí houvesse numerosos programas semelhantes aos disponíveis em um computador, para que você possa tomar decisões mais importantes que exigem raciocínio e lógica. Os estudos e pesquisas sobre o cérebro avançam exponencialmente e beneficiam muito os procedimentos médicos nessa região do corpo.

O Racionalismo Cristão, pelas inúmeras comunicações superiores de espíritos do Astral Superior, notadamente pelo espírito de Antonio Pinheiro Guedes, que foi médico em vida física e escreveu o livro Ciência Espírita, adotou e continua adotando os ensinamentos psicológicos da existência da mente consciente e da mente subconsciente. E estas duas mentes operam harmonicamente para expressar os pensamentos, sentimentos e emoções  da competência exclusiva do espírito, que, na sua passagem pela Terra, necessita processar sua evolução.

Assim sendo, sabemos que as nossas mentes não estão confinadas aos nossos cérebros e se estendem para além deles. Essa expansão da mente ocorre através dos campos mentais (semelhantes aos campos eletromagnéticos de um ímã), que existem dentro e fora dos nossos cérebros, como verdadeiros campos fluídicos. Estes operam sob o comando das vibrações do espírito (pensamentos e sentimentos e emoções) num processo simbiótico extremamente rápido da ordem de milésimos de segundos. Esse é o meu entendimento a priori, em que afirmo que a mente opera por um processo ultradinâmico, sem me afastar um milímetro dos ensinamentos do Racionalismo Cristão. No próximo número apresentaremos mais a fundo essa teoria.