Mais tarde, após uma manhã intensa de organização da casa e revisão de anotações para um projeto pessoal, Clara sentiu vontade de respirar um pouco ao ar livre. Foi então que decidiu passar pela pracinha, detendo-se num ponto específico de onde se avistava uma floresta — algo incomum num centro urbano. Aquele espaço, para ela, era mais do que um refúgio: parecia espelhar a ordem e a leveza que buscava interiormente.
Sentou-se sozinha no banco onde tantas vezes escutara em silêncio conselhos e orientações de Teresa, colhendo palavras como quem colhe sementes. O cheiro das folhas secas e da terra quente envolvia-lhe os sentidos. Com ele, vinha uma intuição serena: talvez o que Teresa lhe transmitia não fosse apenas sabedoria intelectual, mas uma presença que ensinava pelo exemplo — uma forma de liberdade interior expressa em gestos simples, silêncios acolhedores e escolhas coerentes. Um modo de estar no mundo que preenchia o vazio não com presenças, mas com sentido.
Clara sabia que as pessoas não estão no mundo para corresponder às nossas expectativas — uma verdade que aceitava com serenidade. Ainda assim, cada encontro com Teresa lhe trazia uma nova compreensão, um detalhe antes invisível, uma chave discreta para ler melhor a vida. E isso, simplesmente, fazia-lhe bem. Não sabia se encontraria a amiga naquele dia, pois Teresa não havia confirmado o encontro, mas Clara intuía que, mais cedo ou mais tarde, ela passaria por ali. E acertou. Quando Teresa chegou, percebeu que Clara trazia um semblante confiante e já não ansiava apenas por conselhos.
— Hoje eu não trouxe perguntas — disse Clara, em tom sereno. — Só quis me sentar um pouco, respirar devagar. E, já que você chegou, podemos compartilhar esse momento. Às vezes, isso é o bastante.
— E é mesmo — respondeu Teresa, com um leve sorriso. — Estar, às vezes, é mais do que suficiente. Não raro entendemos mais a nós mesmos e às pessoas próximas no silêncio do que nas palavras.
Naquele dia, no entanto, algo diferente pairava no ar. Teresa, sempre tão serena, parecia ligeiramente inquieta. Enquanto Clara falava, percebeu no olhar da amiga uma hesitação contida. Ao final da conversa, já de pé para se despedirem, Teresa segurou-lhe a mão por um instante a mais do que o habitual, dizendo-lhe:
— Há algo importante que desejo partilhar com você, mas hoje não é o momento. Não por receio, mas porque certas realidades exigem a ocasião adequada para ser partilhadas com clareza e inteireza.
Clara não insistiu. Apenas assentiu com um olhar acolhedor. Intuiu que, por trás da sabedoria que tanto a inspirava, Teresa também carregava suas próprias fragilidades. E que talvez, em breve, a direção do cuidado se invertesse — e fosse Clara quem oferecesse o ombro, o silêncio, a escuta.
Enquanto se despediam, Teresa, com a habitual discrição e um leve sorriso, fez questão de recordar a importância vital de cultivar pensamentos elevados. Afinal, como costumava dizer, são os pensamentos que moldam a forma como vivenciamos a realidade — e mantê-los positivos e vigorosos é direcionar a mente para o que é bom, belo e verdadeiro. Clara reconheceu, em silêncio, a profundidade daquele ensinamento. Havia ali uma sabedoria simples e essencial, que ecoava fundo.

