Nenhuma mudança profunda acontece de forma abrupta. As grandes transformações começam silenciosas, no fundo da alma, alimentadas por um incômodo sutil que se infiltra, quase invisível, pelas brechas do cotidiano, até que se torne impossível sustentar a aparência frágil de normalidade. O que ora se rompe quase sempre já carregava, há muito tempo, a marca silenciosa da fratura.
João caminhava pela rua como quem atravessa um território que lhe fora íntimo, mas então se revelava como um enigma distante. O bairro permanecia o mesmo: muros guardando os velhos portões de ferro, fachadas nas mesmas cores gastas pelo tempo — e, ainda assim, não havia nele mais conexão. O chão que outrora lhe firmara o passo parecia ceder, como se as solas de seus sapatos tocassem um mundo instável que se desfazia lentamente sob seus pés. Era uma sensação simples e implacável: o tempo seguia em seu fluxo ininterrupto e inexorável. Ele, não.
Ao passar pela banca de jornal, deteve-se diante de um exemplar exposto. Chamou-lhe especial atenção a manchete que dizia: “Assuma o protagonismo de sua vida!”. Não conhecia o jornal. Não quis comprar. Mas aquela frase emergiu como uma verdade que ele sempre evitara encarar. Seguiu andando, com as palavras pulsando e reverberando na mente. A vida, percebeu, não era um enredo escrito por outros, mas um palco aberto à espera de que ele, enfim, entrasse em cena.
Em casa, Clara pintava. Não seguia modelos prontos, mas havia intenção em cada gesto. Escolhia as cores com atenção, combinando-as em composições que não buscavam representar algo concreto, mas transmitiam uma harmonia própria e silenciosa. João a observava de pé, a distância, como se a presença dela no chão da sala, rodeada de pincéis, fosse uma cena capaz de abalar sua antiga imagem de esposa; não por inadequação, mas por reinvenção deliberada.
— O que você está fazendo? — perguntou, por fim.
— Estou aprendendo a fazer algo que não se mede pela utilidade — respondeu Clara, sem desviar os olhos da tela.
As palavras o atingiram fundo. Percebeu o quanto, por anos, tudo o que fazia precisava ter justificativa, coerência superficial, retorno material e mensurável. Sua vida inteira girara em torno de manter as coisas no lugar. Mas naquela ocasião via: manter tudo no lugar era o que o impedia de mudar de posição, de evoluir, de respirar.
Mais tarde, sozinho, meditou profundamente e anotou a seguinte frase:
“A rotina me protegeu do caos, mas também me impediu de ampliar meu horizonte existencial e íntimo.”
E quando terminou de escrever, não soube se sentia alívio ou angústia. Reconheceu, no entanto, que o início da mudança estava ali: identificar com clareza os pontos que deveriam ser ressignificados e os paradigmas que precisavam ser.

