Multi, inteligente, verde

Contrariando frontalmente o dito popular, a Indonésia 2025 está com tudo – e está prosa. São 70 anos da Conferência de Bandung e seu espírito imorredouro de solidariedade, são 80 anos da independência e toda uma rota de luta, é o ingresso do país como membro pleno do Brics+, é sua própria história em narrativa reescrita para recuperar a visão e vozes dos esquecidos ou ignorados. Enfim, aflorar a memória da identidade nacional e doá-la às novas gerações. Mas o zênite é mesmo a nova capital, Nusantara, que já será a capital política em 2028 e plena em 2045. O relato dessa trajetória repetirá a narrativa discutível de poder?     

O governo começa a recopilar o Livro da História Nacional Indonésia, que pretende publicar ainda em 2025 ou 2026. O projeto caminha na reconstrução da narrativa histórica, em meio ao debate da centralidade, sem vez e voz das minorias. Envolve acadêmicos da ampla diversidade étnica indonésia. Quer fugir do fantasma da estrutura historiográfica dominante e ceder, enfim, às raízes e pegadas nacionais, fora da torre de marfim. Não só preencher o vazio da história colonial com nomes novos, mas rearranjar a orientação do próprio pensamento histórico. Assim prega Soedjatmoko, proeminente intelectual cuja obra inclui, em 1983, A Dimensão Humana no Desenvolvimento, abordando o contexto sócio-cultural. Passado e presente, centro e periferia, os dominantes e os silenciados – mulheres, povos nativos, artes, esporte. “Porque uma história honesta não é apenas sobre quem vence, mas também sobre quem é, enfim, ouvido.” Evocando o orador romano Cícero, os indonésios costumam dizer que a história é um espelho, o mestre da vida. 

Recursos naturais. Nestes 80 anos de aniversário, os trunfos da independência alimentam o país. Enquanto os não-alinhados de Bandung foram principalmente políticos, o multialinhado Brics+ evolui no sentido de uma “função econômica e estratégica”, que bem calha à Indonésia. Com a integração, no grupo, de países ricos em recursos naturais firma-se a ideia de sistemas alternativos para redistribuir esses recursos. No âmago da questão, a segurança energética face ao clima desgostoso do aquecimento. Os minerais críticos são preciosos. Já existe uma guerra comercial pelos 17 elementos Terras Raras, cruciais para a transição energética e suas indústrias de tecnologia avançada, inclusive as militares. Seria justo dar a todos acesso a esses recursos naturais, tão abundantes e tão fugidios, tão necessários e de produção tão concentrada. O empenho da Indonésia, por exemplo, ao estabelecer parcerias com Rússia e China, visa a cadeias alternativas de fornecimento pela via do Brics+. O que permite diversificar fontes, modernizar e inovar, barganhar preços no mercado. A seu tempo, também confrontar instituições internacionais (ONU, por exemplo), as quais o grupo se propõe repensar, para que todos usufruam do ora cerceado direito de influir em decisões globais.

Compõem a Indonésia aproximadamente 17.500 ilhas – o maior arquipélago do mundo. Mais de 7 mil são desabitadas. Há uma vasta área do país no Sudeste asiático, com território continental na Sumatra, Kalimantan e o ocidente da Nova Guiné (três quartos da superfície total indonésia). Sua geografia inclui montanhas vulcânicas, planícies costeiras e recifes de coral, que refletem a estrutura geológica complexa, na junção de três grandes seções da crosta terrestre. Afeita que é a desastres, por sua localização em zona tectônica ativa, a Indonésia sofre terremotos em pelo menos sete regiões. Estes podem, também, desencadear atividade vulcânica. São 127 vulcões ativos; entre 1900 e 2023, houve 14.820 terremotos. É difícil esquecer o terremoto/tsunami em Aceh, 26 de dezembro 2004, que se alastrou às zonas costeiras do Sudeste e Sul da Ásia, e causou 227 mil mortos. Quanto a Jacarta, a superpovoada capital que já nem é mais, tem poluição e desastres climáticos frequentes. Continua afundando. Um paraíso de insustentabilidade.

Depósitos minerais. O país dispõe de grande variedade de depósitos minerais, muitos sem extração. Dos combustíveis fósseis – petróleo, gás natural e carvão como a maior fonte de ingressos – provém o grosso da energia elétrica. Ator na cena internacional, tem papel proeminente na AAC (países da Ásia e África), Associação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) e participa da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean). Nesta (Encontro sobre Transição Energética, 26 de maio, Foro Econômico Mundial), confirmou a boa nova: está apta à transição energética. Em 58º lugar dentre 118 países no Energy Transition Index 2025, para progredir basta orquestrar as devidas políticas e seguir o curso exigido do multi: velocidade e dimensão.  

É aqui que se ajustam os ponteiros de Nusantara. A nova capital fica em Bornéu, a terceira maior ilha do mundo, esplêndida em biodiversidade, quatro vezes maior que Jacarta. Já é uma cidade inteligente, cercada pela floresta numa área de 75%. Verde para caminhar, a cada dez passos. Só energia renovável, de baixo carbono. Indústrias de tecnologia limpa, agricultura sustentável, ecoturismo. Ainda este ano deve ficar pronta a infraestrutura de estradas, edifícios públicos e prédios para 500 mil habitantes. A capital financeira (seis bancos envolvidos até agora) chega em 2026.

O destino das cidades e das florestas é inseparável, diz Robert Muggah, co-fundador do Instituto Igarapé. “A COP30 representa uma oportunidade única de aproximar natureza e urbanização. Belém, cidade às margens da maior floresta tropical do mundo, é um símbolo poderoso”. E mais: “A presidência brasileira oferece uma alavanca poderosa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal até 2030 e a revitalizar as cidades por meio de melhorias no transporte e na habitação. Se bem executadas, essas metas domésticas podem tornar-se um modelo global”. No contexto dessa lógica, a COP30 seria também uma oportunidade de (bons) negócios.

Destaque na Nova Agenda Urbana (NAU), a interface cidades-natureza persiste no alerta: é urgente adaptar/mitigar mudança climática e desenvolvimento urbano e territorial. Finanças públicas são tradicionais no financiamento climático, mas o financiamento privado vem ganhando destaque em parcerias. Indonésia/Nusantara estão a postos, seguindo o motto nacional de unidade na diversidade. No Brics+, concretizam a vocação. A Indonésia pretende estar, em 2045, definitivamente, no rol dos países desenvolvidos e Nusantara na liderança de cidades sustentáveis.