É complicado saber quem é quem e como se articulam na sociedade

Há muito se sabe que os limites se romperam, que se apagaram as linhas imaginárias que marcavam a separação das pessoas de bem das outras, as que mandam das que devem obedecer, os policiais dos bandidos, os que trabalham dos que vivem à custa do trabalho alheio, dos crentes dos incréus, quase a distância entre os vivos dos mortos. Diria um iletrado, mas observador: está uma zorra.

Não há mais como fazer a verificação. O indivíduo segue um rumo sem saber em que lado da antiga linha está, troca cumprimentos com quem cruza na caminhada, confia num passante qualquer que lhe dirija um sorriso e que, adiante, lhe faça uma promessa. Esse ingênuo, que segue pelo  terreno que julga conhecer, é então atraído e fisgado. As eleições se aproximam e ele vota. Vota no sorriso ou na promessa, tanto faz. Muito mais tarde descobre que foi enganado e com ele milhares de outros incautos que se esqueceram que já quase não existe mais a dicotomia bem-mal. Quando esse distraído e seus simplórios companheiros de sina fazem a descoberta? Quando os canais de comunicação divulgam as acusações com base nos resultados de detalhadas e dispendiosas investigações policiais.

Pois aquele passante que se escondia atrás de um sorriso simpático e de uma conversa enganosa bem articulada seria portador do que se pode chamar de bipolaridade social, que numa hora proclama e aplaude a aquisição de veículos para facilitar à polícia o combate a criminosos, noutra faz chegar a facções do crime organizados equipamentos para confronto com policiais e para dominar e manter submissa a população desarmada que estuda, presta serviços ou ganha seu pão numa fábrica ou oficina. Daí o cidadão não saber quem recebe dinheiro dos cofres públicos – do povo, em última análise -, quem a gravata esconde e qual sua atividade paralela, quando e se a tem. Consequentemente, de que lado está: a favor ou contra os que, com sacrifício, engordam suas poupanças e sustentam suas vidas de luxo.

Por que toda essa lenga-lenga em torno de situações conhecidas, indagará o leitor.  É que ela tem origem na prisão de um ex-deputado estadual do Rio de Janeiro indicado em mandados expedidos pela Justiça Federal e pelo Tribunal de Justiça do RJ e alcançado pela Polícia Federal sob a acusação de tráfico, corrupção, venda de armas a facções criminosas e lavagem de dinheiro, episódio que surpreedeu, revoltou e deixou confusa a população, principalmente os eleitores que lhe deram o voto. Ele já havia sido preso em 2017, provocando a investigação de policiais militares suspeitos de lhe darem cobertura como seguranças particulares. Na época, segundo inquérito, foi acusado de pagar propina a policiais, vender armas a traficantes e informar a bandidos de várias favelas dos subúrbios sobre operações da Polícia em suas regiões. Condenado a quase 15 anos de cadeia cumpriu 10 meses e, por força de um habeas corpus que lhe permite apelar da sentença em liberdade, pôde assumir o cargo de deputado.

Investigações da Polícia Civil apontam o ex-parlamentar como responsável por lavar dinheiro para as três maiores facções do crime organizado no Rio de  Janeiro.

Embora bem sucedido no ofício aprendido com o pai e do comércio também herdado, quis sucesso igualmente na política e, na eleição de 2022, recebeu 15.105 votos, que lhe garantiram uma suplência na Assembléia Legislativa. Em 2024 alcançou a vaga, consequência da morte de um titular e saída de outro para servir ao governo estadual, e chegou a presidir a Comissão de Defesa Civil. Com o retorno do titular a sua cadeira, o mau legislador perdeu a vaga e as prerrogativas.

Além do ex-deputado, a investigação da Polícia Federal relacionou outros suspeitos de participação no esquema de corrupção envolvendo facções criminosas, entre eles um delegado da Polícia Federal, policiais militares e um ex-secretário municipal e estadual.

Para a polícia, a organização que contrabandeava armas do Paraguai e armas anti-drones da China, se infiltrava na administração pública para garantir impunidade a seus membros e protegidos e acesso a informações sigilosas.

Com situação de tal natureza e tal gravidade, transcorrendo nas nossas barbas, cabe indagar o que mais esperar neste Brasil de rimas mil.