O céu, encoberto por nuvens compactas, não apenas apagava o brilho do sol; parecia, sobretudo, conter o tempo em suspensão, como se o dia, ainda indeciso, resistisse a acontecer. João, desperto antes da aurora, permanecia na cama não por apatia ou preguiça, mas porque lhe faltava um motivo claro, uma razão nítida que o impulsionasse a se levantar. A hesitação não era nova, mas tomava contornos cada vez mais nítidos. Ele se via constantemente diante de dois caminhos que o afastavam de si mesmo. De um lado, a rotina conhecida — estável, porém árida, que lhe oferecia previsibilidade, mas o fazia desaparecer dentro dos próprios gestos, esvaziando-o por dentro. De outro, a ideia de mudança — desafiadora e indefinida, capaz de abalar o que ainda restava de firme, fazendo-o temer uma transformação prematura que, mais do que um impulso passageiro, era uma necessidade encoberta por anos de silêncio.
Não era o corpo que o prendia ao leito, mas o pensamento. Uma inquietação insidiosa, difícil de identificar, que se instalara sem alarde e agora dominava o espaço interno. João não sabia dizer exatamente o que estava errado, mas sentia, com clareza crescente, que continuar como estava tornava-se injustificável e insustentável. Era como uma infiltração silenciosa: imperceptível no início, mas que, com o tempo, deixava marcas profundas nas paredes mais íntimas da consciência. Essa silenciosa imobilidade, longe de ser paz, era o palco em que a vontade se reabre num lento despertar que não suprime angústias, mas as reconhece.
A casa, em sua quietude habitual, parecia suspensa entre passado e futuro. Clara, já na cozinha, envolvia as mãos em torno de uma xícara quente, como quem se vale de gestos enraizados para não se perder no turbilhão dos dias. João a observou por alguns instantes, sem coragem de quebrar o silêncio. Quando se aproximou, não falou do sonho inquietante que tivera — em que atravessava um corredor de espelhos que não refletiam sua imagem —, mas apenas falou:
— E se eu disser que estou pronto pra mudar?
Clara ergueu os olhos e demorou-se nele. Havia naquela pausa mais do que hesitação: havia escuta. Depois, com a serenidade de quem pesa palavras e raciocina com sensibilidade, respondeu:
— Então talvez seja o começo da parte mais autêntica de sua vida.
A frase, simples na forma, revelou-se profunda no sentido. “Parte autêntica”, João repetia por dentro, como quem experimenta uma nova verdade. E pensou: “Tudo o que vivi até aqui terá sido disfarce?”
Percebeu, com um susto sereno, que há existências sustentadas mais pela aparência do que pela essência, mais por inércia do que por escolha, ao passo que o lirismo da vida — aquele que pulsa mesmo nas hesitações — se revela justamente quando se reconhece a fragilidade de permanecer.
Tomado por uma espécie de urgência discreta, João passou o resto da manhã limpando o escritório. Não era limpeza, mas busca. Entre papéis velhos e pastas esquecidas, encontrou uma carta nunca enviada a Clara, datada de seis anos atrás. Leu. Sorriu sem alegria. Rasgou.
Naquela tarde, ligou para Antônio. Conversaram sobre possibilidades, projetos, cursos, redes de apoio profissional. João usava palavras com segurança, mas por dentro se sentia como quem solta uma bengala sem saber se os pés reaprenderam a caminhar sozinhos. Ao desligar, não soube dizer se havia avançado ou apenas mudado de posição. Compreendeu, então, que coragem não é ausência de medo, mas disposição de continuar, mesmo superando-o lentamente. Saiu para o trabalho. Naquele dia, o expediente começaria mais tarde por um ajuste eventual na agenda.
Ao retornar no fim da tarde, decidiu passar na barbearia. Pediu um corte novo, sem pensar muito. O barbeiro, que o atendia há anos, observou-o silenciosamente antes de comentar:
— O senhor está diferente hoje. Leve, mas com o olhar cansado.
João sorriu. Era uma boa definição. Estava mais leve, sim, mas como quem deixa a armadura no chão e ainda não aprendeu a andar sem ela.
Ao voltar para casa, viu Mariana sentada no muro da calçada, os olhos fixos na tela do celular. Não era distração, mas fuga. Sentou-se ao lado. Quis dizer algo, mas hesitou. Ela, sem desviar o olhar, perguntou:
— O senhor acha que a gente ainda vive a própria vida ou só segue o roteiro que entregam para a gente?
João levou um tempo para absorver a pergunta daquela adolescente questionadora e perspicaz. Não respondeu. Apenas tocou de leve o ombro da filha. Às vezes, o mais honesto é reconhecer que a resposta ainda não existe — e estar junto já é parte dela.
Naquela noite, Clara propôs um jogo antigo: cada um contaria uma lembrança de infância. Bruno animou-se. Mariana resistiu, mas acabou cedendo. Quando chegou sua vez, João falou de um verão em que seu pai lhe ensinara como fazer uma pipa. Lembrou-se do momento em que a linha se rompera e a pipa ascendera livre, até desaparecer no céu. Ninguém comentou, mas o silêncio foi de entendimento. Era hora de soltar o que não se sustentava mais. A lembrança, breve e luminosa, foi como um momento fugitivo em que ressoa discretamente a possibilidade de recomeçar.
Antes de dormir, Clara deixou sobre o criado-mudo um livro recomendado por Teresa: uma obra epistolar, construída em forma de cartas — gênero que poderia parecer antiquado para os mais jovens, mas que carrega, justamente por sua estrutura, uma potência singular de intimidade e esclarecimento.
Nesse gênero, cada carta é uma fresta pela qual o leitor espia o mundo emocional dos personagens, sem mediações, sem filtros sociais ou descrições em terceira pessoa. Há ali uma proximidade afetiva que se estabelece pela linguagem direta, pela espontaneidade, pela hesitação entre o que se diz e o que se cala. Em tempos de mensagens instantâneas e comunicação fragmentada, o gênero epistolar convida à pausa, à escuta demorada, ao vínculo construído na ausência. Sua atualidade está justamente em nos lembrar que a palavra escrita, quando carregada de intenção e afeto, ainda tem o poder de criar presença.
João abriu o livro despretensiosamente e leu um trecho breve. Não soube explicar por quê, mas teve a nítida sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, começava a compreender a si mesmo — e isso, surpreendentemente, lhe trouxe entusiasmo.

