Vivemos tempos de muita instabilidade e perda de referências sobre o que é certo ou importante. Por isso, é essencial repensar, sob a ótica da espiritualidade defendida pelo Racionalismo Cristão, o que significa ter controle sobre a própria vida. Essa reflexão precisa unir liberdade, responsabilidade e a superação da postura de vítima. Ter domínio sobre si mesmo não é só uma qualidade pessoal — é algo fundamental para manter a integridade moral e viver de forma verdadeira com nossos valores mais profundos.
Quando alguém abre mão do controle sobre seus pensamentos, escolhas e atitudes, corre o risco de se colocar no papel de vítima, mesmo sem perceber. Isso o torna mais frágil diante das mudanças do mundo e enfraquece sua capacidade de decidir por si. Ignorar o próprio poder de escolha compromete a liberdade interior e atrapalha o caminho do crescimento pessoal. Quando deixamos de cuidar do que está ao nosso alcance, rompemos com a lógica que deveria guiar nossas ações e perdemos a harmonia entre razão e ética.
É oportuno mencionarmos que hoje em dia muita gente entende “controle” de forma negativa — como se fosse algo que tira a liberdade ou bloqueia a espontaneidade. Mas essa visão está equivocada. Em nossa filosofia de vida, o Racionalismo Cristão, o controle, quando guiado pela razão e pela espiritualidade, é justamente o que nos liberta. Ele traz equilíbrio, paz interior e aumenta nossas chances de sucesso em várias áreas da vida.
Autonomia não é um privilégio de poucos, mas um atributo do espírito que todos possuem. E, como parte da nossa essência espiritual, deve ser valorizada como base da dignidade humana. Em um mundo cheio de desafios — sociais, emocionais, ecológicos, jurídicos e financeiros —, é urgente resgatar a ideia de autonomia como a habilidade de se governar. Quando alguém desenvolve essa autonomia, fortalece sua vida interior, especialmente a espiritualidade, que muitas vezes é deixada de lado por visões muito práticas ou materialistas.
Essas visões, ao ignorarem a dimensão espiritual da vida, acabam formando pessoas desconectadas de si mesmas e emocionalmente frágeis. Por isso, a autonomia espiritual é tão importante: ela nos guia no processo de transformação pessoal. É a razão, iluminada pelo conhecimento espiritual autêntico, que nos ajuda a agir com virtude e independência verdadeira.
Adotar a postura de vítima é renunciar ao papel principal na própria vida. Em alguns casos, pode ser uma forma de lidar com a dor, mas, culturalmente, vira uma maneira de se conformar e se afastar da responsabilidade. Essa atitude aparece em pessoas que culpam o governo, a sociedade, a família, o vizinho ou o chefe por tudo que dá errado, sem assumir a iniciativa de mudar a situação. Ao ficarem paradas, perdem a chance de crescer com os desafios.
Do ponto de vista dos ensinamentos do Racionalismo Cristão, essa postura atrasa o progresso do espírito, que precisa dos desafios para evoluir. Nossos estudos mostram que é justamente nos momentos difíceis que o caráter se fortalece. Aprendemos que a verdadeira liberdade está em não se deixar levar pelos impulsos ou pelas circunstâncias.
Um bom exemplo disso está no livro Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Ivan, um dos personagens, recusa a responsabilidade diante do sofrimento humano e afunda-se numa crise existencial profunda. Já seu irmão Aliócha escolhe o caminho da empatia e da superação. Essa diferença mostra como assumir ou não o controle da própria vida pode levar a destinos bem diferentes.
Esse exemplo vale para muitas situações reais: desde quem continua em um trabalho tóxico sem buscar alternativas ou ajuda, até quem repete inconscientemente padrões familiares negativos sem tentar se conhecer melhor. Em todos os casos, afirmamos, o desafio é sair do papel de vítima e assumir a responsabilidade ativa — caminho essencial para uma vida mais livre, verdadeira e feliz.
Como procuramos demonstrar na presente reflexão, assumir o controle da própria vida é um ato de coragem silenciosa e força interior. É ouvir aquele chamado interno que nos convida a crescer. É como retomar o volante de um carro que estava no piloto automático e indo direto para o abismo da indiferença. Tomar as rédeas é escolher, dia após dia, não se deixar levar pela preguiça ou pelo medo, mas cumprir com dedicação o que começamos e cuidar com seriedade dos compromissos que assumimos.
Isso pode significar sair de um relacionamento abusivo, mudar de carreira, buscar novos aprendizados ou, de forma simples, praticar a honestidade, a solidariedade e a empatia no dia a dia.
Ao rejeitar o papel de vítima, a pessoa se reconecta com sua força interior e reafirma sua dignidade e missão de vida com clareza espiritual. Essa escolha não elimina os problemas, mas transforma a dor em oportunidade de crescimento. É a serenidade que nos ajuda a enfrentar as tempestades sem perder o rumo. É a sabedoria espiritual que nos mostra, dentro da nossa consciência, o caminho seguro da evolução.
Assumir a própria vida é como reiniciar um sistema operacional que estava travado. O ser humano, ao se reorganizar, volta a funcionar em sintonia com sua verdade mais profunda. E é nesse novo começo que a liberdade deixa de ser uma ideia distante e se torna uma realidade vivida.

