Ainda repercute e permanecem claras as marcas que deixou a operação policial de 28 de outubro que resgatou um arsenal, principalmente 88 fuzis, matou 117 suspeitos de tráfico de drogas, prendeu 113 e lamentou a perda de quatro de seus efetivos, estes sepultados com honras. Autoridades da área de segurança pública informaram que foram mobilizados 2 500 policiais federais e civis e militares do estado do Rio de Janeiro para a captura de 500 integrantes da facção criminosa Comando Vermelho que se homiziavam nos complexos de favelas da Penha e do Morro do Alemão, misturando-se aos mais de 100 mil moradores das duas áreas.
Não é só Rio de Janeiro, não é só São Paulo, é todo o país, o tráfico de drogas não é mais criança ou adolescente, é adulto, é cascudo. Como enfrentá-lo, então? Não mais com pequenos castigos ou palmadas no bumbum, mas com cruzados no queixo e porretadas na cabeça, é inevitável tratá-lo com as armas e as práticas com que submete os cidadãos em seu entorno. Nem vale a pena cumprir o ritual, porque o final do filme já é conhecido: prisão, inquérito, denúncia, julgamento, condenação, reclusão com regalias e boa-vida. Vencida a pena, rua, liberdade para, já mais experiente em função do estágio e aprendizado concluído no presídio, a volta ao mundo do crime. Não é isto que o povo pacífico e trabalhador quer. Poucos dias após a investida policial nos complexos da Penha e do Alemão, pesquisa indicava que 57% dos moradores no Rio de Janeiro aprovaram a ação policial e suas consequências.
Esse autodenominado Comando Vermelho atua em todo o país, sob as ordens de um bandido chinfrim, mas sanguinário, que se esconde na cidade do Rio de Janeiro, e há uma compensação de R$ 100 mil por informação que leve a sua prisão. Deve-se entender que, na verdade, esse é um pé-de-chinelo como os soldados que comanda – sujos, fedorentos, de sandálias de dedo e bermuda surrada. Apenas goza de privilégios de moradia, tem cobertura para deslocamentos, deve vestir-se e alimentar-se melhor que seus subordinados. Ainda assim é certo que há alguém acima dele na organização, o poderoso chefão. Aparentemente a Polícia erra quando o procura na favela, porque certamente ele está frequentando restaurantes finos e caros, vivendo em hotéis cinco estrelas ou flutuando em iate cercado de mulheres bonitas e bebendo uísque 18 anos – sonho de consumo da maioria dos mortais.
O resultado da investida gerou uma avalanche de depoimentos nas redes sociais. Eram mães lamentando o destino de seus pimpolhos, aos quais – diziam – haviam pedido que mudassem de vida, parceiros de eliminados que escaparam da degola porque não estavam no lugar errado na hora errada, cidadãos que aplaudiam a ação. Na esfera oficial quase ameaça renascer o insepulto confronto esquerda/direita; sao acusações ao governador, protestos contra os pronunciamentos desencontrados do presidente da República, pronunciamentos de franco-atiradores, de aplauso ou de indignação. Cabe a cada cidadão analisar quem tem razão, com o cuidado de não concluir que ambos erraram, um por excesso de zelo, outro por omissão, conforme as acusações.
Numa rede social a lembrança de que, a par do poder das armas para garantir o comércio de drogas ilícitas, os traficantes, à frente o Comando Vermelho, se valem de subdivisão encarregada de cobrar resgate por veículos roubados como fonte de renda para fortalecimento do tráfico e segurança de seus manda-chuvas. De outra fonte se fica sabendo que os bandidos mantinham oficina para fabricação e manutenção de fuzis. É – ou era – comum dizer-se ao prenúncio de confrontos violentos ou até quando se ameaçava uma reforma administrativa nesta ou naquela repartição pública: “cabeças vão rolar!” No embate de que estamos falando neste artigo não rolaram cabeças, expressão que tinha o sentido de sacrifícios não físicos de pessoas, mas uma rolou de verdade e com ela surgiu o mistério: quem terá sido o carrasco, algum policial ou algum dos parças, na tentativa de confundir as investigações e a opinião pública? A segunda alternativa é viável, de vez que traficantes não têm amor à própria vida, menos ainda à do alheio.
Passados o susto, o incômodo de uns e o alívio de outros, a vida na cidade, maravilhosa apesar de alguns pequenos incidentes, voltou ao normal, após a liberação das vias que integrantes restantes da facção criminosa atingida bloquearam em protesto ou para mostrar força: as novelas pela TV retomaram sua sequência, o Maracanã voltou a receber numerosas frequências para os confrontos da alegria do povo; ônibus, trens e metrô mantiveram-se lotados e circulandoo com os costumeiros atrasos, água faltou aqui, luz faltou ali, internet deixou usuários a ver navios etc. Tudo nos conformes.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA), cujos objetivos derivam da Carta da OEA e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, não podia ser diferente, condenou o episódio. A Comissão diz reconhecer a gravidade da atuação do crime organizado e o seu impacto sobre a plenitude dos direitos humanos, mas manifesta preocupação com a persistência da forma de guerra ao crime, que desumaniza as vítimas e se tem mostrado ineficaz enquanto estratégia de segurança pública para reduzir os níveis de violência. Diz ainda ser urgente que as autoridades brasileiras reformulem suas políticas de enfrentamento ao crime organizado com foco nos direitos humanos, em abordagens centradas nas vítimas e na participação social, conforme os padrões interamericanos.
Não se viu nem ouviu nos imediatos choques de opiniões referência à palavra lei. Este simbólico monossílabo, de tanto valor, somente apareceu no noticiário referente ao episódio quatro dias depois do acontecido, quando o governo encaminhou ao Congresso projeto propondo endurecimento no trato com o tráfico de drogas e seus seguidores. Será que frente ao episódio ela não cabe? Não se viu nem ouviu também palavras não demagógicas, mas de firme decisão, de se levar assistência aos moradores das favelas, para que eles abandonem a solidariedade e dependência dos chefes das bocas-de-fumo.
Bandidos atuam no asfalto, para não atrair a Polícia aos seus covis de tráfico, desmonte de carros, apreensão de motos roubadas, suas centrais de comunicação, suas oficinas de manutenção de armamentos e até de drones.
O tratamento de choque de 28 de outubro abriu pauta com muitos itens para serem resolvidos e superados pelo governo em suas três instâncias, desde que com a anuência e apoio da população incrustrada em moradias paradisíacas que ignora as condições de vida do favelado. Aliás, algum desocupado pendurado numa sinecura ou maluco metido a cientista social entendeu que favela, daí decorrente favelado, são palavras de conotação pejorativa. Palhaçada! O politicamente correto passa a ser comunidade. Como chamar o morador da comunidade? comunitário ou comunista?
Após muito vai, volta, puxa, estica, sopra, chupa, o projeto do goveno antifacções rola pra lá e pra cá, e acredita-se que muita água ainda vai rolar por baixo da ponte neste Brasil de rimas mil.

