Xi, Sul Global!

 A contradição principal de hoje no mundo parece estar entre o uni e o multilateralismo. A tempestuosa postura dos Estados Unidos mostra como, inconformada, a potência hegemônica tenta reverter seu declínio, já com aceite tácito a ser “um entre pares próximos”. Desenha-se o triângulo com a China e Rússia. Esferas de influência? Blocos divisivos? Escolha obrigatória? Assim caminha o proposto compartilhamento da era multi, de transição sistêmica.

Em paralelo para tentar o equilíbrio de poder correm dois projetos rivais. De um lado, o projeto americano de globalização liberal, baseado em capitalismo corporativo, com instituições econômicas transnacionais. Um esforço para oferecer ao Ocidente forma alternativa de internacionalismo capitalista. De outro, o capitalismo dirigido pelo Estado com formas de controle socialistas e propriedade coletiva, capitaneado pela China, num modelo contestador. Um projeto de ordem mundial livre da hegemonia ocidental para 145 países sofrendo a imensa pressão da superexpansão imperialista. Em estado de subdesenvolvimento histórico, dependem do setor primário, sua industrialização é limitada, a dívida externa só cresce, mantêm-se os desequilíbrios comercial, tecnológico e da crise ambiental.         

Muitas cabeças, uma sentença: o alerta ao Sul Global para contratempos mil. Um cenário que se projeta por toda a primeira metade deste século XXI, atingido pela turbulência da era trumpista, título e foco de análise na revista Wenhua Zhongheng (edição dezembro 2025). O “momento de incertezas” perdura, com desdobramentos sem diálogo: a “venda” do petróleo venezuelano, a costumeira interferência americana em processos eleitorais, um permanente estado de guerra na Palestina e Irã, a guerra comercial repetitiva, o mundo insatisfeito e com medo revivendo o fascismo.

Na Europa, alguns países vêm remodelando suas estruturas sócio-ideológicas. Hungria, Polônia e Itália são exemplos. Há forças políticas antiliberais e iliberais ganhando terreno. O Reagrupamento Nacional da França, a AfD da Alemanha e as forças que emergiram do Brexit no Reino Unido contam com um apoio popular significativo. Onde mais há reação? Na África, em que as guerras contra o “terrorismo islâmico” são o pão nosso de cada dia? Há dez cenários de conflito a considerar, segundo Crisis Group, entre os quais o eterno Sudão e o Irã. O Brasil, em ano eleitoral, está sob o impacto geopolítico na América do Sul de virada direitista (Argentina, El Salvador, Chile, Bolívia). E isso sendo um país que vê no multilateralismo a oportunidade de consolidar seu projeto nacional moderno.

A maioria do Sul Global tende a agir com cautela. O grupo vem crescendo em força e capacidade. Sua ascensão, liderada pela Ásia e sobretudo pela China, representa um desafio econômico ao imperialismo. Os países do Norte Global já enfrentam um declínio alongado do crescimento econômico, enquanto os países do Sul Global, sobretudo os asiáticos, apresentam uma trajetória de crescimento econômico mais alta nos últimos trinta anos. Em 2023, a participação do Sul Global chegou a 59,4% do PIB global, ficando o Norte Global com 40,6%. É possível que alguns países, antes adeptos da hegemonia, busquem novos caminhos no Sul. Interesses nacionais dominam. A era Trump parece apenas no início, segundo boa parte das análises. “A ordem mundial passará por uma reorganização drástica, e o caos se tornará a norma diante da nova ideologia conservadora”.

Para o sociólogo e autor britânico David Lane [valdaiclub.com] o trumpismo é um capitalismo nacional negociável. Protecionismo acoplado à agenda da MAGA (Make America Great Again). Basicamente, estimular a indústria doméstica, assegurar e intensificar o avanço tecnológico americano. E, importante, reverter o relativo declínio dos Estados Unidos na ordem internacional. Longe de representar o abandono da política hegemônica, o trumpismo adota a estratégia do negociável, apoiada em custos/benefícios econômicos. A guerra na Ucrânia e toda uma urgência de acabar com ela ilustraria essa lógica. “Os pilares estruturais da hegemonia permanecem, enquanto o trumpismo questiona alianças e promove uma política externa de acordos”. Assim visto, o trumpismo é mudança e continuidade. Políticas de comércio e investimento – e gerar mais lucros. Paz na Ucrânia –reaproximar Rússia e Estados Unidos. O sucesso faria do trumpismo uma reviravolta histórica; o fracasso desacreditaria Trump.

Na última década, China e Rússia mantiveram-se unidas em parceria estratégica, ao resistir à dominância unipolar, apesar de suas próprias diferenças ideológicas e políticas. Na liderança do processo anti-hegemônico, a China responde com Iniciativas Globais. Já são quatro até agora: do Desenvolvimento (2021), da Segurança (2022), da Civilização (2023) e da Governança (2025). Sua posição apresenta-se como a mais previsível, com incentivos econômicos robustos, algo que atrai governos que desejam reduzir o grau de dependência em relação a Washington. É também um caminho aberto à modernização.

O “quanto” o movimento MAGA reflete-se na China? As relações entre os dois países têm papel central na ordem global do século XXI, e a política dos Estados Unidos para com a China passa por mudanças – da contenção a um confronto econômico unilateral, de puro interesse nacional. Até agora moderada, a China observa o evoluir da situação, com respostas ao sabor de cada situação. Já em 1997, o ex-conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski, defendia: “O cenário mais perigoso seria uma grande coalizão entre China, Rússia e talvez Irã… Não por um amor repentino entre eles, mas por uma oposição compartilhada à potência predominante”.

Indagam os analistas: por que os Estados Unidos abandonaram a ordem mundial neoliberal que outrora promoveram e usaram para dominar o mundo? Que tipo de nova ordem mundial emergirá em meio à ascensão do conservadorismo e do populismo? No contexto do retorno estadunidense ao conservadorismo e da renovada busca da Europa por autonomia estratégica, China e Rússia arrogam-se papel preponderante até para criar soluções de governança global no âmbito da ONU. Os princípios que defendem – anti-hegemonia, mundo multipolar e a democratização da governança global – ganharam reconhecimento em quase todo o mundo.

 A interjeição ‘xi’ do título pressupõe, na delongada transição em curso para o multi, uma imagem de espanto, surpresa, inquietação. Os desdobramentos falarão mais forte e talvez ditem outros rumos.