Trabalho como princípio evolutivo

A valorização do trabalho, no campo de nossos estudos filosófico-espiritualistas à luz dos ensinamentos do Racionalismo Cristão, é indissociável da ideia de aprimoramento espiritual, identificando-se com as aspirações de todo ser humano comprometido com a marcha evolutiva na qual todos estão inseridos. 

Por essa razão, a concepção de trabalho não pode se restringir à ideia limitada de cumprimento remunerado de tarefas estabelecidas com vistas à sobrevivência humana. O trabalho é muito mais do que isso: trata-se de um princípio evolutivo, conforme procuraremos demonstrar a seguir. 

No que se refere às análises, observações e interesses da pessoa que pretende melhorar a qualidade de seus pensamentos e sentimentos, bem como robustecer o caráter, adquirir respeitabilidade e credibilidade entre seus pares e obter razoável grau de autonomia material; ou ainda do ser humano que idealiza e se compromete em vivenciar cotidianamente os valores espirituais da ética, da moral e da honestidade, sobre os quais se edifica uma existência digna; enfim, do ser humano que pretende evoluir verdadeiramente, o amor ao trabalho deve ser compreendido como parte integrante e fundamental desse esforço, ou, mais do que isso, como condição imprescindível à realização de tão sublime aspiração. 

O trabalho consiste em uma atividade que assegura a um só tempo a manutenção do corpo físico e a saúde da alma. Garante a manutenção do corpo porque é pelo produto do trabalho que o ser humano promove sua subsistência; afirma a saúde da alma porque mantém a mente ocupada, livrando o ser humano de imiscuir-se naqueles vícios, perniciosos e deletérios, em que se comprazem os inimigos dos deveres e das responsabilidades. 

Problemas das mais variadas ordens podem ser solucionados por meio deste princípio evolutivo: o trabalho. Sem ele, o ser humano não alcança a felicidade, visto que ela é oriunda da consciência do cumprimento das tarefas assumidas. Tampouco pode a sociedade cogitar alcançar a tão almejada paz social sem a constante e fundamentada valorização, regulação e proteção legal das relações laborais. 

Alguns amigos que acompanham nossos escritos poderão indagar legitimamente, a esta altura de nossa exposição, sobre o porquê de não nominarmos a presente reflexão com o título “Trabalho à luz da espiritualidade”, uma vez que estamos descortinando aspectos sutis relacionados ao trabalho. 

A indagação é decerto válida. Contudo, não cremos ser necessário ao tema tamanha explicitação, já que o valor e a razão de ser do trabalho neste mundo de escolaridade guardam total e absoluta relação com a espiritualidade. Talvez seja até redundante falarmos em trabalho à luz da espiritualidade, porquanto qualquer alusão que pretenda ser séria e criteriosa acerca dessa atividade evoca necessariamente, em maior ou menor medida, valores transcendentes, sendo por eles iluminada. 

Abordar o conceito de trabalho alijado da perspectiva espiritual implica esvaziar-lhe completamente o sentido, diminuindo-lhe a importância e a abrangência. Eis um equívoco gravíssimo, no qual, por conta das lições absorvidas em nossa Filosofia, jamais incidiríamos. 

Claro está que não se admite, principalmente no contexto da sociedade contemporânea, ávida por resultados práticos, a mera declaração do valor do trabalho. 

Os elogios não são suficientes para que as atividades laborais passem a produzir, por si sós, efeitos positivos na vida das pessoas.  

Na verdade, é imperativo empreender, renovar e eliminar determinados hábitos e tendências para que o trabalho possa gerar os frutos agradáveis e benfazejos que potencialmente está apto a produzir. 

Dentre as mudanças comportamentais que devem ser introduzidas na vida cotidiana para que a atividade laboral possa resplandecer como fonte de realização – voltaremos a esse tema em um futuro breve –, citaremos apenas uma, que inegavelmente ocupa lugar de relevo. Referimo-nos à disciplina, sem a qual o trabalho se desvirtua e se transforma num cenário árido e improdutivo, mero ensejador de fadiga e desgaste. 

A partir do momento em que as pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de se esclarecer por meio dos princípios racionalistas cristãos despertarem para a necessidade de disciplinar sua vida, a fim de dimensionar seus compromissos e dividir racionalmente seu tempo, tendo como referência seus projetos e metas existenciais, elas passarão a contar com um instrumento de imensurável valor para o proveito dos benefícios inefáveis e sublimes advindos do trabalho. Estarão, por conseguinte, muito próximas do esclarecimento espiritual. 

Presente, direta ou indiretamente, em todas as camadas, estratos ou divisões da organização social, o trabalho, como o ar onipresente que preenche a atmosfera terrestre, é imprescindível à sobrevivência. A existência tanto de um quanto do outro não pode ser sacrificada sem prejuízos irreparáveis ao gênero humano. 

Os benefícios oriundos do trabalho são múltiplos, conforme procuramos demonstrar no transcurso desta reflexão. Por isso mesmo não pode ele ser analisado de maneira vaga e superficial, sobretudo quando se trata de uma análise espiritualista, como a que nos cabe fazer. Nessa perspectiva, com o espírito cheio de entusiasmo por tão palpitante assunto, encerramos esta apresentação reafirmando nosso compromisso em retornar ao tema futuramente. Sigamos trabalhando, pois nenhuma crise resiste à força transcendente deste autêntico princípio evolutivo. 

Muito Obrigado!