Muito mais do que uma inovação digital, a Inteligência Artificial tem o potencial de ruptura tecnológica para varrer (modernizar?) as economias, redefinindo como as sociedades trabalham, produzem, consomem e competem. É o que se ouve em Davos, o eixo financeiro sempre em ebulição, onde a imaginação supera benefícios e lucros. Contudo, ainda desprovida de regras, desperta males represados e desafios a contornar. Um aprendizado.
Muito menos que uma corrida por liderança, como se apregoa, a IA expõe uma corrida contra o tempo, premida pela saúde e clima. Nos bastidores das ‘Big’, multinacionais ensarilhadas enfrentam o conflito entre o petróleo poluidor e a energia verde, menos poluidora. Normas, orientações, alertas convergem e divergem, mas o que falta mesmo é acesso global à tecnologia milagrosa e uso cioso.
Em julho 2025, a Casa Branca despejou outro caudal de incertezas com o Plano de Ação da América para a IA, “um imperativo de segurança nacional”. Textualmente, na segunda linha, lê-se: “Quem tiver o maior ecossistema de IA ditará os padrões globais e colherá amplos benefícios econômicos e militares”. Em pauta, acelerar o ritmo (investimento, indústria etc.) para erigir uma infraestrutura (energia, semicondutores, força de trabalho etc.) que leve à liderança em diplomacia e segurança (inclusive exportar para aliados e conter a China).
Já a China deposita suas diretrizes no financiamento público da IA, com foco em pesquisa avançada e aplicada. Também apoia o setor privado em certos empreendimentos. Investe em todos os aspectos do desenvolvimento da tecnologia, com atenção especial a: reconhecimento facial, biotecnologia, computação quântica, inteligência médica e veículos autônomos. A China tem recursos ou os adquire no comércio do ganha/ganha. Os Estados Unidos também têm recursos ou os tomam/sancionam, conforme a política capitalista. Cada qual com seu estilo.
Atrasada em IA, a América Latina recebe do Foro Econômico Mundial o Projeto para Economias Inteligentes como prévia de possível integração: crescer com novas economias, tendo os povos como foco central. O prêmio compensa; atrairia estabilidade a longo prazo. Segundo estimativas, o uso da IA poderá impulsionar a produtividade global de 0,5% a 3,4% ao ano até 2040. Na América Latina, em cenário até 2030, o aumento anual fica entre 1,9% e 2,3%. No entanto, países e indústrias da região parecem ainda concentrar-e no uso individual – o do salve-se quem puder com a baboseira, sobretudo em se tratando de informação -, limitando a abordagem multifacetada, de impacto econômico.
Pudera! Há questões e mais questões, a partir mesmo de financiamento e regulamentação, segundo o Foro. O projeto ressalva os países beneficiados por recursos: Brasil, Paraguai e Argentina em energia hidrelétrica, Chile com bom potencial solar e a Patagônia com seus corredores de vento. Na América Central, há reservas geotérmicas, mas problemáticas, a exigir investimento para conectividade e centros de dados, passíveis pelo consumo (como em todo país ou região) de efeitos negativos ao meio ambiente e a comunidades locais. Muito consumo de eletricidade (energia) e água para resfriar. Os níveis atuais já são insuficientes no futuro.
Quanto à paisagem financeira de saúde, a IA está tão ruim quanto esta de per si. Reduções drásticas das instituições e doadores historicamente líderes agravaram as disparidades. Pior ficou a mobilização de recursos alternativos. Hoje, parece ser na assistência à saúde o exemplo mais gritante de injustiça social e efeitos da IA. Instrumentos digitais, diagnósticos assistidos por IA e sistemas de dados prometem ganhos mensuráveis, tanto em eficiência quanto resultados. Mas há que lidar com engarrafamentos: mudanças na organização da empresa, pessoal treinado, a por vezes conflitante tomada de decisões. Imagem um tanto similar ao que ocorre na indústria dos países subqualificados.
A literatura médica abunda em expor modelos preditivos de IA sobre a probabilidade do paciente ter (diagnóstico) ou desenvolver (prognóstico) uma doença ou evento de saúde. Independente da abordagem, o setor luta para avaliar o desempenho dos modelos usados na prática médica, pois podem levar a decisões clínicas erradas. Não é raro o conflito (a tomada de decisões) entre o médico e o estatístico, o que faz o aprendizado da máquina. Apenas os países mais ricos estão equipados para integrarem os sistemas tecnológicos na assistência à saúde, onde os custos são desproporcionais em relação aos chamados “desiguais”, materialmente falando. Na prática, o modelo de IA e seu desempenho pesam menos que a mudança na organização das empresas de saúde, ou seja, trabalhar com a nova tecnologia e validar os rendimentos – e o ser humano.
À parte a IA como tecnologia de uso militar (em outros arquivos), The Lancet muito explora o vínculo meio ambiente e saúde do homem. Em xeque, o consumo de água e energia e a extração de matéria-prima. Somam cinco as áreas de confronto agudo entre China e Estados Unidos: energia, minerais terras raras e microeletrônicos, infraestrutura, a economia em seus diversos setores e a candente regulamentação. Os ecossistemas sofrem, a Terra aquece, tensões e conflitos explodem, a saúde do homem esvai-se. Viva a instabilidade!
Pesquisas para o Relatório sobre o Futuro do Trabalho indicam que, no período 2023-2027, o crescimento será maior no setor de operadores de equipamento agrícola (30%, devido ao aumento de investimentos na adaptação ao clima), motoristas de caminhão pesado e ônibus, e professores de educação vocacional. Reparadores de máquinas e mecânicos assumem o quarto lugar. A chamada ‘agricultura inteligente’, voltada ao clima, vai impulsionar o emprego, mas também os padrões de vida e o ambiente, bem como segurança alimentar.
Professa a filosofia da IA: ela é pródiga em contradições, qual a de capacitação limitada, apesar de todo o ufanismo. E, embora com o potencial de melhorar a vida do homem, ameaça aprofundar as divisões sociais e deixar milhões sem trabalho. Sua tarefa é altamente técnica, mas o homem, de Inteligência Natural, pode e deve entender os princípios básicos que a regem – e as preocupações que levanta. Ele será capaz de orientar a IA para aumentar a capacidade humana; o inverso será tão artificial quanto a própria tecnologia.

