Uma rápida consulta aos dicionários nos revela que o ressentimento é um afeto ou estado de espírito que se prolonga e dá origem ao aparecimento reiterado de algumas emoções negativas como raiva, mágoa, decepção e dor, decorrentes de uma ofensa, injúria, insulto, afronta, dano, prejuízo, gravame, desonra, abuso ou ocorrência passada que a pessoa não consegue superar. Ao mesmo tempo, o sentimento pode misturar rancor com tristeza derivada de expectativas não superadas, impotência, traições ou sentimentos de injustiça.
Características básicas do ressentimento. A teoria dos valores é uma obra importante publicada em 1913-1915, em duas etapas, por Max Ferdinand Scheler (1874-1928), filósofo alemão, com conhecimentos sólidos também em sociologia, que explicou que o ressentimento é, ao mesmo tempo, o mais sombrio e o mais psicológico e sociológico dos temas por ele estudados. Nessa mesma obra ele afirmou, também, que o ressentimento é uma mentalidade autodestrutiva e um desperdício de tempo e energia.
Outro estudioso do ressentimento foi Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filósofo, filólogo e crítico cultural alemão que disse que “o papel do ressentimento não é apenas ser um sentimento, mas sim um fenômeno sociopsicológico no qual seres humanos, incapazes de lidar com a própria fraqueza, alimentam dentro de si sentimentos negativos”.
Vemos aqui uma confirmação entre ambos esses filósofos que o ressentimento age negativamente sobre a psique das pessoas, arrolando outras emoções negativas já citadas nessa introdução.
Fundamentos do ressentimento. Tomemos como exemplo o rancor, que aparece quando a tristeza é “realçada” por uma raiva advinda de quem sofreu o mal-entendido. O rancor é terrível, pois carrega uma agressividade dirigida a quem nos prejudicou. É preciso ter muito cuidado para o rancor não se instalar como uma raiva contra mim mesmo, fazendo-me pensar que fui enganado, tido como bobo ou fraco para reagir diante da maldade do ofensor.
É de se esperar que o ofensor seja o agente ativo dessa situação, podendo até ser qualificado como um “vilão” e tem que assumir a responsabilidade da ofensa e reparar o mal causado. É isso que caracteriza o ressentimento, de um lado, “eu sou a vítima”, de outro, “o culpado” pelo mal causado, que me fez passar por toda a mágoa e todo o rancor que senti e posso estar ainda sentindo. O ressentimento aparece quando o ofendido assume uma posição passiva. Isso acontece quando a vítima sente que o ofensor é forte, é poderoso e ela não é páreo para ele.
Como lidar com o ressentimento. Vamos iniciar essa questão com a pergunta: o que você faria com o que fazem com você, causando-lhe um agravo sério, principalmente quando o ofensor é reconhecidamente mais poderoso?
A resposta mais sábia é pôr o assunto “de molho” e aguardar um momento mais propício para retomar o problema. Para isso, o ofendido precisa aprender a lidar com o rancor, com a raiva que são sentimentos negativos poderosos. Em família, quando os pais se colocam em posição irreversível de discussão por princípios morais, muitos filhos adultos podem passar por situações desse tipo. Recomendamos que esperem até a mágoa se escoar e retomem o assunto quando houver condições de calmaria para isso. Render-se é uma possibilidade; outra é pedir desculpas pelo mal-entendido.
Para pedir desculpas e promover uma reconciliação é preciso ter humildade e reconhecer que se trata de um dever imperativo e moral, colhendo os frutos por restaurar a harmonia e a felicidade nas relações. Com isso, as relações que pareciam difíceis se tornam uma realidade em que as pessoas envolvidas afastam as diferenças, desencontros e decepções e plantam aceitação e harmonia, ambos crescendo espiritualmente.
O ressentimento e as doenças psicossomáticas. Com a raiva e o rancor represados martelando mentalmente algo que não está sob o nosso controle pode levar ao aparecimento de sintomas físicos, como dores no peito, dor no estômago, dores de cabeça, fibromialgia e até insônia. Outras ocorrências associadas são a dermatite, coceiras e manchas na pele. Simplificadamente, o ressentimento é uma tristeza represada, típica de um desbalanceamento psíquico da estrutura mental da pessoa. Nesses casos, o tratamento psicológico ou psiquiátrico pode vir a ser necessário.
O ressentimento e a responsabilidade moral. Será que podemos incluir os ressentimentos e associá-los com questões de responsabilidade por deveres e obrigações que todo ser humano tem para consigo mesmo e seus semelhantes? Há que se distinguir entre deveres e obrigações no sentido amplo e no sentido estrito para não incorrermos em erros de julgamento.
A Moral no sentido amplo abrange o conjunto de valores (atributos espirituais), normas, costumes e crenças modeladores do comportamento humano. Moral no sentido estrito abrange um conjunto de regras, normas, costumes e valores que estabelecem o comportamento humano dentro de um grupo particular ou em determinada sociedade. A Moral estrita é prática e normativa, incluindo as leis que pretendem amparar os direitos humanos. Quando alguém reage a uma provocação a pessoa está interpretando ou descumprindo um dever ou contrariando alguma norma. Em um ou outro caso, os ressentimentos e a indignações são de natureza sempre reativa.
Conclusão. Vimos, ao longo desse tema, que o ressentimento é um afeto ou estado de espírito que se manifesta em diversas situações no convívio humano, que se prolonga e dá origem ao aparecimento reiterado de algumas emoções negativas como raiva, mágoa, decepção e dor. Essas emoções são decorrentes de uma ofensa, injúria, insulto, afronta, dano, prejuízo, gravame, desonra, abuso ou evento que lhe precedeu e que a pessoa não consegue superar. Ao mesmo tempo, o ressentimento pode misturar rancor com tristeza, derivada de expectativas não superadas, impotência, traições ou sentimentos de injustiça.

