Mariana e o espelho da água

O dia se despedia lentamente, e a luz dourada do entardecer atravessava as janelas da escola, tingindo de âmbar as estantes da biblioteca. Mariana buscava refúgio entre livros empoeirados, como quem procura abrigo em páginas silenciosas diante de um mundo que lhe parecia vasto e ruidoso demais. A rotina escolar, antes previsível e segura, já não lhe oferecia o conforto de outrora. Foi nesse espaço de recolhimento que seus olhos se detiveram sobre um livro esquecido de mitologias antigas.

Ao ler sobre Narciso, interessou-se pela narrativa; contudo, não se deteve na vaidade do personagem, mas na prisão do reflexo. Pensou que talvez o verdadeiro erro não fosse amar a própria imagem, mas não conseguir enxergar além dela. Fechou os olhos e imaginou-se diante de um lago. Não se via aprisionada, mas dissolvida na água, como se pudesse integrar-se a algo maior, invisível e profundo.

Naquela mesma tarde, caminhou até a pracinha do bairro e sentou-se diante da fonte recém-inaugurada. O som da água corrente trouxe-lhe a sensação de um movimento contínuo, de um fluir que não se interrompe.

Pegou o caderninho de anotações que trazia sempre consigo e registrou os seguintes versos:

Não sou apenas quem se vê na água,

— há em mim algo que insiste em mover-se;

É como um sopro leve que me arrasta

— e me ensina, em silêncio, a viver.

Não quero mais meu rosto só na fonte,

— preso ao reflexo imóvel que ali jaz;

Prefiro ser a água que se expande

— e segue além de si, em serena paz.

Ao mostrar os versos à mãe, Clara sorriu com ternura e disse:

— Você está aprendendo a se ver além do espelho.

Mariana percebeu, então, que o ato de escrever não se limita a descrever situações nem a traduzir inquietações, mas encontra sua plenitude na criação de imagens e sons capazes de libertar e expandir o horizonte existencial, na medida em que a linguagem, ao ultrapassar o plano da prosa, se eleva à poesia, expressão própria da alma. Assim, compreendeu que a palavra, à semelhança da água, não apenas reflete, mas também transforma.

E, como quem aprofunda um pressentimento, Mariana acrescentou:

A palavra é ponte sobre o vazio;

Quem escreve com verdade não se esconde;

Não foge das situações da vida, — mas as atravessa e lhes responde.

Ao fechar o caderno, compreendeu que sua escrita já não era apenas um exercício íntimo, mas um gesto de travessia. A poesia não lhe oferecia respostas prontas, mas caminhos — e, ao percorrê-los, percebia que o sentido da vida talvez residisse menos em compreender do que em consentir no fluxo, à semelhança da água, que, sem jamais se repetir, permanece no próprio fluir.

Intuiu, então, que a palavra, quando nasce do silêncio, assemelha-se a uma nascente que brota no interior da alma: não se extingue, mas se transforma, prolonga-se e segue. Nesse curso, cada verso se delineava como uma margem possível; cada imagem, como uma ponte invisível entre o sentir e o dizer. Escrever, afinal, era aprender a habitar o tempo — não como quem pretende dominá-lo, mas como quem se deixa conduzir por seu curso, reconhecendo que a verdadeira liberdade consiste em fluir.