São 25 anos de negociações para chegar a 2026 – ainda como interino. O acordo Mercosul-União Europeia, agora com capa de multilateralismo, tendência da moda, caminha para aumentar sua capacidade de ação em foros internacionais. O Mercosul deixou de ser a alternativa regional para os acordos promovidos pelos Estados Unidos. “O espaço do Brasil é o mundo”, clama de há muito Vera Thorstensen, analista top no mundo do comércio global (FGV/São Paulo). Porque o Brasil apresenta-se como o principal país do bloco.
Em termos práticos, o interino significa acertar os ponteiros. Este é o terceiro acordo da UE (os anteriores são UK-UE e UE-Nova Zelândia) com cláusula de inclusão no Acordo de Paris, o que permite sua suspensão, caso uma das partes abandone este último. Inclui anexos, emendas e novas cláusulas [www.iadb.org]. Assim, o problema do desmatamento deverá ser tratado com medidas legais, a partir de 2030. Há um capítulo sobre intervenção governamental, definindo como facilitar acesso a empresas europeias ao acordo. Há cláusula pela qual se permite negociar emendas, em itens de interesse. Há também um novo mecanismo de reequilíbrio, modelado no sistema da Organização Mundial de Comércio, quanto aos efeitos comerciais de medidas não previstas no acordo. O item reduções ou eliminação de tarifas já é alvo intenso de ajustes, afora novos procedimentos administrativos, nesse polêmico ecossistema de tantas divergências.
Crises financeiras, protecionismo, efeitos do câmbio são rotina que afetam o comércio e seu trato. No caso Mercosul-UE foram muitas pedras no meio do caminho, constatou webinar da Fundação FHC, em julho 2023. Destaque para a paralisia que acomete o bloco há vários anos. Importante aqui lembrar a pauta ambiental. Segundo estudo do Real Instituto Elcano, think tank espanhol [realinstitutoelcano.org], a ratificação do acordo não é um fim em si mesmo, mas o começo de um projeto mais ambicioso. Possivelmente tornando a UE a potência mundial com maior presença na América Latina. As economias de ambos os lados são tidas como complementares. A primeira, zona econômica mais aberta do planeta, estaria apta a fornecer capital, tecnologia de ponta e know-how, indispensáveis ao desenvolvimento. Na segunda, onde os principais Argentina e Brasil têm economias fechadas, há recursos minerais e energéticos, sol, vento, água e terras férteis à saciedade.
Bastando-se a si mesmo, o acordo não contempla o vital setor saúde. Mas eis senão quando (terão ouvido o clamor na revista científica The Lancet de que a saúde está doente no mundo?), se escancara uma via de abertura dos portos às nações amigas – e inimigas. Fins de abril, inícios de maio, inicia-se na sede da TV Brics, em Moscou, um ciclo de debates sobre os mercados industriais farmacêuticos internacionais. Em xeque, as perspectivas de seu desenvolvimento no contexto dos Brics e do Sul Global. Basicamente: criar uma indústria própria, com padrões comuns de avaliação e certificação. Assim, tentar expandir a geografia de vendas e diversificar exportações, destravando um comércio trilionário, ainda dominado pelos laboratórios americanos e europeus. Este ano, o mercado farmacêutico global pode chegar a vendas de US$ 1.27 trilhão, com a maior fatia para medicamentos de câncer: US$ 232.50 bilhões.
Com indústrias consolidadas, bons augúrios bafejam quatro fundadores do Brics – Brasil, Índia, China e Rússia – esta capitaneando o projeto. Devido às sanções ocidentais que enfrenta desde 2022, e à guerra na Ucrânia que as motivou, a Rússia tem como urgente criar uma cadeia farmacêutica alternativa, independente de fornecedores capazes de interromper o abastecimento.
Promissora sua taxa de crescimento de 4,51%, no período 2026-2034. Tem como mola, a demanda por soluções de saúde ao alcance do bolso. Ou seja, medicamento mais barato genéricos), tratamento adequado. Daí o investimento na produção interna, e em pesquisa e desenvolvimento, com visão de alcance aos países do Sul Global.
Quando do 27º Fórum Econômico em St. Petersburg, 2024, Rússia e Índia optaram por colaborar em favor de produtos inovadores. Ao que parece, a Índia – conhecida como a farmácia do mundo pelos genéricos que produz – já se tornou seu maior fornecedor de farmacêuticos, com exportações em crescimento desde 2023. O Brasil é o único país latino-americano entre os maiores mercados farmacêuticos mundiais (cerca de 200 empresas), com taxas de crescimento aceleradas. Dispõe de laboratórios públicos, Fiocruz e Butantan, que dominam tecnologias de vacinas e biológicos. É também o primeiro em testes clínicos; detém recorde de 10 mil estudos (fevereiro 2025). Seu mercado tende a crescer 20% até 2029. Com a China, que soma escala industrial e investimento em pesquisa, teríamos esses quatro Brics em uma cadeia desde a base (pesquisa) à produção e distribuição em massa. O governo chinês parece decidido a gastar mais com assistência à saúde (investimento inclusive nos genéricos), para atender a uma classe média de poder aquisitivo crescendo. Segue a tendência na Ásia por inovação, a par com a medicina chinesa tradicional, alternativa. Em cogitações diferentes entra o mercado da África. Sem infraestrutura e regulamentação, a assistência à saúde vale-se cada vez mais de clínicas móveis.
Consumo não faltaria. A dependência de medicamentos fabricados pelos grandes laboratórios ocidentais ficou exposta durante a pandemia de Covid-19: dificuldade de acesso a vacinas, insumos e tratamentos em tempo hábil. A partir das três últimas décadas do século XX, o fator humanitário vem assustando, diante de crises aceleradas, persistentes e graves. Emergências justapostas, conflitos armados e/ou guerras eternas, desastres climáticos, insegurança alimentar e econômica, ameaças de epidemias, migrações forçadas, terrorismo, violência. A estrutura sanitária fragilizou-se, não acompanha os tempos. Esse o sucedâneo da antiga narrativa calcada na ‘importância estratégica da saúde global’, ou pobreza extrema como maior obstáculo ao desenvolvimento sustentável. A questão agora está em como navegar em águas tão turbulentas.

