O que os outros viam

Clara deslizou os dedos pela margem do jornal. Era curioso reconhecer ali ideias nada previsíveis ou convencionais que antes lhe pareciam distantes e agora se integravam, com naturalidade, ao modo como ela compreendia a vida.

João entrou na cozinha.

— Então você começou sem mim.

Clara ergueu os olhos. Ele tocou o jornal com um gesto breve, desses que insinuam mais do que declaram.

— Você tem lido? — perguntou ela.

João serviu o café devagar, deixando que o silêncio preparasse o que ele tinha a dizer.

— Desde o dia em que comprei o primeiro — disse.

Clara soube imediatamente de qual dia ele falava.

Aquele em que saíra de casa inquieto, enigmático, sem rumo, e voltara com um jornal que, na época, não passava de um objeto, mas que agora, analisado com mais lucidez, revelava-se quase como um ponto de virada.

— E por que não me contou?

— Porque eu também não sabia por quê.

Ele sorriu de um jeito novo — um sorriso que admitia não ter todas as respostas.

Clara fechou o jornal.

— Teresa gostaria de ouvir isso.

Quando o nome foi pronunciado, algo se deslocou entre os dois — discreto, mas cheio de significado.

— Pensando bem, tudo começou com ela — disse João.

Clara não respondeu de imediato.

Há silêncios que concordam melhor do que palavras.

João sentou-se.

— Lembro-me de vocês conversando na praça. Eu não entendia como você podia estar tão tranquila enquanto eu me desfazia por dentro. Os problemas eram os mesmos… mas você parecia vê-los de outro lugar.

Clara ergueu o rosto, curiosa com o que ouvira.

— De outro lugar?

— Como se estivesse mais alto — não no sentido de sentir-se superior, mas de ver as coisas de modo mais panorâmico. Os problemas continuavam grandes, mas já não eram capazes de cobrir tudo, impedindo que eu visse novas oportunidades. Isso é muito importante.

Ela reconheceu aquelas palavras como quem reconhece o próprio reflexo.

— Teresa dizia que a maioria das pessoas encolhe a realidade — murmurou Clara. — Pensam que ela acaba no que conseguem tocar.

João permaneceu quieto.

Certas compreensões chegam sem aviso.

— Eu tentava entender sua mudança pelo que aparecia — disse ele. — Pelo lado de fora.

Clara sorriu.

Talvez.

Mariana entrou à procura do carregador do celular. Parou ao ver os dois.

— Reunião secreta?

— Investigação retrospectiva — disse João — sobre sua mãe.

Mariana lançou a Clara um olhar divertido.

— Então boa conversa.

João a chamou antes que ela saísse.

— Você percebeu alguma mudança na sua mãe?

Mariana pensou por um instante.

— Percebi.

Clara inclinou-se, atenta.

— O que você percebeu?

— Que você parou de sofrer por coisas que ainda nem tinham acontecido.

A frase chegou a Clara como chegam as coisas que fazem sentido: direto ao ponto.

Mariana continuou:

— Antes, um problema chamava outros. Depois, você começou a lidar com cada coisa no momento certo.

Clara deixou que aquilo se assentasse.

Lidar com cada coisa no momento certo.

— E o pai também mudou — disse Mariana.

João parou com a xícara suspensa.

— Eu?

Ele sabia que havia mudado; queria ouvir como ela enxergava isso.

— Você — respondeu Mariana.

— Quando?

— Aos poucos. Do jeito que acontece com gente de verdade.

Ela saiu antes que ele encontrasse uma resposta.

João ficou imóvel por alguns segundos. Depois olhou para Clara.

— Parece que a investigação tomou outro rumo.