Carnap, um expoente do Círculo de Viena

Rudolf Carnap, pensador focalizado neste artigo, iniciou seu viver neste mundo-escola no dia 18 de maio de 1891, em Ronsdorf, então uma pequena cidade industrial da Alemanha. O fato de sua família ter obtido estabilidade financeira quando Rudolf era ainda criança lhe permitiria ter acesso a uma educação formal de alto nível.

Com efeito, seria no prestigiado Colégio de Barmen que o jovem Rudolf realizaria seus estudos preuniversitários e em seguida ingressaria na famosa e tradicional Universidade de Jena, onde estudou filosofia, física, matemática e até lógica moderna, fundada por um dos professores da universidade, que não era outro senão o grande Gottlob Frege, tema, aliás, de artigo anterior desta história do racionalismo.  

Em 1926 o já maduro Rudolf Carnap mudou-se para Viena, a fim de juntar-se ao grupo de intelectuais que desde 1920 vinham se reunindo na capital da Áustria. Como membro do Círculo de Viena, ele se destacaria não só como um dos mais criativos e influentes, mas também como um dos autores do famoso manifesto de 1929, intitulado A Concepção Científica do Mundo. 

Após cinco anos em Viena, Carnap foi morar na Checoslováquia, onde viveria de 1931 a 1935, atuando como professor na Universidade de Praga. Seria ainda nesse período de cinco anos que concluiria o desenvolvimento de suas teses sobre a sintaxe lógica da linguagem científica, consideradas pilares fundamentais para a filosofia analítica e para a moderna filosofia da ciência.       

Fuga. Em 1935 Carnap teve de dar adeus à Europa e refugiar-se nos Estados Unidos para fugir do nazismo. De origem alemã, esse regime – perseguidor de judeus e de intelectuais progressistas e hostil às convicções políticas de esquerda e ao pensamento científico moderno – chegou a controlar grande parte da Europa continental e até partes do norte da África.

Na fase europeia de sua vida, Carnap já escrevera A construção lógica do mundo, sua obra pioneira, publicada em 1928; A sintaxe lógica da linguagem, publicada em 1934; e artigos influentes em periódicos e resenhas da fase inicial do empirismo lógico.

Em suma, foi na Europa que Carnap revolucionou a filosofia da ciência, e o fez por meio da análise lógica da linguagem, e ao defender o rigor empírico e a rigorosa rejeição de “proposições metafísicas vazias de sentido”.            

Ao dar continuidade à sua carreira acadêmica nos EUA, Carnap escreveu mais duas importantes obras: Significado e necessidade e Fundamentos lógicos da probabilidade. No entanto, isso não o impediria de assumir, em 1936, o cargo de professor de filosofia na Universidade de Chicago e de trabalhar em colaboração com intelectuais (fugitivos e estadunidenses) e defender que todas as ciências empíricas compartilham a mesma base lógica e metodológica. Para ele, a clareza comunicativa era uma extensão natural do trabalho filosófico.

Depois de viver quase cinco décadas nos Estados Unidos, Rudolf Carnap faleceu em 14 de setembro de 1970, aos 79 anos, na cidade de Santa Mônica, após deixar um legado indelével na filosofia analítica moderna.

 Principais obras. Em A construção lógica do mundo, Carnap argumenta que todos os conceitos científicos e cotidianos podem ser estruturados em um sistema lógico unificado a partir de uma base comum. Valendo-se da lógica moderna, ele sustenta que o conhecimento humano resulta de vivências conscientes e demonstra que objetos físicos, mentes alheias e conceitos culturais não são entidades metafísicas isoladas, e sim construções lógicas baseadas nessas experiências elementares. Daí, conclui Carnap, a necessidade de a filosofia eliminar a metafísica tradicional, substituindo-a por uma análise lógica rigorosa, tendo em mira legitimar a ciência como uma descrição estrutural e objetiva do mundo.                                                                                                                                                                                                              

A Sintaxe lógica da linguagem. A filosofia da ciência, segundo Carnap, deve ser reduzida à análise formal da estrutura lógica das linguagens científicas – a chamada “sintaxe lógica”.

Esse pensador sustenta que os problemas filosóficos tradicionais, especialmente as estéreis discussões metafísicas, não passam de pseudoproblemas gerados por confusões ou violações das regras linguísticas e propõe o “princípio de tolerância”.

 Tal princípio defende que filósofos e cientistas dispõem de total liberdade para construir e adotar o sistema linguístico ou lógico que desejarem, pois não existe lógica ou filosofia da ciência corretas ou verdadeiras a priori. Ademais, há liberdade de escolha, seja de diferentes linguagens, seja de convenções formais, desde que definam suas regras com clareza.                                                                   

Significado e necessidade. Carnap propõe o desenvolvimento de novo método para a análise semântica da linguagem, denominado método da extensão e do intensão (substantivo derivado do adjetivo intenso). Ele reformula as distinções tradicionais da lógica e da filosofia (como sentido e referência de Gottlob Frege) para criar um sistema formal mais preciso e objetivo. O filósofo argumenta que as expressões linguísticas possuem tanto uma extensão (as coisas no mundo a que se referem) quanto uma intensão (o significado ou conceito subjacente). A partir dessa base, Carnap propõe uma explicação puramente lógica para o conceito de verdade necessária, definindo-a como “L-verdade” (verdade lógica), que ocorre quando uma afirmação é verdadeira unicamente em virtude das regras do sistema semântico adotado, independentemente de fatos empíricos.

     Fundamentos lógicos da probabilidade. Para Rudolf Carnap a probabilidade tem natureza essencialmente lógica, e não apenas empírica ou estatística. Ele introduz o conceito de “probabilidade lógica” (ou grau de confirmação), que mede a relação estritamente racional entre uma hipótese e as evidências disponíveis que a sustentam. Carnap argumenta que, dados certos enunciados de evidência, a probabilidade de uma hipótese pode ser determinada de forma puramente analítica por meio de ferramentas da lógica indutiva. Assim, ele estabelece uma distinção clara entre a probabilidade estatística baseada em frequências reais na natureza e a probabilidade lógica, que serve de teoria normativa para a inferência científica e o pensamento racional.