A indústria do petróleo escrutina a Venezuela cuidadosamente. Que futuro político? Riscos da incerteza minam os recursos exigidos para a ressurreição. Vale a pena, num mundo que se obriga à transição energética de baixo carbono e cuja produção atual de petróleo excede a demanda global? Se o sequestro do petróleo venezuelano serviu para alguma coisa, lembra o analista Kurt Nimmo (Global Research) que uma parte chegou a Israel através da Vitol, empresa suíça de commodities com sede em Genebra. Nenhuma participação da PDVSA, a petrolífera venezuelana. Teria entrado na jogada ainda (transporte) o Grupo Bazan, empresa de petroquímicos, com sede no porto israelense de Haifa.
Meios legais existem para o petróleo venezuelano, insinuam analistas. Cancelar as sanções, expandir as operações da Chevron, que lá ficou, ou reabrir o corredor energético. Provar que o petróleo agora é nosso. O petróleo que só fez aguçar o cerco americano, que aguça a sanha nas modernas tecnologias da transição energética. Será o novo desafio para a incansável luta de poder de Trump? A riqueza mineral da Venezuela é uma tentação para o delírio de poder. Trata-se do depósito de ouro do Arco de Mineração do Orenoco: ouro, minério de ferro, bauxita e níquel. Consultas (já em curso?) com o empresariado americano e autorizações prévias abririam caminho aos negócios.
Oportuna assim – e atualizada – a publicação do Foro Econômico Mundial e a McKinsey&Company ‘Advancing Latin America’s Critical Minerals Potencial’. Cobre nove meses, de fins de 2025 a agosto 2026, com um panorama regional e destaque para seis países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, México, Peru. Como base, a extensão das reservas minerais, volumes de produção (tendo em vista que o continente é líder global) e relevância econômica da mineração. A demanda por minerais críticos está em ritmo cada vez mais acelerado, enquanto o crescimento no suprimento luta pelo equilíbrio, mas continua altamente concentrado.
A América Latina tem reservas significativas de cobre, lítio, níquel, grafite, manganês, elementos terras raras e outros minerais essenciais à transição, eletrificação e infraestrutura digital. Afora abundantes recursos energéticos renováveis, expertise em mineração e proximidade aos principais mercados internacionais. Por fim, mas não menos importante, a vantagem competitiva desses recursos, complementares que são à capacidade industrial.
Por exemplo, Chile e Peru, bem posicionados na produção de cobre e expertise em mineração. Argentina e Bolívia com lítio, dentre as maiores reservas do mundo. Brasil, combinando suas importantes reservas de terras raras com avançada capacidade industrial e manufatureira. O México, com a proximidade dos maiores mercados industriais, pode ser um eixo chave regional com o Panamá, Peru e Chile. É extensa a lista desses potenciais ‘conglomerados’, à cooperação. Dois especialistas – Marisa Cesar, presidente do Conselho da Associação de Minerais Críticos, e Sergio Andrade, fundador e diretor executivo da Agenda Pública – expõem em Youtube (série Minerais Críticos/ Ponto a Ponto, Fundação FHC, 28-7-2026), “como pensar a agenda de minerais críticos no diálogo com outros países”. Diz Marisa: “Penso que as alianças são muito estratégicas. Não podemos esquecer que 70% do investimento em mineração no país vem do capital estrangeiro. Então, obviamente, se tivermos as alianças formatadas, tudo se facilitará, inclusive para as próprias empresas”. Afinal, nenhum país latino-americano possui, sozinho, as complexas cadeias em escala.
Em tese às vezes discutida, o economista e autor britânico Paul Collier argumenta que a riqueza do solo dos países ricos é uma maldição, cheia de armadilhas. As mais gritantes: corrupção, dependência e deslealdade, conflito, repressão, interferência de governos estrangeiros. Líder neste último ponto, os Estados Unidos divulgaram, em setembro, uma ‘visão introspectiva’ da Rand Corporation sobre o assunto. Desta vez, sobre a influência (ainda “modesta”) da Rússia na América Latina e Caribe, extensiva à China e Irã. [www.rand.org/t/PEA4593-1]. Os dados fazem-se acompanhar das fontes de informação, com detalhes limitados; parece que o escopo é ressaltar a estratégia da expansão do investimento desses países.
Por exemplo, o lítio. “O efeito combinado de acordos chineses e russos é aprofundar a influência autoritária sobre o lítio latino-americano. Em particular, a Bolívia está fadada a tornar-se o maior produtor de lítio do mundo, e China e Rússia (via Rosatom) dominam a extração e processamento de lítio. Nenhuma empresa americana entrou no mercado até agora, e podem ser impedidas de fazê-lo, pelas pressões econômicas sino-russas coordenadas, reduzindo as opções dos Estados Unidos“. O quanto o lítio importa? Basta lembrar o armazenamento de bateria – a tecnologia de acelerado crescimento, hoje, em todo o mundo. As baterias de fosfato de lítio iodado LFP respondem por 90% de uso, contra 50% em apenas cinco anos atrás.
Com perspectivas de cooperação no horizonte, alvíssaras para as tendências no setor energético, no todo. Fontes de baixa emissão de carbono (renováveis e nuclear) geraram um mix, ano passado, refletido no aumento de 43%, o maior índice nos últimos 50 anos. Boas novas que se estendem à geração de energia eólica e solar, apesar dos desafios vinculados a tensões na cadeia supridora. Nos recordes anuais consecutivos de expansão dos renováveis, sobressai a China. A Índia também se destaca, com crescimento mais rápido dentre os maiores mercados, enquanto os Estados Unidos acusam declínio de 10%, em comparação a 2024.
Mas o que chama atenção é a nova capacidade de energia nuclear, com a China, Índia e Rússia competindo em novos reatores. Atualmente, há 15 países envolvidos na construção de reatores (nove na China e um na Rússia começaram ano passado) e 30 países com reatores em operação. A China já opera um pequeno reator modular, baseado em terra, e a Rússia, um marinho. Acusa a Global Energy Review 2026 que, em alguns mercados, ficou marcado o impacto do uso dessas tecnologias redutoras da demanda de combustível fóssil: China, União Europeia, Austrália, Nova Zelândia e Brasil.
O governo Trump se vê diante de um novo mapa da mina, em meio aos estragos políticos e econômicos da guerra na Ásia Ocidental e ao sequestro do presidente e do petróleo venezuelanos, vociferando e brandindo moinhos ao vento. Vive uma realidade também nova – para ele. Talvez mais um tempinho e lhe assome um laivo da racionalidade a que chegou o poeta: “… E erguendo os gládios e brandindo as hastas/ No desespero dos iconoclastas/ Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”

