Uma reflexão sobre a construção consciente da própria consciência
Há uma pergunta muito comum que acompanha praticamente toda infância e juventude: “O que você quer ser quando crescer?” E, quase sempre, ela vem carregada de expectativas relacionadas à profissão, ao status, às conquistas materiais, ao reconhecimento e ao sucesso social. E a criança responde: “médico”, “engenheiro”, “cantor”, “advogado”, “jogador”, “professor”, “empresário”. Logo a seguir, em geral, os adultos reforçam a escolha dizendo que determinada profissão “é muito boa”, no sentido de status ou retorno financeiro, ou então alertam que o mercado está sobrecarregado, ou mesmo que a inteligência artificial poderá substituir aquela atividade no futuro.
Mas raramente alguém pergunta: “Como você gostaria de ser quando crescer?” E, talvez, esta seja uma das perguntas mais profundas que um ser humano poderia fazer a si mesmo. Porque a pergunta “o que” direciona para o fazer, uma profissão, uma atividade, uma decisão profissional, mas a pergunta “como” direciona para o ser, um olhar mais comportamental, uma decisão de princípios. Ela nos convida a refletir: como gostaria de pensar? Como gostaria de agir? Como gostaria de tratar as pessoas? Como gostaria de reagir diante das dificuldades? Como gostaria de conduzir minha própria vida? E, principalmente: que tipo de consciência estou construindo dentro de mim?
Como você quer ser quando crescer? A espiritualidade apresentada pelo Racionalismo Cristão nos leva exatamente a esta reflexão: a vida não é apenas uma jornada de conquistas externas, mas principalmente um processo contínuo de fortalecimento da consciência espiritual. Cada pensamento, cada escolha, cada atitude e cada reação vão moldando, silenciosamente, aquilo que nos tornamos. Por isso, dizemos que o verdadeiro crescimento não está apenas em acumular conhecimentos, títulos ou bens materiais, mas sim em desenvolver equilíbrio, lucidez, serenidade, autocontrole, responsabilidade, disciplina do pensamento e força moral. Sabe-se que muitas pessoas crescem profissionalmente, mas permanecem emocionalmente frágeis. Outras conquistam reconhecimento externo, mas vivem inseguras internamente. Algumas parecem fortes, mas desmoronam diante de críticas, conflitos ou frustrações. E isso ocorre porque existe uma diferença profunda entre parecer forte e construir a verdadeira força, a vibracional, fruto do pensamento firme, equilibradamente bem vibrado.
Muitas vezes, o ser humano preocupa-se excessivamente em parecer seguro diante do mundo, mas pouco investe em fortalecer aquilo que sustenta verdadeiramente sua estrutura interior. É como o famoso navio Titanic, considerado praticamente inafundável, mas que não sucumbiu pelas águas que estavam fora dele, e sim pelas águas que permitiu entrar. Assim também acontece conosco quando deixamos que medos, inseguranças, pensamentos destrutivos ou opiniões negativas ocupem silenciosamente nossa vida mental. O Titanic não afundou pelas águas que estavam fora dele, mas pelas águas que permitiu entrar.
Mas existe outro exemplo igualmente interessante. Poderíamos nos inspirar no inteligente “polvo”, que filtra continuamente a água ao seu redor e retém apenas aquilo que lhe é útil, aquilo que seus tentáculos avaliaram como positivo para sua saúde. Nada que possa lhe fazer mal fica. Na verdade, é imediatamente eliminado, de volta ao mar, ou sequer passa pelo seu filtro, já sendo eliminado mesmo antes deste processo, tipo uma “rejeição já percebida à distância” Como pode um “polvo”, ser tão superior à maioria de nós, neste contexto metafórico que trazemos aqui? Tudo o que representa ameaça ou prejuízo é descartado. Na vida mental deveria acontecer o mesmo. Nem tudo o que chega até nós merece autorização para permanecer em nossos pensamentos. Tem-se que uma das maiores demonstrações de maturidade espiritual seja justamente aprender a selecionar aquilo que deixamos entrar, aquilo que mantemos e aquilo que precisamos devolver ao mundo sem incorporar à nossa consciência.
As múltiplas existências em coerência com a formação do ‘como’. A trajetória evolutiva é uma caminhada, diante das nossas múltiplas existências: das zonas de sombra para os campos de maior clareza; da insegurança para a consciência; da instabilidade para a firmeza espiritual; do automatismo emocional para a construção consciente de si mesmo.
Uma jornada não acontece de forma instantânea, mas progressivamente, ao longo das experiências da vida — e num somatório das nossas múltiplas existências.
No início da caminhada, muitas vezes o indivíduo vive absorvendo influências, reagindo impulsivamente, dependendo excessivamente da aprovação externa e deixando que medos e inseguranças conduzam sua própria narrativa mental. É como alguém que ainda não percebe plenamente sua própria força espiritual. Muitas pessoas passam boa parte da vida funcionando quase como “esponjas emocionais”, absorvendo medos, previsões negativas, opiniões alheias e inseguranças do ambiente sem qualquer filtro racional. Entretanto, o amadurecimento espiritual ensina justamente o contrário: a necessidade de desenvolver consciência seletiva sobre aquilo que permitimos permanecer dentro da nossa mente: nem tudo o que chega até nós merece autorização para permanecer em nossos pensamentos, como a analogia feita acima com o “polvo”.
Bem, obviamente, sabemos que, à medida que se desenvolve o autoconhecimento, a vigilância dos pensamentos, a autoanálise, a disciplina e a responsabilidade sobre nossos pensamentos e conexões vibracionais, algo começa a mudar. O pensamento ganha firmeza, a nossa consciência ganha direção, as escolhas tornam-se mais lúcidas e naturalmente faremos melhor uso do nosso livre-arbítrio. Neste momento de virada, a pessoa passa gradualmente a construir uma versão mais elevada de si mesma.
A pessoa passa então a perceber que segurança e conhecimento, na perspectiva da vida espiritual, não significam ausência de dificuldades, mas a capacidade de não perder a direção de si mesma diante delas. Ao final, conflitos familiares, críticas, frustrações ou dificuldades profissionais continuarão existindo. O que muda é a forma como o indivíduo aprende a raciocinar, reagir e se posicionar diante dessas experiências.
Por isso reforçamos que o esclarecimento espiritual é tão importante! Sabemos que ele não afasta os desafios da vida, mas fortalece a consciência para enfrentá-los de maneira diferente.
Nós, estudiosos da espiritualidade oferecida pelo Racionalismo Cristão, sabemos que isso se manifesta nas situações mais simples do cotidiano quando alguém aprende a se posicionar sem medo excessivo do julgamento externo; deixa de absorver toda opinião negativa como verdade; preserva o equilíbrio mesmo diante de conflitos familiares; ou quando decide não alimentar pensamentos destrutivos dentro de si. Justamente aí que a espiritualidade deixe de ser teoria abstrata para tornar-se construção prática da própria personalidade, fruto de pequenas atitudes, repensar nas escolhas e com algumas poucas correções de rota, repetidas diariamente, acabam reorganizando, silenciosamente, toda uma existência.
As bases do Racionalismo Cristão como o norte verdadeiro. O Racionalismo Cristão ensina que o espírito possui potencialidades imensas, a nossa bagagem espiritual e a lapidação dos nossos atributos espirituais, ao longo do tempo, desenvolvidos passo a passo, conscientemente.
Ele mantém o farol da espiritualidade proposta pelo Racionalismo Cristão sempre aceso, mas também a nossa bússola da espiritualidade, apontando para o norte verdadeiro, nos fazendo seguir o rumo que traçamos para o nosso desenvolvimento espiritual. Duas ferramentas importantes, o farol, iluminando, e a bússola, nos mantendo firmes na nossa rota.
Desta forma, em acordo com a reflexão que trouxemos aqui, uma das maiores responsabilidades da existência humana não é apenas descobrir o que queremos fazer da vida…mas, principalmente, quem estamos nos tornando ao longo desta trajetória, que pessoa estamos construindo, como queremos ser enquanto espírito em desenvolvimento? Sabemos que, nossa verdadeira construção vai muito além daquilo que demonstramos ter conquistado externamente, mas sim o que é revelado pela qualidade dos pensamentos que cultivamos, pela força moral que desenvolvemos; a serenidade adquirida diante das dificuldades e pela pessoa que nos tornamos a partir da consciência que conseguimos construir dentro de nós mesmos.
Reflexão final: o que ou como? Assim, reforçamos o que é repetidamente apresentado na literatura do Racionalismo Cristão, crescer espiritualmente não significa tornar-se perfeito de um dia para o outro, mas desenvolver, pouco a pouco, maior lucidez sobre si mesmo, aprendendo gradualmente a substituir reações impulsivas por consciência; medo por enfrentamento racional; fragilidade por fortalecimento interior e insegurança por construção consciente da própria identidade espiritual. Na visão da filosofia do Racionalismo Cristão, crescer espiritualmente é exatamente isso, transformar, pouco a pouco, a própria vida em uma construção consciente daquilo que desejamos verdadeiramente ser. O sucesso na vida material é mais sólida e sustentável quando advém de uma estrutura espiritual forte, a base de todo o processo evolutivo. Como quero ser quando crescer define quão solido construiremos o que quero ser quando crescer, e não vice-versa.
Ao longo da vida, muito certamente continuaremos sendo perguntados, de diferentes formas, o que desejamos fazer, conquistar ou alcançar. Pela nossa reflexão aqui neste artigo, convidamos a refletir sobre uma pergunta ainda mais importante que antecede a essa: Como quero ser quando crescer? E, ao final, quem nos tornamos ao longo do caminho?
E você? Neste seu plano de crescer espiritualmente, o que você idealizou para você? Que pessoa deseja ser? E como está se autoavaliando nesta sua jornada? Está indo bem?

