Schlick, fundador e líder do Círculo de Viena

Ao nascer em Berlim no dia 14 de abril de 1882, Moritz Schlick, à guisa de outros renomados pensadores de seu tempo, passou a fazer parte de próspera família, prosperidade que facilitaria seu acesso ao ensino de nível universitário, especialmente em duas áreas do conhecimento, a das ciências exatas e a das ciências humanas. Em sua época as universidades alemãs e austríacas eram acessíveis apenas a estudante de rica família. Não cobravam mensalidades exorbitantes, mas isso não chegava a possibilitar que estudantes de famílias pobres tivessem acesso ao ensino superior. 

Em sua trajetória de formação, entre 1900 e 1904, Schlick frequentou várias universidades, entre as quais duas da Alemanha (a de Berlim e a de Heidelberg) e duas da Suíça (a de Lausanne e a de Zurique). Mas viria a se doutorar na de Berlim, em 1904.  

Seria seu interesse por questões fundamentais sobre a natureza do conhecimento humano e o método científico que despertaria o interesse de Schlick pela filosofia. Um pouco depois, em 1918, publicaria sua Teoria Geral do Conhecimento, uma de suas obras mais influentes, em que, a exemplo de outros filósofos dos séculos XIX e XX, também criticou e rejeitou a metafísica tradicional. 

Em 1922, Schlick já estava na capital austríaca ocupando a cátedra de filosofia das ciências indutivas na Universidade de Viena. Sua mudança para Viena, afirma um historiador do pensamento filosófico, marcou o início do período mais produtivo e influente da trajetória intelectual de Schlick. 

Caberia a ele fundar e liderar, nessa capital, um grupo de discussões com filósofos e cientistas de diversas áreas do conhecimento, que viria a se tornar um dos movimentos mais influentes da filosofia do século XX. Teriam participado de tal grupo nomes como Ludwig Wittgenstein, Rudolf Carnap (já tematizados em artigos anteriores desta série de artigos), Otto Neurath, Kurt Gödel, Hans Hahn, Herbert Feigl, Philipp Frank, Friedrich Waismann e Karl Popper. Esse rol de brilhantes intelectuais ficaria mundialmente conhecido a partir de 1929 como Círculo de Viena.                                

Sob a liderança de Schlick, o Círculo de Viena desenvolveu a corrente filosófica conhecida como Empirismo lógico. O movimento defendia que a filosofia deveria adotar o rigor das ciências e da lógica matemática.

A rotina intelectual do Círculo de Viena começou a sofrer severas pressões com a ascensão do extremismo político na Europa Central durante a década de 1930. O ambiente acadêmico austríaco tornou-se hostil ao pensamento progressista e cosmopolita do grupo, forçando muitos de seus membros a emigrar.

Schlick, contudo, optou por permanecer em Viena, recusando convites para lecionar em universidades dos Estados Unidos. Apesar do antissemitismo e do austrofascismo (variante austríaca do fascismo italiano), Schlick acreditava que seu dever era manter viva a chama do pensamento racional na Universidade de Viena.    

Mas (“adversativa tremenda”!) em 22 de junho de 1936, ao subir as escadarias da Universidade de Viena para proferir uma palestra, Schlick foi assassinado a tiros por Johann Nelböck, 33 anos, ex-estudante da faculdade.        

Moritz Schlick é considerado um dos principais pensadores do Século XX, em razão do papel de extrema importância desempenhado por ele na história da filosofia moderna.                    

Principais obras de Moritz Schlick. Em Teoria Geral do Conhecimento, sua obra-prima,  Moritz Schlick lança as bases do neopositivismo ao estabelecer uma distinção rigorosa entre a experiência subjetiva e o conhecimento científico objetivo. O tema central do livro é o violento ataque à existência do conhecimento sintético a priori de Kant, defendendo que as únicas verdades evidentes por si mesmas são analíticas e conceituais (como a lógica e a matemática). Para Schlick, o conhecimento de fatos do mundo real exige, obrigatoriamente, a vinculação à experiência e às evidências empíricas, o que o leva a classificar qualquer proposição filosófica incapaz de ser confirmada ou falseada empiricamente como metafísica desprovida de sentido.