Publicado no Brasil pela Record, em 2003, quatro anos depois da edição original, ‘A Roleta Global’ de Peter Gowan explicita: “A expansão da Otan será uma afirmação deliberada de poder contra a Rússia, que logicamente fará o que puder para conter o avanço… Dessa forma, a condição da Polônia como membro da Otan irá, com absoluta certeza, repolarizar de modo inevitável a política europeia. Aqueles que dizem que a Rússia deveria receber de bom grado essa expansão, porque a Otan é puramente defensiva e não ameaça ninguém, ou são ignorantes em política internacional ou são embusteiros, porque ignoram o simples fato de que a Rússia enfrentará uma aliança militar com poderosas armas nucleares em sua própria fronteira (do triângulo de Kaliningrado), uma aliança cujos poderosos líderes já estão engajados em uma vigorosa competição com a Rússia pela influência sobre o ponto vulnerável de energia e minerais da Ásia e sobre a Ucrânia”.
Segurança, o leitmotiv. O ‘novo pensamento’ emanado da dissolução da União Soviética, proposto por Gorbachev, tinha também presentes as armas nucleares. Deveriam ser eliminadas, pelo bem comum. Contraditório do postulado ocidental, que nelas via um meio de dissuasão, originou a ideia de ‘suficiência em defesa’– a redução das armas nucleares para chegar aos limites que bastassem aos dois lados. Em suma, a questão segurança implicava relegar o caráter de confronto, inaceitável para o Ocidente, mesmo se Gorbachev oferecesse alternativa para evitar uma guerra.
Condizente com a realidade russa, outro “novo pensamento” mais recente – porém não oficial – parte do economista Sergey Karaganov. Ressalta ele que o temor de guerra nuclear conseguiu manter uma paz relativa, por muitas décadas. Hoje, cede a uma corrida armamentista, em qualidade e quantidade, sem sistemas de limitação e proscrição. Como as bioarmas, com seus alvos (povos, grupos, animais, plantas) e meta de provocar fome e doenças. Enquanto mísseis e drones causam danos colossais às estruturas civis.
Em novembro 2024, o presidente Putin atualizou, oficialmente, os princípios básicos da política de dissuasão nuclear, da qual o ministro do Exterior, Sergey Lavrov, atua como porta-voz diplomático. É um documento de planejamento estratégico no setor de defesa nacional, com a visão oficial sobre a essência da dissuasão. Dias antes, o governo americano sob Joe Biden decidira autorizar a Ucrânia a usar mísseis de longo alcance em alvos adentrando mais a Rússia. A doutrina atualizada prevê: a Rússia reserva-se o direito de usar armas nucleares não só em resposta a um ataque nuclear, mas também a ataque convencional que crie uma “ameaça grave” à sua soberania e integridade territorial, bem como da aliada Bielorrússia.
O governo russo adota a cautela como norma e procura afastar-se do pensamento de políticos europeus que falam sem parar, e agem, na perspectiva de uma terceira guerra mundial. Essa propaganda de ideias desumaniza o inimigo criado, a Rússia e, menos, também a China. Estados Unidos e aliados da Otan esperavam vitória rápida na Ucrânia. A situação agora (e a análise é de John Mearsheimer) é de total desvantagem/destruição para os ucranianos: estrutura de energia, transporte, comunicações, logística, financeira. A pedir mais e mais bilhões de dólares, que os europeus não têm e os americanos cortaram. A Rússia passou a ver os europeus como o pior inimigo, sobretudo Reino Unido e Alemanha. Continua lutando por sua segurança e estabilidade continental. E investe na campanha de desmistificação dos opróbrios. A Ucrânia paga o preço. O Ocidente desmoraliza-se.
Segundo Anton Bespalov, do Clube Valdai de Discussão, a Polônia poderia facilmente transformar-se numa influência da integração da Ucrânia na Europa. Mas o país temia o custo do acesso ucraniano à UE. Pesquisas de opinião, com os crimes de ódio aumentando, mostram o sentimento antiucraniano em alta crescente. Em começos de 2022, as relações Polônia/Ucrânia sorriam para a Europa. As relações individuais de Moscou com as capitais europeias chegavam ao fim, até mesmo por conta do cancelamento dos fornecimentos russos de energia. A Polônia crescia nos assuntos europeus, lembra Bespalov. A partir da Operação Militar Especial, em fevereiro 2022, essas relações entram em nova etapa, distinta das que marcam a Revolução Laranja, em fins de 2004, de fato contra a Rússia e que disseminou um raro momento de unidade nas massas.
Entre 2005 e 2010 a Polônia teve papel atuante na defesa da Ucrânia na UE e Otan. Mas, internamente, a Revolução Laranja mergulhou a Ucrânia em instabilidade política. Em 2014, muda o governo em Kiev; novos efeitos se farão sentir na Polônia. Por exemplo, no processo de migração da mão de obra. Entre 2014 e 2019, o número de cidadãos ucranianos vivendo na Polônia quintuplicou e chegou a 1 milhão e meio. Em setembro deste ano 2026, a questão refugiados ucranianos ascende. É uma migração em massa que dissemina a língua russa, nativa dos ucranianos do leste e sul.
Qual é o clima da política externa da qual dependem? Graças ao setor militar e à tecnologia, o governo da Ucrânia tornou-se um ativo valioso a considerar no Ocidente. Apesar de propalar com insistência que está em xeque a defesa da Europa e do próprio país, os números mudaram. A parcela dos que apoiam um rápido acesso da Ucrânia à UE caiu de 60%, em março 2022, para 9% em julho 2026. E a parcela dos contrários à Ucrânia na UE cresceu de 2% para 40%. O fim da guerra, que já antecipou consequentes em favor da Rússia, um dia chegará. Por ora, apenas um ponto soa definitivo, como Bespalov ressalta: a cooperação Polônia/Ucrãnia de início deste século parece coisa do passado.
As relações transatlânticas passam por reestruturação fundamental, atesta Timofei Bordachev, outro membro do Clube. Os líderes europeus lutam por se manter – com vantagens. A Ucrânia serve como a cena do crime. Por toda a crise político-militar da guerra, a Europa ocidental manteve atitude ambígua. Por um lado, a oposição à Rússia – palavra e ação. Por outro, proclamando-se disposta ao diálogo. Nada de novo, salvo pelo fato de que passou de atuante a insignificante.
De resto, a Rússia está plenamente envolvida em criar, com a China, outro sistema de governança global. A Ucrânia, como Taiwan, inclui-se num princípio: oposição a forças externas incitando confronto e minando a estabilidade regional.

