Ano novo, astrólogos, curiosos e tantos quantos se empenham em previsões, mas os especialistas agem com cautela, mais inclinados em ficar nas ‘tendências’. Bem, vamos inverter o padrão e partir da história envelhecida pelo tempo, que desvenda um passado de propaganda enganosa, assumindo no presente a verdade que desmascara a mentira de ontem.
Há analistas que vinculam a política externa a prognósticos, valendo-se das principais tendências globais e da própria perspectiva nacional. Mas o ambiente internacional é altamente imprevisível. Os ‘atores’ comportam-se, por vezes, de forma ilógica, impulsiva e contraditória. Esses fatores intensificam-se, enquanto crescem as tensões entre os envolvidos. E nem todos os aspectos das relações internacionais estão predispostos a análises. A acrescentar: a qualidade da previsão sofre os reflexos da falta de responsabilidade. E, sem metodologia unificada e com muitos fatores subjetivos, mais complexo fica prever situações da conjuntura internacional.
Assim, optamos por inverter o processo. Reflexão em vez de previsão – com foco no passado. O livro (2015), do sociólogo canadense Michel Chossudovsky, Globalization of War: America’s Long War against Humanity (tradução em globalresearchcenter.org) oferece uma base para o que esperar no futuro. Parece um filme. Expõe, nas cores vivas que a narrativa permite imaginar, todo o projeto hegemônico das guerras inacabadas. Elementos que não se ofertam como arte de prever, mas desembocam exatamente aí, porque fabricados. Já no prefácio, o próprio autor esclarece: a agenda militar dominante nos Estados Unidos do após-guerra fria promove grandes operações militares e de inteligência, simultaneamente no Oriente Médio, Europa Oriental, África Subsaariana, Ásia Central e Ásia Ocidental. Obedecem a supostas coincidências. Como, por exemplo, o ataque de julho/agosto 2014 de Israel a Gaza, ataques aéreos (setembro 2014) contra Iraque e Síria para combater o Estado Islâmico, acirramento (2014) das ações na Ucrânia. Tudo já sob a aliança com a Otan. Essa agenda articula-se com um processo de guerra econômica: sanções a países soberanos, desestabilização de mercados financeiros e cambiais (e governos indesejáveis), falas repetitivas e falsas na imprensa, intervenções militares disfarçadas ou não, sob pretexto de luta contra “inimigos”.
Desde então, sobressaem o “pivô China” e a “russofobia”. Assim o autor configura a “Longa Guerra” dos Estados Unidos, sempre voltada à expansão e ao lucro. Sob a ameaça de uma formidável força militar implantada, via bases (hoje somam 800), nas principais regiões do mundo. É mesmo uma “longa guerra” contra adversários de princípios ideológicos contrários, contra o terrorismo, contra governos insubmissos a seus interesses. E contra os quais fracassaram a mídia e o movimento antiguerra nos Estados Unidos. Uma nova imagem antiguerra, agora da Casa Branca, tenta mostrar um poder hegemônico de face humana, em contraponto ao multilateralismo civilizacional que se afirma.
Segurança e poder. Interessantes linhas abrem o texto da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada pela Casa Branca em novembro 2025 [https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf]:
“Nos últimos anos, levamos nossa nação – e o mundo – à beira da catástrofe e do desastre. Após quatro anos de fraqueza, extremismo e fracassos fatais, minha administração agiu com urgência e velocidade históricas para restaurar o poderio americano interna e externamente, e trazer paz e estabilidade a nosso mundo”. Essa a tônica, ao menos no papel e na retórica. Para o signatário, presidente Donald Trump, trata-se de uma reviravolta dramática, em tão curto espaço de tempo. Suas implicações já sofreram crivo do analista geopolítico americano Scott Ritter [sputnikglobe.com/20251205], ressaltando sobretudo as questões da Otan e Europa, Rússia e Ucrânia. O que esperar a partir dessa nova (ou enganosa) visão de Washington?
Do texto oficial, extraímos os pontos principais. O Hemisfério Ocidental ganha um corolário de Trump à Doutrina Monroe, de “proteção” aos Estados Unidos, seu povo e interesses do acesso de outras geografias à região. Importam, para começar, o alistamento (parceiros regionais dispostos a criar “estabilidade” além de suas próprias fronteiras) e a expansão, ou seja, aprofundamento dessas relações de “segurança e prosperidade”, fechando o cerco aos concorrentes.
Para a Ásia, a proposta é vencer o futuro econômico, prevenir um confronto militar e liderar de uma posição de força. Em foco, a China, com a qual Washington precisaria buscar o reequilíbrio, com independência. Medidas duras, se necessário, contra estratégias consideradas predatórias (espionagem industrial, ameaças às cadeias americanas de suprimento, operações de propaganda etc.). Há uma dita determinação em promover o equilíbrio militar convencional. Taiwan é o exemplo. Importa pelos semicondutores, mas também por ser acesso direto à Segunda Cadeia de Ilhas, que fende a Ásia Nordeste e Sudeste em dois teatros distintos.
Promover a grandeza europeia, outra meta, nos soa um tanto incoerente, depois de esfacelado o continente como ator importante. No entanto, quem sabe, já que a Estratégia reconhece: os problemas da Europa ultrapassam a simples insuficiência militar e estagnação econômica. (Ritter, em sua análise, deixa claro a total impossibilidade de os europeus vencerem a Rússia). Assim, seria do interesse americano o fim das hostilidades na Ucrânia para estabilizar esse cenário. Até porque faz parte de uma política ampla de abrir os mercados europeus aos Estados Unidos, de ponta a ponta.
No Oriente Médio, é liberar-se da carga de guerras e construir a paz. Outrora, era a política de energia, o petróleo. Tempos idos. Agora é revitalizar as alianças, sobretudo no Golfo, e incorporar outros países. O Irã continua com o rótulo de “maior força desestabilizadora”, mas “enfraquecido” por Israel desde 2023 e pelo próprio Trump com a Operação Midnight Hammer, (contra o programa nuclear), de junho 2025.
Finalmente, a África – um novo paraíso de “investimentos”, em vez de “ajuda externa”. Relações comerciais “de benefício mútuo”. Abundantes recursos naturais e potencial econômico latente atraem. Contudo, há competidores de peso, como China e Rússia, numa cena multilateral de incertezas e conflitos.
Com os votos de feliz ano novo, convido os leitores a assumirem o papel dos futuristas. A moderna pax americana é como a esfinge: decifra-me ou te devoro. Vale bem um exercício mental de Piton. Dois séculos da Doutrina Monroe, da “longa guerra”, tornam indigeríveis quaisquer acenos improváveis de uma longa paz. Será talvez o universo, sábio, quem responderá, acelerando a transformação que se impõe. Essa, uma previsão infalível.

