Aprender com os jovens

O tema de que nos ocuparemos nesta reflexão se relaciona com a imensa capacidade contributiva dos jovens nos campos do conhecimento e do entendimento. Temos muito a aprender com eles: os elementos que compõem sua visão de mundo interessam a toda a sociedade; ninguém o duvide. 

Nosso mais sincero desejo é que, a partir dos subsídios a ser aqui apresentados, aprendamos a ser cada vez mais receptivos à coragem, energia, bom humor e entusiasmo que os jovens estão sempre prontos a nos transmitir, bem como a nos empenhar em promover todos os meios possíveis para sua espiritualização. 

É indiscutível o imenso valor do conhecimento acumulado pelas pessoas mais experientes e que já, pelo menos fisicamente, não são mais jovens. 

“Muito mais tem a ensinar quem mais tempo teve para aprender” – isso afirmam, não sem certa dose de razão, algumas pessoas. Embora tratar-se de uma afirmação legítima e, de certo modo, temperada pela lógica, é preciso atenção, pois ela não consiste em uma verdade absoluta, que dispense uma avaliação e uma análise mais criteriosas. 

À luz da espiritualidade defendida pelo Racionalismo Cristão, as pessoas se distinguem positivamente não pela idade que têm ou pela soma dos anos que dedicaram ao aprendizado acadêmico ou coisa que o valha, mas pela capacidade de gerir, com dignidade e racionalidade, a própria vida, cumprindo com dedicação as obrigações assumidas e superando corajosamente os desafios que se lhes apresentam. 

Respeitamos enormemente as pessoas mais vividas, suas histórias e memórias, sua resiliência e agudez de pensamento. Estamos convictos de que, principalmente no âmbito de nossa Filosofia, os idosos representam uma fonte de legítimos e autênticos saberes, de inspirações estáveis e seguras. 

Entretanto, recusamos, diga-se já, toda e qualquer ideia ou conceito que pretenda colocar os jovens em uma posição de inferioridade cultural e intelectual em relação às pessoas com mais anos de experiência de vida. Recusamo-los, pois, se revelam autoritários, desinteligentes e deformados, estruturados a partir de paradigmas reducionistas e materialistas – inaceitáveis, portanto, em nosso meio. 

Interagir com os jovens se revela uma atitude inteligente, à qual responsáveis, mestres, pais, tios e avós jamais devem se furtar. Trata-se de um gesto que envolve o cultivo de importantes virtudes humanas, as quais auxiliam consideravelmente no contexto das múltiplas possibilidades de relacionamentos pessoais. Tais são a humildade, a empatia, a capacidade de escuta e de diálogo, o desenvolvimento da imaginação e a receptividade.  Com certeza, conviver com os jovens implica aprendizado e crescimento recíprocos. 

É grande o número de jovens que, nos mais dramáticos momentos da História, provaram ser capazes de extraordinárias conquistas, de uma versatilidade a toda prova e de lideranças inimitáveis e impressionantes. 

Não há nada mais despropositado, a nosso sentir, que dizer que os jovens de hoje não se interessam por assuntos mais sérios e profundos, que eles são superficiais e refratários até mesmo em diálogos acerca de suas atitudes e sentimentos. 

No dinamismo de suas ideias e na fulgurante criatividade que os distingue, os jovens muitas vezes revelam como a espontaneidade de suas aspirações se funde no cerne dos mais elevados princípios da espiritualidade na visão do Racionalismo Cristão, que são a liberdade e a autonomia. 

É precisamente no ato crítico e inteligente de recusa a certas realidades cristalizadas, envelhecidas e ultrapassadas que os jovens ascendem ao campo das transformações efetivas e positivas. Eis mais uma razão para procurarmos compreendê-los e com eles aprender o autêntico sentido da palavra “renovação”. 

Os jovens devem ser encorajados a se conhecer cada vez melhor e mais profundamente. Devem ser estimulados a espiritualizar-se, jamais a isolar-se do mundo. Inseridos nas artes, na cultura, na filosofia, na técnica, no esporte etc. e se opondo às ideologias reacionárias, aos inimigos das liberdades e às iniciativas supressoras é que eles desenvolvem intensamente seus atributos e talentos, aproximando-se a passos largos da autorrealização. 

Diante dos atuais desenvolvimentos tecnológicos, das pressões do mercado mundial, dos problemas da comunicação planetária, dos desvios políticos nos âmbitos local, regional, nacional e mundial, das graves questões ambientais – perante tudo isso devemos lutar com veemência, em retribuição a tudo de bom que eles nos proporcionam, para que os jovens não sejam instrumentalizados politicamente. Nisto consiste nosso dever: esclarecê-los, visto que eles são os verdadeiros responsáveis pelo futuro do planeta. 

No limiar desta conclusão, queremos retomar um vocábulo utilizado no transcurso destas análises: renovação. 

Os anos que pesam sobre os ombros de muitos que nos ouvem neste momento não devem ser invocados como álibi para ignorar a energia de renovação que interpenetra e dinamiza o mundo – energia de que os jovens se fazem perfeitos instrumentos. 

Sejamos receptivos ao muito de positivo que os jovens têm a nos proporcionar. Não meçamos esforços para fornecer-lhes os meios de espiritualização, nem jamais duvidemos de suas capacidades. 

Ora, se os poucos anos do jovem Luiz de Mattos não serviram de empecilho para que ele deixasse o Velho Continente e construísse uma existência singular, magnânima e sumamente profícua do outro lado do Atlântico, em terras brasileiras, quem com um mínimo de discernimento das coisas poderá negar as imensas potencialidades infantojuvenis? 

O esclarecimento espiritual daqueles que estão na primavera da vida é missão inadiável, pois aos jovens espiritualizados cabe a tarefa de construir um mundo melhor e mais atento aos direitos humanos, um mundo com menos concorrência e mais cooperação, um mundo em que os princípios da espiritualidade sejam considerados os verdadeiros critérios de aferição da conduta humana. 

Muito Obrigado!