Embora sejam termos de uso em todos os ambientes, não custa esclarecer para os menos entrosados. Pinguço é a forma delicada de tratar o alcoólatra, o dependente insaciável, descontrolado do álcool; bebedor social é o eufemismo que encobre o costume do não menos dependente, porque prefere o traguinho ao invés do refrigerante ou água de coco nas comemorações e reuniões de amigos.
Sugerir cuidado com as bebidas destiladas não implica entendimento de liberação geral das fermentadas. Num arroubo de conscientização, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) determinou a recomendação “beba com moderação” impressa nas embalagens de bebidas alcoólicas, o que tem sido obedecido por fabricantes, envasadores e distribuidores do produto importado. Igualmente os anúncios dessas bebidas nos meios de comunicação são acrescidas da mensagem “beba com moderação”.
A advertência, se não era levada a sério, agora se tornou quase uma ameaça. Este beba com moderação pode ser lido e ouvido como “beba à vontade e morra feliz”. Não há consenso na literatura científica sobre quanto seria beber com moderação, algo como um padrão de consumo sem repercussões negativas ou com impactos na saúde física e mental. E a Organização Mundial de Saúde não reconhece um padrão de consumo de álcool seguro. Sabe-se que elevado número de brasileiros não entende o que é beber com moderação.
Por que a advertência aqui relativa ao consumo de bebidas destiladas? Está no rádio, televisão, sites, folders, encartes, em todos os lugares: a ganância de pessoas más, despreocupadas com a vida do próximo, mas de olhar fixo nas moedas de ouro que as inevitáveis mortes lhes renderão, falsificaram e distribuíram garrafas de bebidas alcoólicas com o conteúdo batizado com produto venenoso. O metanol, informa a internet, é um álcool usado industrialmente em solventes e outros produtos químicos e é altamente perigoso quando ingerido. Inicialmente, ataca o fígado, que o transforma em substâncias tóxicas que comprometem a medula, o cérebro e o nervo óptico, podendo causar cegueira, coma e até morte. Pode provocar também insuficiência pulmonar e renal. Pois é este álcool que andou sendo adicionado a bebidas originais.
Não dispomos de estatística confrontando o número de bebedores sociais e alcoólatras e de abstêmios, mas para errar por pouco adiantamos a presunção de que os percentuais sejam de 50%, o que significa que metade da população – homens e mulheres – está sob ameaça de contaminação pelas bebidas adulteradas. Este risco gera alto custo médico, hospitalar, laboratorial e social, cuja atenção é desviada do trato de questões de interesse, questões de saúde igualmente importantes.
A conscientização do risco não chega a levar à falência a consagrada happy hour, o bate-bapo de fim de expediente movido a uma bebidinha, mas causou-lhe um abalo. A mudança de hábito refletiu imediatamente no comércio de bebidas fracionadas, preparadas, os chamados drinques, e de garrafas de destilados fechadas nas casas especializadas. Os fabricantes de cerveja agradecem. Os de vinho nem tanto, mas também estão beneficiando-se.
O dano causado pela adição de metanol a bebidas tradicionais vem crescendo, pois a cada dia surgem novos casos suspeitos de intoxicação pelo veneno, e cresce também o número de óbitos com a confirmação de que a causa foi o metanol. Surpreende a agilidade policial que, em tempo recorde, localizou fontes distribuidoras das bebidas falsificadas. Rapidamente a Polícia descobriu que as garrafas batizadas procediam de São Paulo e cidades próximas e eram distribuídas para vários estados, entre eles São Paulo, Pernambuco, Bahia, Paraná e Mato Grosso do Sul. Nesse trabalho foram encontrados e apreendidos milhares de rótulos falsos e de garrafas vazias. A investigação, porém, continua e o número de suspeitos, já elevado, ainda deve crescer consideravelmente. Paralelamente ao desempenho da força-tarefa criada no estado de São Paulo para investigar e combater a venda de bebidas alcoólicas falsificadas, o governo federal criou para conter o problema um comitê informal que notificou 15 estabelecimentos para que prestem informações sobre a origem das bebidas que comercializam. Pena que as leis brasileiras são generosas e condenarão a curtas férias na cadeia os capturados comprovadamente responsáveis pelo envenenamento.
Quando o noticiário registrou o perigo e a comprovação das primeiras vítimas já a população ficou aflita, temendo por seus maridos e filhos, acostumados a um gole ou a um pileque. E o temor continua, face à incerteza de que todas as garrafas fraudadas tenham sido localizadas e destruídas. Simultaneamente apelava às autoridades pedindo informações sobre antídoto para o caso de ingestão de bebida envenenada.
Há meios de identificar se a bebida contém metanol e, numa primeira mobilização, o Governo anunciou a aquisição de 2500 ampolas de Fomepizol, que atua bloqueando a enzima álcool desidrogenase, responsável por transformar o metanol em substâncias altamente tóxicas ao organismo. O Fomepizol atua inibindo essa enzima que faz a transformação do metanol nas substâncias tóxicas, fazendo-o permanecer intacto na circulação e ser eliminado pelos rins. O Fomepizol não será vendido em farmácias neste Brasil de rimas mil.

