Como cultivar a autoconsciência?

Utilizando-nos de uma linguagem simples e acessível, interpenetrada, na medida do possível, por referências atuais e conceituadas, temos abordado em nossas reflexões o tema da autoconsciência, com ênfase em seu desenvolvimento, que se fundamenta, a nosso sentir, na abertura à transcendência, na harmonia interior e na firme coerência da vontade. 

A presente reflexão enseja pôr em evidência um aspecto peculiar dessa temática: a principal característica das pessoas que inteligentemente têm se dedicado a ampliar a consciência acerca de si mesmas. 

Cultivar a autoconsciência é desenvolvê-la a partir de uma perspectiva transcendente e ampliadora. Tal desenvolvimento implica movimento, dinamismo e ação. 

Ninguém amplia a consciência sobre si mesmo meditando em um ambiente silencioso ou sentado confortavelmente em um sofá, mas enfrentando ativamente as situações do dia a dia com criatividade e coragem, trabalhando, empreendendo, enfim, transformando a realidade a sua volta. 

Muitas vezes, a pessoa se sente impotente para dar conta das múltiplas demandas que a vida lhe apresenta, principalmente em um ambiente como o contemporâneo, no qual parece prevalecer o materialismo, a corrupção, o poder dos mais ricos, a força dos tiranos e a inversão dos valores. É legítimo sentir impotência e frustração diante desse cenário, mas é ainda mais legítimo — e mesmo imperioso — opor uma reação a esse estado de coisas, animada pelos princípios da espiritualidade defendida pelo Racionalismo Cristão e sustentada pela consciência da realidade espiritual presente em tudo e em todos. 

As desilusões, contrariedades, decepções e amarguras a que todos estão sujeitos só fincam raízes profundas e produzem frutos amargos na mente de quem não tem conhecimento do próprio valor nem de como se configuram os pensamentos — elementos que, em grande medida, estruturam a realidade. 

Desejando retomar a perspectiva estabelecida na introdução, permitimo-nos indagar: qual é a principal característica da pessoa que cultiva a autoconsciência? Sem dúvida, é a capacidade de subordinar seus impulsos, automatismos e tendências inadequadas aos valores espirituais que configuram uma vida ética, digna, produtiva e psiquicamente saudável, manifestando confiança em si mesma, em seus atributos e em suas capacidades. 

Mencionamos o termo “automatismos”, muito importante neste ponto de nossos estudos, como o é no momento histórico que vivenciamos, marcado por algoritmos que induzem repetições artificiais. 

Os seres humanos têm a tendência de repetir ações, fazendo-o muitas vezes sem reflexão, ou seja, de forma automática. Vivem, portanto, mergulhados em automatismos. Isso não é a princípio ruim: é bom ter hábitos. A questão é que a imensa parte das pessoas tende a repetir ações que reproduzem estados psíquicos vinculados a ideias imediatistas, efêmeras, ilusórias e cômodas. 

Infelizmente, é mais fácil para muitos o cultivo dos vícios do que das virtudes. Para cultivar estas, é preciso firme manifestação da vontade; para cultivar aqueles, basta quedar-se inerte ou deixar-se levar pelas “facilidades” que o mundo apresenta. 

Compreender tal processo é imprescindível para que cada um de nós consiga assumir o protagonismo da própria vida. À medida que o fazemos, ampliamos nossa consciência sobre o mundo, e à medida que reconhecemos sua incidência em nossa vida, selecionando e absorvendo o que é útil a nosso crescimento espiritual e rechaçando o que não nos convém, desenvolvemos a autoconsciência. 

Deve-se ressaltar, por oportuno, nesta conclusão que a consciência espiritualista, nos moldes em que nos proporcionam o estudo dos ensinamentos do Racionalismo Cristão, comporta duas dimensões: uma universal e outra particular. A esta última denominamos autoconsciência, cujo desenvolvimento requer do ser humano que ele se abstenha de religar-se a pensamentos ou a situações que deflagrem sentimentos de passividade, de doentia resignação, de baixa autoestima, de pessimismo e de angústia, bem como de qualquer situação que lhe subtraia dignidade. 

Pelo desenvolvimento da autoconsciência, sentimo-nos impelidos a voltar-nos para dentro de nós mesmos com o olhar de quem quer entender os mecanismos interiores. Por conseguinte, fortalecemo-nos para avaliar lucidamente o teor de nossos pensamentos e a essência de nossa conduta, pois mais importante do que ter conhecimento do valor do pensamento é ter consciência de como o pensamento é elaborado; mais importante do que ter conhecimento de que é positivo conduzir-se bem na vida é ter consciência de como fundamentamos e consolidamos um bom comportamento. Daí resulta a importância da presente reflexão, que buscou enfatizar, à luz da espiritualidade absorvida dos conceitos do Racionalismo Cristão, a principal característica de quem cultiva a autoconsciência. 

Muito Obrigado!