Contradição

Por que será que, mesmo depois da proclamação dos direitos do homem, da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e da proteção dos direitos essenciais do ser humano no plano internacional e seus sub-ramos, vemos mundo afora tantas violações, barbáries, conflitos e guerras? 

Apesar da importância e a validade dos documentos mencionados, cremos ser oportuna e atual tal indagação, de modo que procuraremos, no transcurso da presente reflexão, responder a ela, como de costume, à luz da espiritualidade defendida pelo Racionalismo Cristão, abordando outros aspectos do tema que não julgamos de menor relevância. 

Presenciamos um cenário internacional desconcertante, caracterizado por intensa instabilidade jurídica, econômica e social, bem como pela discórdia e pela beligerância. Este representa a um só tempo – diga-se já – causa e efeito da realidade materializada na qual o mundo contemporâneo se acha mergulhado. 

O preconceito, a busca desenfreada pelo poder, a intolerância, a perniciosa ideia de supremacia racial, o consumismo e a intensa desconsideração pelos aspectos transcendentes da vida ocupam posição de primazia na sociedade contemporânea. Os desdobramentos e consequências de tais circunstâncias acabam por desorganizar e desvirtuar as relações interpessoais e internacionais, gerando comportamentos irracionais e primitivos. Não são poucos os pesquisadores e acadêmicos que se impressionam com esse fato, há muito reconhecido. 

Apátridas, refugiados e migrantes de todas as idades, usurpados em seus direitos civis e políticos, têm sido tratados pelos chefes dos países ditos desenvolvidos não como seres humanos em situação de vulnerabilidade, mas como indivíduos que não fazem jus a nenhum tipo de consideração ou proteção, como se representassem uma ameaça à estabilidade de seu Estado. 

O pior é que eles são tratados como se merecessem a situação dramática e humilhante na qual se encontram, quando na verdade foram conduzidos para ela por conta do materialismo exacerbado e obscurantista de seus líderes, que, preocupados tão somente com os aspectos materiais da vida – pois são gananciosos e vaidosos –, muitas vezes se veem vinculados a ideologias niilistas e utópicas tão deletérias quanto anacrônicas. 

E o que falar dos milhares de inocentes – entre eles idosos, mulheres e crianças – vítimas dos horrores da guerra, fundamentada por percepções materialistas e unilaterais, quer no Ocidente, quer no Oriente Médio? Todas as formas de fundamentalismo acabam por desbordar em violência e terror, alimentando o ódio, a violência e a vingança, de modo a trazer sofrimento e avassalamento aos povos e nações. 

Não nos sentimos confortáveis em expor essas realidades em termos tão verazes e contundentes; todavia, não nos furtaremos a fazê-lo, mormente quando nosso objetivo é pôr em realce o alto preço que se paga pela negação dos valores espirituais como os defendidos pelo Racionalismo Cristão. Nossa resposta à indagação suscitada na introdução baseia-se precisamente nesse ponto. 

Os tratados, convenções e declarações acerca dos direitos humanos só serão efetivamente observados, de modo a ter plena eficácia, no dia em que tanto os cidadãos quanto os líderes dos países e nações se empenharem em conservar certa coerência em seus atos em relação aos princípios da espiritualidade, que nos permitem perceber a dignidade intrínseca e inegociável presente indistintamente em todos os seres humanos. 

Não se trata de uma concepção idealizada de nossa parte. Não estamos dizendo que as pessoas em geral devam engajar-se abnegadamente pelo bem comum. Sabemos que o mundo não é um mar de rosas e que os seres humanos que habitam este planeta não são perfeitos. Todavia, sem um certo nível de bom senso e de conscientização quanto a nossa origem comum e à relação de interdependência que existe entre nós, não avançaremos rumo à paz verdadeira e, por conseguinte, os tratados, declarações e convenções, por mais belos que sejam na teoria, trarão na prática constantes desapontamentos e frustrações. 

Neste momento tão dramático de nossa História, o planeta vive em contradição: por um lado, verificam-se grandes conquistas do ponto de vista legal, como os tratados internacionais de direitos humanos e as declarações mencionadas na introdução, acompanhadas de impressionante avanço tecnológico; por outro lado, sobressaem a olhos vistos retrocessos indesculpáveis no campo das relações humanas e internacionais. 

É precisamente diante de tais circunstâncias que a visão espiritualista proposta pelo Racionalismo Cristão deve ser valorizada e disseminada, pois além de ser autenticamente corajosa, ela constitui uma fonte inesgotável e inequívoca de segurança e paz. 

A percepção espiritualista inspira soluções e argumentações éticas e lógicas, morais e transcendentes, as quais não admitem qualquer distinção, restrição ou exclusão fundamentada na etnia, na cor da pele, na descendência, no status social, na religião ou coisa que o valha. Daí resulta seu incomensurável valor e autenticidade. 

Os tratados, declarações e convenções relativos aos direitos humanos e à paz mundial devem representar muito mais do que formais compromissos jurídicos: é preciso que constituam obrigações morais e espirituais oriundas de uma percepção de mundo mais ampla, responsável, abrangente e integradora. 

As reflexões propostas pelo Racionalismo Cristão para nossos estudos filosófico-espiritualistas visam colaborar com a transformação da perspectiva materialista em direção a modelos mais humanizados e espiritualizados, que, além de ser eficientes, consideram a justiça e a dignidade das pessoas como valores essenciais. 

O mundo inteiro, não apenas o Oriente Médio, precisa de paz, mas de uma paz verdadeira, alicerçada na justiça e no diálogo, fruto do esclarecimento espiritual. 

É preciso que os principais players do xadrez geopolítico desviem a tônica de seus interesses particularizados para o bem comum, por uma razão muito simples: somos irmãos em essência e habitamos uma mesma e única casa, o planeta Terra. 

Um país ou povo que visa o bem comum não é apenas reativo, mas sobretudo proativo. Tem no horizonte o futuro, que será tanto mais promissor quanto mais respeito houver pela vida humana. 

Muito Obrigado!