Crime e castigo

Na “fusão” tráfico de drogas e terrorismo, algumas importações convenientes (mas ilegais) dão o tom do momento atual. O 11 de Setembro 2001 acirrou nos Estados Unidos o compromisso de combate ao terrorismo muito aos moldes da guerra fria do século XX. Será tão torpe, brutal e prolongado – e sem um quando e como terminará. Subjugar pela pressão diplomática, sanções econômicas, financeiras e políticas, cooperação com aliados no setor de inteligência, dotar a infame CIA de ainda maior raio de ação. Mais assassinatos, mercenários, bases militares no exterior, gente corruptível onde for. Como lá atrás, o foco na Al Qaeda é evocado para aguentar a primeira fase, militar. Três outras frentes irão garantir o êxito.Como provocar o sentimento antiamericano no mundo islâmico.

Como adotar a mano dura na segurança doméstica e nas fronteiras.

Como assegurar cooperação (Reino Unido e o Eixo sionista no topo) para produzir mudanças de governos desobedientes.

E envolver tudo numa narrativa fabricada e repetida para fazer-se crédula. Só falta criar um Bin Laden II para engordar a fobia. Na América Latina, acoplar narcotráfico e terrorismo aflora o absurdo, que inclui Venezuela, Brasil, Bolívia, outra vez a Colômbia, México e outros “selecionados” do Caribe. O narcotráfico nem se vale de grupos revolucionários nem sequer tem uma bandeira política. Seus crimes são ambientais.

Datam de fins dos anos 1970 as iniciativas americanas para fortalecer as forças armadas latino-americanas, muito além de seu papel tradicional de guardiães das fronteiras nacionais. Insistente enfoque em treinar, equipar, doutrinar. Apesar de resultados medíocres, foram aumentando a ajuda financeira e reforçando a tendência na América Latina a ceder, mais e mais, as responsabilidades civis aos militares. O Plano Colômbia talvez seja o melhor exemplo; a luta arrastou-se até a guerra civil. E por duas ou mais décadas, em que o sistema judiciário arcou com sequestros e mortes.

O Relatório nº108 do International Crisis Group (Bruxelas, março 2005) ressalta a energização da guerra pelo governo Trump, com prognóstico da mesma falência. Cabeças cortadas, cultivos erradicados, operações de agressividade sem par geraram maior resiliência, redes mais dispersas geograficamente, produzindo drogas ilícitas, explorando recursos (ouro e madeira) e extorquindo o que há de empresa legal local. O mercado global cresce tanto quanto se agravam as condições sociais. Medidas coercitivas atingem funcionários, jornalistas, autoridades quaisquer e quaisquer outros civis pelo meio do caminho. Lembra a Operação Condor, quando as ditaduras militares rotularam os revolucionários como terroristas.

Onde mais entra a política? Em dezembro 1993, a queda de Pablo Escobar, líder do Cartel de Medellín infiltrado no governo colombiano, abriu caminho a violentos grupos paramilitares de direita, que se aliaram a seus aliados para financiar grupos de esquerda. Mas logo, logo, para enriquecimento. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as notórias FARC, almejavam o controle da produção de folha de coca para financiar sua própria revolução. Seis anos depois, os governos colombiano e norte-americano assinariam acordo, o Plano Colômbia, de 15 anos, para erradicar a droga e intervir no país por uma campanha militar.

Ainda segundo o Crisis Group, na tríplice fronteira amazônica da Colômbia, Brasil e Peru, o “novo senhor” em ascensão é o grupo brasileiro Comando Vermelho, em vantagem contra dois outros: Os Crias (local) e o poderoso Primeiro Comando da Capital, originário de São Paulo.

Alguns setores policiais vinculam o Comando Vermelho à colombiana Frente Carolina Ramírez, facção dissidente das FARC ora desmobilizadas. Estariam a ponto de criar um projeto binacional. A Frente Carolina Ramírez tem participado do diálogo com o governo Gustavo Petro, no âmbito de sua estratégia de “paz total”. Uma aliança formal com o Comando Vermelho poderia desferir um duro golpe nas ambições de paz de Petro e da segurança regional.

Até hoje se discute: o que mudou?

Em data recente, o Group Crisis divulgou a opinião de um ex-advogado do governo americano e consultor nos conflitos jihadistas, Brian Finucane. Diz ele: ao emoldurar como guerra ao terror a militarização contra alegados grupos criminosos na América Latina, o governo desviou-se frontalmente da antiga designação de tais grupos como “organizações terroristas estrangeiras”. Mas mesmo esta designação será legalmente um completo desvio – inapropriada e desprovida de qualquer autoridade para o uso de força militar.

Com os ataques aos barcos no Caribe, o presidente Trump buscaria não só esticar o fundamento legal da guerra ao terrorismo a uma nova frente de batalha, mas efetivamente ter licença para matar – a prerrogativa de matar fora da lei.