Distinção necessária

Uma existência produtiva, realizadora e feliz é a um só tempo fruto de comportamentos éticos e resultado de escolhas benfeitas. Estas, por seu turno, decorrem das soluções dadas às dúvidas que se apresentam aos seres humanos no transcurso de seu itinerário evolutivo neste planeta de aprendizados. 

Tendo em conta que as dúvidas tanto podem se caracterizar por especulações ineficazes que causam perplexidade e angústia como podem advir de questionamentos válidos e oportunos, convém estabelecer, criteriosamente e à luz da transcendência, uma distinção segura e clara que auxilie o estudioso da espiritualidade defendida pelo Racionalismo Cristão e tantos quantos nos acompanham a discernir entre elas. É nesse sentido que estruturamos a presente reflexão. 

Antes de analisar as principais distinções entre uma dúvida angustiante e uma dúvida legítima, julgamos oportuno expor inicialmente algumas palavras sobre a forma como as pessoas encaram, nos dias atuais, o conceito de dúvida. 

Muitos seres humanos creem que ter dúvidas e buscar dirimi-las por meio de perguntas significa expor uma fragilidade ou debilidade, representando falta de cultura, ausência de conhecimentos ou coisa que o valha. Tal situação inadequada e equivocada sobressai principalmente no cenário da vida atual, em que se nutre a ideia, nem sempre autêntica, de que a informação e o conhecimento são bens ao alcance de todos. 

Sem dúvida, a compreensão do conceito de dúvida a partir do prisma abrangente e integrador da espiritualidade pode alterar muito o cenário há pouco mencionado. 

No âmbito de nossos estudos filosófico-espiritualistas através do Racionalismo Cristão, aprendemos que as dúvidas pertinentes e contextualizadas expressam a vontade de conhecer, de ampliar conhecimentos e saberes, de dilatar percepções e reflexões – razões por que são muito bem-vindas. 

Tal entendimento acerca da essência das autênticas interrogações é condição imprescindível para distinguir quais dúvidas devem ser eliminadas, visto que são inconvenientes e contraproducentes, e quais devem ser desdobradas, analisadas, resolvidas e convertidas em conhecimento prático e útil. 

A dúvida angustiante se revela por meio de especulações e ideias não muito precisas, em geral destituídas de razoabilidade, acerca de situações que até podem vir a acontecer, mas que não dependem diretamente da pessoa, e sim de uma sucessão de eventos que ultrapassam sua esfera de ação individual. 

Teorizar sobre situações que já se deram ou que não dependem do comportamento pessoal, mas de uma série de variáveis tão elásticas quanto fortuitas, é descambar para o terreno dos questionamentos intransponíveis, que conduz invariavelmente ao desequilíbrio psíquico. 

Não raras vezes ouvimos, no meio social, frases vazias que exteriorizam dúvidas angustiantes: “Será que agi corretamente em determinada situação do passado?” “Será que o mundo será mais pacífico no futuro?” Ora, ninguém deve nutrir dúvidas em relação ao passado, que é, por definição inalterável; tampouco em relação ao futuro, que se revela, em múltiplos aspectos, imprevisível. 

Enganam-se aqueles que dizem que as dúvidas, de forma geral, são fonte de insegurança e instabilidade emocional. Os questionamentos legítimos são úteis ao desenvolvimento espiritual e, como já tivemos a oportunidade de esclarecer, são sempre bem-vindos. 

Não nos parece difícil estabelecer sinteticamente um conceito acerca do que vem a ser uma dúvida legítima: é aquela que favorece o raciocínio, que exercita a inteligência e a criatividade, que dilata a percepção sobre questões cruciais e importantes, enfim, que tem incidência prática na vida cotidiana. Ela nos convoca a tomar uma atitude refletida e madura diante dos desafios existenciais. 

Quando, em uma situação complexa, nos perguntamos qual a direção correta a ser tomada, quando, em um momento de introspecção, nos perguntamos como podemos nos tornar pessoas melhores, mais humanas e empáticas, estamos diante de dúvidas legítimas, que favorecem a ampliação de nosso panorama existencial. 

Nesta conclusão, queremos deixar patenteado que quem tiver compreendido a grandeza espiritual que há em um questionamento válido e legítimo, capaz de estimular o pensamento e o raciocínio, criando soluções, estabelecendo hipóteses e conjecturando estratégias de ação com ética e bom senso, verá crescer dentro de si uma força antes desconhecida, que só pode brotar nos seres humanos por meio da ampliação consciente dos atributos espirituais. 

As pessoas devem se comprometer a assegurar a si mesmas o equilíbrio mental e a harmonia interior por meio de pensamentos benfazejos, vigorosos e bem definidos, pois há, sem dúvida, um vínculo causal entre a qualidade dos pensamentos que emitimos e a elucidação favorável de nossas dúvidas legítimas, as quais, uma vez dirimidas, enriquecem nossa bagagem de experiência. 

O esclarecimento espiritual proporcionado pelos ensinamentos do Racionalismo Cristão afasta qualquer dúvida que gera instabilidade e angústia, resolve dificuldades interpretativas e, sem delongas e hesitações, enseja as melhores e mais fecundas soluções. Esclarecidos espiritualmente, amigos, saberemos articular, com racionalidade e criatividade, explicações e resoluções robustas, sólidas, claras e válidas, as quais têm a força e o vigor capazes de dissolver as mais insidiosas e renitentes indagações e preocupações. Sigamos, pois, unidos e lúcidos a senda da espiritualidade, que nos permite edificar uma existência produtiva, realizadora e feliz. 

Muito Obrigado!