Egoísmo generalizado, novo mal do século

Recentemente, em nosso programa de Rádio e TV Racionalismo Cristão, uma filosofia para o nosso tempo, que é transmitido às terças-feiras, a partir das 18h30min. (horário de Brasília), ao vivo, tratamos desse temam Egoísmo generalizado, que tanto mal faz à humanidade. Vamos a ele.

Ao considerar o tema do egoísmo e sua possível generalização em determinado momento histórico, impõe-se uma condição: devemos precaver-nos contra possíveis equívocos, evitando desenvolver ideias minimizadoras e preconceituosas.

É inevitável que existam concepções divergentes a respeito desse tema. Precisamente por isso, queremos ressaltar, já neste preâmbulo, que não estamos afeitos, enquanto estudiosos da espiritualidade, à ideia de generalização no que concerne às atitudes humanas, embora reconheçamos uma intensa manifestação da mentalidade subjetivista e individualista no mundo contemporâneo.

Existe, sem dúvida, uma realidade facilmente reconhecível nas manifestações do comportamento humano. Trata-se de uma realidade tão notória, que dispensa maior aprofundamento conceitual. Referimo-nos ao egoísmo.

Num sentido de verdadeira análise crítica da sociedade, pode-se entender o egoísmo exacerbado de nosso tempo, que dificulta enormemente a coexistência humana em todos os níveis, como uma consequência, até certo ponto natural, do paradigma imediatista que marca a atualidade. É possível que daí resulte a associação entre a difusão do egoísmo e a contemporaneidade.

Os indivíduos, ao preocupar-se exclusivamente consigo mesmos, estão evitando a plenitude de sua personalidade, o que significa que estão estagnando seu progresso pessoal e sobretudo moral. Em termos espiritualistas, o progresso consiste no intercâmbio fraterno entre os seres humanos e na religação destes com a própria essência da vida, a Inteligência Universal.

A sociedade deve encarar a questão do egoísmo com a máxima preocupação e seriedade. A superação deste desafio fundamenta-se na ampliação de perspectivas no campo da espiritualidade, uma vez que o problema começa com a perda da visão de conjunto.

É o entendimento acerca da realidade que transcende os aspectos materiais que desperta em nós a consciência de quem realmente somos e o que estamos fazendo neste planeta. Essa consciência deve produzir uma ação concreta, uma mudança de mentalidade e atitude, uma convergência para os valores éticos e verdadeiramente humanos, a fim de que eles sirvam de referencial para a construção de uma identidade mais justa e equânime.

São inúmeras as ações dentro da sociedade que procuram mitigar os processos egoísticos presentes em seu seio. Entretanto, essas iniciativas desconsideram, na maioria das vezes, a importância do esclarecimento espiritual; por essa mesma razão, percebe-se nitidamente que a crise se acentua, apesar do crescimento dos movimentos preocupados em revertê-la.

Aqueles que adotam a solidariedade, que é o antídoto para o egoísmo,  como um dos princípios norteadores da vida dão ao mundo eloquente demonstração de respeito à humanidade, inspirando outras pessoas a agir da mesma forma, ao mesmo tempo que bloqueiam em si os impulsos egoísticos que impedem a construção da própria felicidade.

A contradição existente entre guerra e paz tem por fundamento a oposição desses dois sentimentos: egoísmo e solidariedade. O primeiro é a base do conflito, pois reduz a visão de conjunto; o segundo é o produtor da paz, precisamente porque amplia essa visão.

Identificamo-nos, sinceramente, com todos aqueles que, ainda que não estejam filiados a qualquer instituição beneficente ou de fins semelhantes, procuram constantemente exercitar a renúncia e o desprendimento, prestando auxílio a quem dele necessite. Percebemo-los como verdadeiros combatentes do egoísmo e promotores da solidariedade – o antídoto do egoísmo, como dissemos.

Sendo o egoísmo o apego excessivo aos próprios interesses, somos levados a referenciar mais uma vez a importância do esclarecimento espiritual como base da harmonia individual e coletiva.

O ponto de vista espiritualista sobre temas fundamentais da moral, da sociabilidade e das expressões artísticas e científicas potencializa a esperança na produção de uma autêntica solidariedade, cooperando na preservação da amizade, da liberdade e da família para fins de desprendimento e comprometimento com o próximo. Isso repercute também no combate à destruição do ecossistema, gravemente afetado pela crise de egoísmo que marca nosso tempo. A prática do bem contribui para reverter ações promovidas pelo egoísmo humano.

Dialogar sobre temas tão importantes como o egoísmo, o individualismo e a prepotência, procurando reinterpretá-los à luz da transcendência e da ética, constitui seguramente um caminho de construção de uma sociedade mais fraterna e, por conseguinte, menos preocupada com os próprios interesses.

Quanto à questão suscitada, esperamos ter demonstrado que não há uma generalização, mas uma tendência que, por seu turno, pode ser revertida à medida que ações como a de hoje, que buscam informar e esclarecer, são multiplicadas pelo exemplo concreto dos que se identificam com os valores defendidos pelo Racionalismo Cristão.

Boa leitura!