Força harmônica

A percepção que as pessoas têm dos fatos que se desencadeiam a sua volta — mesmo daqueles que realmente exercem influência no curso de suas vidas — é, na maioria das vezes, apenas parcial. Há quem viva sob a ilusão de entender o todo quando, na verdade, enxerga apenas a superfície dos gestos e das palavras. João, que sempre se orgulhara de ser um homem sensato e prático, começava a desconfiar de que pouco sabia sobre o que se passava ao seu redor — e, menos ainda, do que se passava dentro dele.

Desde a reunião na empresa, que lhe causara apreensão e angústia, algo parecia ter se deslocado silenciosa e positivamente. Os boatos sobre demissões cessaram como se uma força harmônica tivesse reorganizado o tabuleiro de xadrez daquele universo corporativo. Alguns colegas foram realocados; outros, promovidos. João inesperadamente recebeu o convite para liderar um projeto de reestruturação numa unidade afastada da companhia. Aceitou, não por ambição, mas por intuição: talvez a distância o ajudasse a compreender o que a rotina insistia em encobrir.

A viagem de três horas de trem até a cidade litorânea foi marcada por uma paisagem que alternava entre o verde profundo das matas e o azul pálido do Atlântico. Encostado à janela, João via as ondas se chocando contra as pedras com uma fúria contida. A espuma desenhava contornos passageiros na areia. Aquela cadência, quase hipnótica, parecia sussurrar algo que ele ainda não compreendia. Pela primeira vez em muito tempo, desligou o celular. Então pegou um pequeno bloco de notas e escreveu:

“A distância é o único espelho que não deforma; muitas vezes revela o que a proximidade oculta.”

Sorriu. A frase, inesperadamente filosófica, soava como uma ironia à la Machado de Assis. Talvez o afastamento lhe trouxesse não apenas perspectiva, mas também a coragem de ver para além das aparências.

Chegou ao destino sob um céu nublado. A cidade era pequena, com ruas de paralelepípedos e casarões coloniais desbotados pela maresia. O hotel, de fachada amarelada e janelas de madeira pintadas de verde-musgo, parecia ter parado no tempo. O interior exalava um leve cheiro de madeira encerada e lençóis secos ao sol. Um recepcionista de fala pausada e olhos atentos o conduziu até o quarto do segundo andar, com varanda de frente para o mar.