Mais do que nunca, temos que valorizar a esperança

Há muito não se fala aqui de esperança, ao menos não da forma enfática como ela merece ser tratada, já que em nenhum momento se afasta de nós. É uma citação aqui, outra ali, casualmente, sem motivação, sem estímulo, sem o chamamento capaz de sacudir as consciências para o seu verdadeiro significado. O que nos informa essa esperança de que já se falou neste espaço? É a expectativa da capacidade humana de vencer os empecilhos com que a vida nos surpreende, de prender os bandidos, banir os maus políticos, os corruptos, os sem-vergonha que se apresentam à sociedade como bons moços. E moças. Mesmo que isto possa implicar o esvaziamento da cúpula dirigente deste país. Ao menos sobrarão os puros, os que falam a verdade e praticam o bem, os que querem o progresso financeiro, econômico, intelectual de todos os brasileiros, e não apenas engordar o dindim dos 10 por cento mais ricos à custa dos pobres e miseráveis, das pessoas em situação de rua ou dos dependentes do SUS, cuja posição na fila do Sisreg nunca avança, por causa dos paraquedistas.

Eis que este momento nos parece oportuno para falar de esperança, em função das eleições que teremos este ano e que já estão tirando o sono de alguns pretendentes. Na verdade, a eleição não é tão preocupante, pois se trata de uma etapa normal do processo democrático; o que causa preocupação são os pretendentes. O que querem, afinal? Tornar o país a oitava maravilha do mundo? Me engane que eu gosto.

Pois bem. Já se vislumbram ao longe urnas eletrônicas à disposição de espertos, tolos, confiantes e indiferentes aproximando-se para digitar suas dezenas, centenas, milhares e dezenas de milhar, números anotados à parte para não serem esquecidos. Alguns eleitores já fecharam com o 999, convictos de que o melhor, no cumprimeno de sua obrigação cívica, é anular o voto para não serem coniventes com o resultado e não favorecerem a legião de urubus à espera da carniça, o Orçamento, para destrinchá-la e consumi-la.

Como será? O pleito ocorrerá nos dias 4 de outubro, em primeiro turno, e 25 de outubro, em segundo, se houver necessidade. O eleitor votará para presidente da República, governador de estado, senadores, deputado federal, deputado estadual e deputado distrital. A eleição para presidente da República e governador é majoritária, ou seja, elege-se o candidato com a maior quantidade de votos. Se, porém, o candidato mais votado não tiver a metade mais um dos votos válidos, disputará, com o segundo colocado, o segundo turno, em que o mais votado, independentemente da diferença, será eleito.

Os candidatos a vice-presidente e vice-governador não são votados, funcionam na  chapa como penduricalhos de um de outro. Absurdo que o eleitor aceita como se estivesse tudo bem. Vejamos: no Brasil vota-se mais em pessoas do que em partidos. Se ao longo do percurso o titular faltar –nada mais certo na vida que a morte física – o eleitor receberá embrulhado em papel de presente um presidente ou governador em quem não votou e, talvez, nem votaria. Se é assim, quem não foi eleito assume o cargo. Para que eleição? Para mobilizar milhares de pessoas, gastar milhões de reais e anunciar ao mundo que o Brasil é um pais democrático? Vice tem que ser votado, sim.

Chega a eleição para o Senado. Este ano serão eleitos dois candidatos a senadores, porque haverá a renovação de dois terços dos ocupantes.

Restam 513 vagas para deputados federais que, quando se reúnem – jamais a totalidade –, fazem qualquer coisa, inclusive cabo-de-guerra, desafiando o Supremo Tribunal Federal. Será essa a função primordial da Camara dos Deputados? É muita gente para fazer quase nada e ainda criar problemas. Ah, igualdade e independência entre os Poderes!

Nas assembleias legislativas, a maioria dos deputados eleitos quer saber onde está guardada a chave do cofre, porque precisam atender as reivindicações de suas bases eleitorais.Como a caminhada é longa, alguns maços de cédulas dessas verbas se perdem. Pior é o que acontece entre os vereadores: mais um ano e chegaremos lá.

Estamos a nove meses das eleições, e já os embriões se batem e se agridem com recados virulentos, ofensas, mesmo, como se preparados para  uma guerra. Pensando bem, numa análise isenta de prejulgamento se pode afirmar com convicção: é tudo mentira. Afora a luta pelo poder, para poderem agasalhar suas crias, os candidatos têm objetivos semelhantes numa relação de compadrio. Faz lembrar a brincadeira infantil do “marcha, soldado”, com as palavras de ordem “direita! volver; esquerda! volver. Marche”.

E marcha o brasileiro, relembrando seus bons tempos, os da infância e adolescência! Já então meninos e meninas abraçavam a esperança de que, quando se tornassem adultos, não mais se defrontariam com desigualdades, miséria, fome, guerra, maus políticos. Cresceram, tornaram-se adultos, sofreram e sofrem por verem que seus sonhos voltaram ao preto e branco, mas mantêm a esperança de ver um mundo melhor, pessoas melhores, e orienta sua prole a resgatar os sonhos que tiveram nos primeiros anos.

Religiosos, se não forem induzidos a um candidato de cabresto, pedirão a Deus que os inspire na hora de escolher os candidatos; nós que somos racionalistas cristãos procuraremos, através do bom uso do nosso raciocínio, fazer boas escolhas. Na verdade, todos os caminhos levam à esperança de melhorar este Brasil de rimas mil.