Mil histórias sem fim

Invadir (e ocupar) o Irã faz parte do Grande Teatro de Guerras na Ásia Ocidental. Cozinhando há quase meio século, desde a guerra Iraque-Irã (cria americana 1980-1988), neste século XXI a onda cresce e encrespa-se. Com as Torres no fundo, o 11 de Setembro 2001, em 2002 o presidente George Bush designaria Irã, Iraque e Coreia do Norte o “Eixo do Mal”.

Washington, 2004. Uma força-tarefa independente de 23 signatários divulga, pendente de revisão, relatório sobre o Irã. Projeto de Suzanne Maloney (hoje vice-presidente da Brookings Institution), tendo como co-diretores o ex-conselheiro de segurança nacional, Zibgniew Brzezinski (autor da Doutrina Carter, de uso da força para assegurar os interesses americanos no Golfo Pérsico), e Robert M. Gates, então diretor da Central Intelligence). A considerar: proliferação nuclear, terrorismo, relação entre política e religião e o imperativo de reforma  política e econômica na região. No contexto, a situação interna do Irã e sua política externa.

Constatação 1: não há outra revolução em curso. Portanto inócuos quaisquer esforços para mudar o regime. “O fermento interno pode fazer isso”.

Constatação 2: antagonismo entre Washington e Teerã. “Um problema político impenetrável à mudança na região é o Irã”. Em xeque, o programa nuclear iraniano dissuasivo. Quanto à (inexistente) diplomacia, admitia que a natureza unilateral do embargo econômico ao Irã privava Washington de poder alavancar influência.

O ano 2005 detona a nova doutrina do Pentágono de uso das mini-nukes “inofensivas” à população civil. Em 2006, Washington põe na mesa todas as opções: “Não permitiremos ao Irã ter a arma nuclear”. Responde o Irã reagrupando-se ao clube de países com tecnologia nuclear civil. Nos cálculos então em curso, invadir o Irã por terra seria proibitivo, devido às dimensões do país. Diferente de um ataque aéreo, então sugerido em caráter contínuo, até fechar, por pressões, as negociações do programa nuclear. Passados 20 anos, sob pressão do lobby sionista, consuma-se o ataque aéreo tido como iminente em 2005, pelo analista militar Scott Ritter. Com importantes mudanças, tanto pela falta de apoio global quanto pelo revide. Mapa divulgado por Le Monde, à época, mostrava as rotas de opção do ataque. Três partiam de Israel, usando o espaço aéreo da Turquia, Jordânia, Iraque e Arábia Saudita. Se envolvidos diretamente, os Estados Unidos usariam suas inúmeras bases regionais. Plano agora inviável (os espaços aéreos e bases fechados à “cooperação”), Washington optou pela rota mais longa e direta, 37 horas de voo do B-2 Spirit a partir de Missouri. Promessa Verdadeira III, retaliação maciça do Irã, culmina 40 anos da doutrina de mísseis – de superioridade aérea com balísticos de longo alcance. Deriva da invasão do Iraque com a calamitosa “guerra das cidades”, uma lição. Assim, responde com poder de fogo integrado – balísticos, drones, ataques eletrônicos – e tenta prevenir a prevenção do inimigo.

Em 2015, Maloney publica livro sobre a economia política do Irã: Iran’s Political Economy, Cambridge University Press. Breves linhas de apresentação dizem como o país evoluiu sob o liberalizante Ali Khamenei, para conceder a seus cidadãos desenvolvimento e oportunidades. O vital setor de energia é descrito como a nascente do “moderno nacionalismo” e a reconstrução da guerra do Iraque como um modelo da lógica de autossustentação. Maloney continua a acompanhar o Irã. Em novembro 2023, comenta o 7 de Outubro – ataque do Hamas a Israel – como um começo e um fim. Começo de uma nova guerra, fim da ilusão de que os Estados Unidos podem alijar-se de uma região que domina sua agenda de segurança por meio século. Se bem o disse, melhor Washington o fez. A intervenção direta no Irã, com o ataque do B-2, poderá ser o prenúncio de uma reorientação de estratégias. Laços econômicos, esse o enfoque.

Com fundamento no setor de energia nuclear, para amarrar acordos com países supostamente ameaçados por um “Irã nuclear”, garantindo lucros polpudos a empresas americanas. E por que não tentar chantagear o Irã, para solapar as parcerias com a China e a Rússia? Implausível, mas é o vale-tudo americano. Documento político de março 2025, Aliança Abraham insiste na subjugação total de Gaza, selar fronteiras, reduzir a Síria a estado-tampão, conter o Irã.

Ao sabor da onda, maio 2025, Vali Nasr (Universidade Johns Hopkins) explica em detalhes a grande estratégia iraniana para lidar com Israel e Estados Unidos: sobrevivência e resistência. Em The Grand Strategy, Princeton University Press, relata como ela foi definida em amplo debate – foros públicos, lideranças políticas e religiosas, academia, ativistas, todos enfim.

Estado, sociedade, economia são unos. Embora pela natureza religiosa o Irã seja contra a arma nuclear, concluiu que só ela justificaria impedir um ataque externo. Também tornar-se um Estado xiita forte e soberano, quem sabe com status regional vis-à-vis a Arábia Saudita, sunita.

A resistência é nacionalista. No século XX, o petróleo; no século XXI, o projeto nuclear. As alianças definem: ou eles, ou nós.

Esta é uma guerra pela qual os grandes e menores doadores sionistas americanos pagaram as duas eleições de Donald Trump. Alheios a desastres anunciados: a presidência afundando e idem as ambições republicanas de J.D. Vance e Marco Rubio para 2028; os democratas visando o Congresso perdido; mercado de capitais sofrendo efeitos. Embora desligado das guerras, distantes, o cidadão americano, mais de 60% – e a liderança iraniana está ciente do fato – compram ações. Também empresas. É um prêmio de guerra aproveitar-se das flutuações.

Revezes espirram para Israel. Fins de junho, em um dos incontáveis Youtubs sobre a nova frente de batalha escancarada, o escritor e naturalista britânico David Attenborough expõe “as provas” de que “o colapso de Israel começou oficialmente”. Ou seja, as bases do sistema estão minando. “A prova não está em apenas um evento, é cumulativa. Israel enfrenta o mesmo que as grandes potências já passaram”. Há fragmentação interna, diz, com erosão de confiança. São patentes o stress e as tensões nas frentes múltiplas (Irã, Libano, Iraque, Iêmen, Palestina). As novas gerações reagem. Cresce a drenagem de cérebros. Ora na defensiva, militares exauridos e diferentes facções religiosas contestam o serviço militar. A população civil protesta nas ruas.

Com um Judiciário cativo, o Parlamento manipulado aguenta o tranco de manter o governo, porém a imagem foi-se. Degringola o apoio internacional a Israel, opina Attenborough, que tampouco negligencia a questão do meio ambiente em putrefação.

Numa região estreitamente interconectada, do norte da África ao sul da Ásia, impera o impossível feito de separar os que não conseguem distanciar-se. Outrora considerado o “homem doente do mundo”, o Oriente Médio apenas se teria adaptado melhor ao embate. Mas espalhou a doença. Em meio à incerteza e ao imprevisível, narra a história humana sem fim. Quem sabe, da “paz pela força” de Abraham tudo se desfaça em cinzas, e das cinzas renascerá o homem são.