Morituri te salutant

Inspirado na história da degradação humana, o governo americano mais parece um Estado penal. Segue na trajetória de instilar medo e insegurança. Um achado o novo centro de detenção, ideal a seu ver para “abrigar” o que julgar “o pior do pior” dos imigrantes: a antiga prisão de Alligator-Alcatraz, no mato pantanoso da Florida/Everglades. De início, serão 3 mil migrantes sem documentos, cercados por quilômetros de um pântano traiçoeiro, “de fato, o único caminho para a deportação”. Se preciso, acomodará mais hóspedes. Grupos ambientais já moveram ação contra o projeto, temendo pelas muitas espécies ameaçadas de extinção. Mas, sobretudo, pelo projeto federal/estadual de recuperação dos Everglades (US$ 23 bilhões), tido como dos mais ambiciosos, pois recai no abastecimento de água na região, sob pressão de temperaturas altas e mar em elevação.

O Departamento de Segurança Interna saúda a ideia, desejoso de “tirar das ruas” o que o imaginário construir como “o pior do pior”. Inclusive usando as infamantes prisões de Guantánamo e El Salvador.

Tais são prerrogativas de uma presidência imperial, de caça às bruxas. Parece longe de deter-se; conta já com a erradicação de leis federais de direitos de todos os míseros mortais envoltos no rótulo Diversidade, Equidade, Inclusão. Sequer poupa o direito à cidadania pelo nascimento, que data da guerra civil.

Henry A. Giraux, em La Progressive (fevereiro 2025), analisa “a cultura da crueldade” como a expressão mais visceral da política fascista. Crueldade que destrói vidas com precisão calculada. Expõe a injustiça sistêmica, mas também como a máquina de poder transforma o Sonho Americano em provação, milhões lutando simplesmente para sobreviver. Há meio século essa cultura persiste. De fato, uma estratégia de desapropriação. Tudo ao vencedor.

Alguns dos que explicam esse comportamento, e citamos os estudiosos Christopher Yoo, Steve Calabresi e Anthony Colangelo, reacendem a ‘doutrina do executivo unitário’. Os três ramos do governo têm poder – e dever – de interpretar a Constituição e seus atos considerados legítimos. O apoio cresce desde a queda de Nixon (renúncia que deixou muitos americanos infelizes), mas a história contradiz: é simplesmente insustentável. Graças a ela, no entanto, os Estados Unidos abandonam organismos como a Organização Mundial de Saúde, o Acordo do Clima de Paris, a Unesco etc. Minam a saúde pública do país e atingem todo o mundo, com cortes no financiamento às agências de assistência. Vão-se os grandes doadores de tempos idos: Foreign, Commonwealth, Development Office, Usaid, Agence Française. Sua ajuda recai, em grande parte, nas doenças infecciosas e vacinas infantis. Ousadamente abusadas também, e longe de ser novidade, as políticas do tarifaço e do imperialismo territorial. Foco ativo do momento: Venezuela e Brasil. A cesta dos “vulneráveis” transborda. Mas estão livres os 1.500 detidos na tentativa de golpe de 6 de janeiro 2021.

À ONU, este ano celebrando 80 anos, desejamos feliz aniversário, face a um bom tempo em persistente crise de identidade. Há 30 anos, a ideia do ‘dividendo da paz’ predominava, a fim de redistribuir fundos militares, da guerra fria que supostamente se fora, em prol do desenvolvimento. Ledo engano. Hoje, os orçamentos de defesa crescem e as organizações internacionais enfrentam crises. Recentemente, Alena Douhan, relatora especial da ONU, apresentou sumário sobre o impacto negativo das medidas coercitivas unilaterais na questão dos direitos humanos. Uma exposição ao Conselho de Direitos Humanos e à Assembleia Geral. Destaque para o efeito, nas populações, das sanções unilaterais impostas a governos, os alvos específicos, mas seu transbordamento a regiões inteiras e a empresas das cadeias de suprimento. E, de roldão, às esferas acadêmica e cientifica.

O relato de Douhan é, de fato, uma visão pessoal de sua visita à Síria. Ver para crer. País sem eletricidade, gás, água, aquecimento, alimentos, assistência à saúde, transporte, indústria, educação. Nada.

E nada capaz de impelir a qualquer reconstrução – a exemplo de outros países em conflito. Alena apoia-se nas 12 metas do Desenvolvimento Sustentável para expor as dimensões desse tipo de castigo. As sanções coercitivas afetam todas as metas, atesta. “No momento, não temos mecanismo apropriado de resposta, remédios e recuperação”. Sanções levam também a uma polarização extrema e violência política. Vêm de longe, ganham impulso a partir de Barack Obama (2008-2016), chegam ao Deus nos acuda: pressões sem peia. É mister convencer os povos a votarem em quem os Estados Unidos querem, ou se livrarem dos indesejáveis governantes por outros meios.

Em The Lancet, Lukas Engelmann (lukas.engelmann@ed.ac.uk) descortina o rastilho de pólvora de medos depois da Covid-19. Medo de infecções, do clima, medo patrocinado por governos. Medo como instrumento de terror e opressão, usado sem disfarce. Contagia. Eventos em escalada que marcaram o século XX continuam neste século XXI, gerando uma sociedade de ansiedade profunda, inventando uma lista infindável de fobias. Tudo em nome de uma liberdade ameaçada. Como tratar o medo em saúde pública e na política, num contexto de xenofobia e teorias da conspiração?

Em compasso de espera, articulam-se reações nos Estados Unidos. Seja entre os democratas (ainda inaudível), no Judiciário, na própria base trumpista. Com peso os governos estaduais, onde o efeito bumerangue das sanções é de grande impacto. Professor de Economia, Bedassa Tadesse expõe (The Conversation) um alarmante quadro de extenuação. Perda anual estimada em US$ 109.23 bilhões. Carga maior para Texas (energia), Califórnia (economia diversificada), Michigan (automanufatura). Numa base per capita, serão os estados menores que sofrerão: Novo México, Kentucky e Indiana, apoiados em manufatura e indústrias especializadas. Durante a guerra comercial Estados Unidos-China (2018-2019), os fazendeiros sofreram perdas de US$ 27 bilhões… O governo pagou mais de US$ 23 bilhões. “Situação talvez pior agora”.

Entretanto, os países afetados pelo processo de desestabilização/intervenção, lastreado de provocações, começam a agir efetivamente. Uma resistência legal, internacional, de caminho unificado pela via das organizações mundiais: Saúde, Comércio e, sobretudo, a ONU. Um aceno. Do outro lado deste hemisfério tão tenso quanto pelo cerco americano, ouviram o chamado à unidade a Organização de Cooperação de Xangai, no encontro de setembro em Jianjing, bem como os líderes presentes nas celebrações, em Pequim, do fim da II Grande Guerra e da derrota do Japão. Em fase embrionária, a Iniciativa de Governança Global direciona conceitos fundamentais de não intervenção e multilateralismo. Vira e volta a pergunta: outro mundo é possível?

Ave César, os que vão morrer te saúdam.