Religião e política no mundo islâmico coabitam desde os tempos do profeta Maomé. Na origem da violência entre Oriente e Ocidente sobressaem: a criação do Estado de Israel em 1948, a Guerra Fria, a Revolução Iraniana de 1979, a Guerra do Golfo em 1991 e o 11 de Setembro 2001. Patrocinam a radicalização o petrodólar e Osama Bin Laden. Patrocinam a degeneração os Relatórios Kynsey, sobre a conduta sexual americana (1948 e 1953), e o Dossiê Epstein, avolumando-se desde 2006. Política e religião, inseparáveis, desembocam na obrigação da guerra santa.
Fazer guerra confronta uma realidade marginal às instituições oficiais responsáveis pelas escolhas/decisões, estas sempre invisíveis do público. Jornalista e escritor argelino, Laala Bechetoula (Global Research 2026) constata: “O escândalo Jeffrey Epstein revelou a existência de redes de informação conectando figuras políticas sênior, líderes econômicos e atores na inteligência mundial, por muitos países afora”. Uma nuança de poder enraizada em compromisso, acesso privilegiado e reciprocidade calada; uma interconexão entre as esferas política, financeira e de mídia. Rotina em boa parte das democracias ocidentais.
Na guerra contra o Irã, repete-se a lengalenga da guerra necessária, a exemplo das precedentes: no Suez, Vietnã, Iraque etc. Ilegais, contestáveis. Necessária, portanto, também uma explicação. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, apela para a religião – o feito dos cruzados europeus no século XII, que expulsaram as hordas muçulmanas. Prega que os cruzados americanos de hoje precisam ter a mesma coragem. Aos comandantes das tropas contra o Irã, a guerra é apresentada evocando o Armagedon, símbolo da batalha final dos exércitos do bem contra as forças do mal. Políticos já aderem à narrativa bíblica. Como disse o ex-governador do Arkansas, Mike Huckabee, em entrevista ao jornalista Tucker Carlson: Israel tem o direito bíblico a estender o território desde o Nilo, no Egito, ao Eufrates, no Iraque – a Grande Israel.
Trata-se do projeto sionista para o qual, ainda no Império Britânico, contribuíram financeiramente as ricas comunidades judaicas da Europa, notadamente os Rothschild (petróleo). O jornalista Breno Altman, judeu eslavo, é bem explícito: “Ser judeu está relacionado ao pertencimento a uma etnia, a uma herança cultural ou até mesmo a uma religião. Ser sionista é apenas aderir a uma corrente vinculada ao pensamento de Theodor Herzl, que defende a criação de um estado judeu”.
Na lógica da Grande Israel (Matthew Ehret, thecradle.co), o país luta contra o que considera o desafio do Irã à lei e ordem do império sionista. Além da resistência interna e do apoio aos movimentos similares, o Irã estaria corroendo o poder ocidental, forjando alianças econômicas com a Eurásia, para além da hegemonia do dólar, e que enfraquecem os Estados Unidos. O Irã tampouco submete-se ao projeto da Grande Israel, ”uma missão escatológica para reconstruir o Templo de Salomão e estabelecer uma nova ordem mundial”.
Seria assim o Irã um obstáculo aos desígnios ocidentais na região. Contudo, um elemento da integração eurasiana, ancorando tanto a Iniciativa Cinturão e Rota quanto o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, conexão com o Leste europeu, a “revolução silenciosa” de interconectividade atual. Para o Irã, a guerra dá a medida de sobrevivência e resistência de um povo, submetido a sanções e pressões infindáveis. Quem sabe, a semente de um novo realinhamento, de grandes transformações.
O Irã procurou assumir, desde a Guerra Fria, uma postura de diplomacia (consulta, negociação) em sua política interna, regional e internacional. Até, em alguns casos, de cooperação. O Eixo da Resistência emergiu do apoio às minorias muçulmanas. Basicamente, considera inimigos: os infiéis, apóstatas, rebeldes e bandidos. A imagem dos Estados Unidos enquadra-se em “país inimigo”, empenhado em usar força e intriga para restaurar governos fantoches na região. “No entanto, a acusação mais enérgica de todas é a degeneração e a libertinagem do modo de vida norte-americano e a ameaça que representam para o Irã”, diz Lewis. O Grande Satã, na linguagem do aiatolá Khomeini.
Fins de 2004, quase um ano da invasão ao Iraque, um estranho fenômeno nos céus do Irã à noite: “fachos de luz vermelha rasgam a escuridão, riscas verde e azul caem vagarosamente ao solo e desaparecem”. Em Iran on the brink (Pluto Press 2007), os autores Andreas Malm e Shora Esmailian explicam que eram aviões americanos de reconhecimento, drones de vigilância e aviões pequenos sem piloto colhendo informação militar necessária a campanhas de bombardeio maciço. Irã – o próximo alvo?
Começos de 2026. A Revolução Islâmica vê, enfim, o discurso do ‘eixo do mal’ transmudar-se na demência megalômana da Grande Israel e da Grande América. A resistência continua. Uma doutrina estratégica ofensiva, mas dissuasiva, tornou-se a nova filosofia para enfrentar o inimigo maior. Foi o 7 de Outubro 2023 que descortinou ao mundo, iludido e piedoso do Holocausto, a tragédia de Gaza, agravou o conflito Israel-Hamas e abalou o pensamento do Irã. Pela primeira vez, em abril 2024, o Irã responderia ao assassinato de oficiais do Corpo de Guardas da Revolução em Damasco, enviando drones e mísseis ao espaço aéreo israelense.
Fatima Moussaoul, professora em Sciences Po (Diploweb.com: La revue géopolitique 10 février 2024) opina que o Irã se fortalece disseminando os valores do imã, o líder supremo político e religioso, e a vontade de projetar-se como potência. Mobilização, recrutamento e fidelização são meios de chegar à ideologia no quadro da estratégia militar, de segurança e defesa, sob um governo de dimensões espiritual e temporal. Ao cidadão cabe instaurar a justiça divina na Terra (sobrevivência). Na realidade do dia a dia, a verdade e a justiça, o sacrifício por uma causa justa como catalisador (resistência).
Foi em 1979 que Ali Khamenei assumiu o núcleo da República Islâmica. Papel central, tanto na militarização quanto na consolidação da quase absoluta autoridade do líder supremo. Arquiteto da ascensão do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos, formados como instrumento de controle e influência regional, fez da capacidade nuclear do país um fator único da estratégia de segurança nacional e dissuasão. Linha dura, pragmático, alinhou-se com esquerdistas, clérigos moderados e dissidentes, enquanto ocasionalmente afrouxaria a rédea, por exemplo, quando em xeque a coesão ou legitimidade do regime. Firme centralização de poder e mérito pelo título de ‘rahbar’, líder supremo. “Khamenei formou o regime revolucionário do Irã à sua imagem”, diz a Britannica. A resistência continua com o segundo filho, Mojtaba Khamenei.
Mais do que em qualquer outro lugar do mundo, parece que é na Ásia ocidental que vale a palavra do teólogo Hans Küng: “Não existirá paz entre as nações se não existir paz entre as religiões”.

