O sertão vai virar mar

O mundo começa a se adaptar às realidades da mexida em curso – o futuro breve e mais distante. Como potência hegemônica, nos Estados Unidos a dor é maior. Desde já, enfrentam vários rivais simultaneamente. Atores regionais, mais fortes e mais alinhados, trazem desafios em escalada. Começa também a erosão na teoria da dissuasão, em absoluto descrédito. Sinal de resistência ao imperialismo. Também o simbólico reconhecimento da Palestina – 150 em 193 países –, que significa, de alguma forma, estar bem com o islamismo e os árabes. Uma influência de momento.  E, definitivamente, o clima está associado às tensões geopolíticas: competição para controle de recursos, domínio das tecnologias necessárias, risco de conflito principalmente sobre água e migrações. Como no canto, parece que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão.

Ásia Ocidental. Os países do Golfo Pérsico parecem mais afinados com o pensamento na era pós-petróleo. Minerais estratégicos significam alianças no Sul Global. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos têm nas grandes mineradoras o meio de projetarem-se na África e América Latina. Sem ônus militar. Investimentos no Brasil e Chile servem de porta de entrada aos grandes mercados globais. Na África, estendem o foco à energia solar, agricultura e turismo.

É na Arábia Saudita que se redesenharia o mapa de poder: energia, economia, influência. Na análise de  Mohamad Hasan Sweidan [www.thecradle.co], os sauditas não mais se contentam em exportar, querem fornecer eletricidade, hidrogênio e tecnologias avançadas. Para os sauditas,  minerais são a geopolítica. Concepção que vem lá de 2008, quando criou a Companhia Saudita de Refino de Ouro, base dos negócios nacionais de mineração. Conta já com licenças de exploração (outro e prata), três minas internacionais (Marrocos, Uzbequistão e Curdistão) e continua a expandir-se em sete países mais, até fins deste ano. Em janeiro 2024, no Fórum dos Minerais do Futuro, traçou o mapa: África, Ásia Ocidental e Ásia Central. E chegou à América Latina.

BRICS. A desdolarização está mesmo em curso. O economista Paulo Nogueira Batista Jr. (valdaiclub.com) assina o relatório Beyond the dollar: BRICS initiatives for a multipolar financial system, novembro 2025, atestando onde já ocorre. Primeiro, na composição monetária das reservas oficiais. Queda gradual, substituição pelo ouro, que se guarda em casa, ao abrigo de sanções e confisco. Também no Federal Reserve e o FMI, perdendo terreno para outras instituições, como o Banco Popular da China. Mas onde mais avança é no campo das transações entre países (sobretudo no Sudeste asiático), graças ao uso das moedas nacionais. O autor lembra comentário de Putin. Nunca pensou em abandonar o dólar, mas lhe foi negado seu uso como meio de pagamento…  

China. Com a guerra das tarifas, o comércio mundial tornou-se a notícia quente. A suspensão, por um ano, dos controles chineses à exportação de minerais estratégicos, sujeita às intempéries do governo americano. tende a um “rush” global para adquirir suprimentos. Recém-divulgado, o 15º. Plano Quinquenal da China, 2026-2030, mantém a aposta em continuidade e qualidade. Olhando no futuro vê autossuficiência em ciência e tecnologia. E o olhar do mundo sobre a China como modelo de civilização.  Daqui do outro lado, olhamos a China evoluir no processo de relações com a América Latina e Caribe. Passa da fase de empréstimos e projetos de infraestrutura a uma abordagem mais seletiva: tecnologias de ponta e outros setores estratégicos. 

Rússia. De 19 a 23 de outubro, a Rússia hospedou o 5º. Fórum Internacional de Pesquisa e Expertise, com dez paises. A Ásia Ocidental ouviu sua mensagem de mudança de abordagem.  Razões de bastidores: a guerra da Ucrânia, a Síria, o conflito Israel-Irã e o sentimento de ver reduzida sua imagem de mediador, pelos países árabes. Agora convicta de que a região é esfera da influência americana, opta por manter relações construtivas com todos. Passa a ser prioridade a Europa Oriental. Há outra virada na política russa. O acordo de cooperação Venezuela – Rússia amplia-se. Em tese: resistência às sanções americanas, defesa da soberania e do multilateralismo. Na prática: modernizar a grade de energia, criar um sistema alternativo de seguros de transporte do petróleo, promover exploração espacial conjunta e cooperação no setor industrial. Mais aceno à redução das tarifas da União Econômica Eurasiana sobre os produtos venezuelanos em 25%. E um bônus, qual o de promover maior aceitação do sistema de pagamentos MIR russo na Venezuela.

 Índia. Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, em Tianjin. A Índia participa em alto nível. No cômputo, o pacto de energia com a Rússia e os canais de diálogo abertos com a China. “Tal como Biden aproximou Rússia e China, Trump também aproximou China e Índia” – constata o analista Cem Gürdeniz. Agora parceiros, os dois países despontam como atores importantes na transição climática. São o primeiro e o quarto maiores emissores de carbono e, portanto, com pressa de encampar energia renovável.

As relações internacionais assumem hoje um aspecto bizarro de festival de experiências nacionais, assim chamado em debate do Valdai Clube sobre a cultura do confronto, em que expõe os padrões de competição entre as grandes potências do século XXI. A rivalidade tem modelos próprios e a mudança do sistema global tenderia a acelerar-se.