Livro do jornalista britânico Jon Kimche traceja um bom (ou mau) pedaço da história palestina a partir de 1917, de colonização brutal, até o genocídio atual. Edição de 1973, até onde ele chega, Palestine or Israel avalia como cruciais dois períodos: da Declaração Balfour 1917 a 1923 e da Guerra dos Seis Dias (1967-1973). A Palestina torna-se palco de conflito entre árabes e israelenses e luta das grandes potências por influência e o petróleo do Oriente Médio. Grandes projetos e o papel predominante do Reino Unido, com a participação de sionistas e outros atores.
O sionismo projeta-se, digamos, em Manchester, cidade com 30 mil judeus da Europa oriental, centro de uma indústria química em desenvolvimento e dois líderes sionistas, Moses Gaster e Chaim Weizmann. Um grupo de jovens seduz-se com as exposições de Weizmann, professor de química na Universidade local. Dois deles destacam-se, chegariam a lordes: Israel Sieff (adjunto pessoal de Weizmann de 1915-1920, presidente da Federação Sionista da Grã-Bretanha e interlocutor direto de Kimche) e Simon Marks (apoio financeiro a Weizmann durante e após a 1ª guerra mundial). Sionismo, entendiam, eram os 10 milhões de judeus dispersos pelo mundo, em busca de uma terra.
A guerra aguça as diferenças entre os sionistas e revela Weizmann como porta-voz do povo judeu. Então já havia falas de um Estado judeu na Palestina, face à revolução (1908) dos Jovens Turcos. Pró-Palestina sob controle inglês ou com inclusão dos franceses. No questionamento, Sieff deixava claro: não ambicionamos um Estado palestino, mas um Estado judeu. Um preocupado Weizmann (dezembro 1916), em busca de apoio, pedia a aprovação de James Rothschild para criar uma política sionista oficial. Os “sionistas práticos” esquivavam, quase totalmente, o problema da imigração e da colonização de um país que não pertencia aos judeus. Os “sionistas políticos”, como Theodor Herzl e seguidores, esbarravam sobretudo no problema da dominação, não do povoamento.
Segundo Sieff, no outono boreal 1917, o debate resumia-se a um ponto: é desejável uma decisão que leve ao estabelecimento de um Estado judeu na Palestina? “A Declaração Balfour, 2 de novembro 1917, foi considerada por seus autores, e por nós (sionistas), como uma promessa para a criação de um Estado judeu”. Mas o sionismo ficaria marginalizado até a 2ª. guerra mundial.
Saltando o tempo e os entraves, em 13 de novembro 1945 os governos da Grã-Bretanha e Estados Unidos criam um comitê para recomendar medidas sobre o futuro da Palestina. Em pauta, as condições dos refugiados judeus na Europa e as possibilidades de imigração. Quatro meses depois recomendariam a imediata imigração de 100 mil judeus, mesmo se as leis palestinas limitavam a transferência de terras aos judeus. A Palestina nem seria um Estado judeu nem árabe. À administração da ONU caberiam medidas progressivas de autonomia para ambos os povos. No entanto, as medidas ficaram no zero.
Palestina independente. Demorou um ano (maio 1947) para um comitê especial decidir: a independência da Palestina deve ocorrer sem mais delongas. Quanto à futura administração, dividido. Maioria: pró-partilha Estado judeu e Estado árabe, ligados por união econômica. Minoria: pró-Palestina em um Estado único federal, judeus e árabes com autonomia nas suas respectivas áreas. Em 29 de novembro 1947, a Assembleia Geral adotaria a proposta majoritária. Seis meses depois, as forças britânicas deixam o terreno. Seis meses de muita confusão, luta de guerrilha, atentados contra as tropas. O último alto comissário para a Palestina, sir Alen Gordon Cunningham, retira-se em 14 de maio 1948. No mesmo dia, o Conselho Nacional Judeu e o Conselho Geral Sionista em Telaviv proclamam o estabelecimento do Estado de Israel.
Conflitos maiores espoucam em 1948, 1956, 1967, 1973. Sempre entre adversários militares, armados. O que não ocorre em 7 de outubro 2023, quando envolve a população civil. Israel e o Hamas contaram quatro conflitos diretos entre si. Ao que consta, o Hamas derrotado em 2008, 2012 e 2014. Até hoje, o resultado de 2023 continua por definir. Mas nenhuma guerra jamais foi ganha lançando bombas em civis. O Hamas passa ao largo. As estatísticas gritam: em fins do século XX, havia 3 milhões e 400 mil palestinos privados de suas terras, com um aumento no número de colonos judeus de 4 mil, em 1977, a 500 mil em 2024.
Em 2006, um acontecimento agravara o círculo vicioso da violência na região, gerando uma vingança coletiva contra Gaza. Dois militares israelenses foram capturados no sul do Líbano. Terrorismo imputado ao Hamas e Hezbolá, com resposta desproporcional de Israel: terrorismo de Estado, cegueira ao subestimar a Resistência palestina. A punição implacável provocou o êxodo de milhares de civis e refugiados. Efeito? Segundo o autor Edgar Morin, houve uma evolução planetária da escalada – mundo ocidental versus mundo islâmico.
Lição de Auschwitz. Entretanto, Morin lembra que existe uma “consciência universal” que, em algum momento, se manifestou entre os judeus de Israel. Absorveram a verdadeira lição de Auschwitz – mulheres e homens palestinos são suas irmãs e seus irmãos. Povo palestino e povo israelense nasceram juntos, Israel ligando o mosaico de judeus originários da diáspora, a Palestina ligando os árabes ocupados e dominados.
“Como outrora os Estados europeus, Israel obcecado por fronteiras que quer estender, e por pureza étnica, afirma sua identidade judia, mas é, ao mesmo tempo, um bastião avançado do sistema norte-americano”. Paradoxo: um pequeno Estado superarmado, inclusive com armas nucleares, situado em meio hostil de milhões de muçulmanos, não procura acomodação territorial, continua a roer os territórios palestinos. Como justificar isso? O sofrimento dos palestinos só fez suscitar no mundo árabe uma aversão particular aos judeus. Segundo Morin, foi a partir do processo Adolf Eichmann, 1961, que Israel integrou em si o Holocausto – a justificativa para escapar às leis internacionais. “O chamamento do martírio judeu passado oculta o calvário presente do povo palestino”. Oprimido ontem, opressor amanhã, lembrava Victor Hugo.
O cientista político Mohammad Rheza Delishiri (Escola de Relações Internacionais, Teerã) acredita que a batalha pela Palestina não tem como findar. A solução de dois Estados nem é a escolha de Israel nem a opção do Hamas. Para outros analistas, Gaza representa uma operação numa cadeia de operações de um século de existência. Pode parar, mas explode de novo – sem chegar à paz.
Sentencia Morin: estamos ante uma tragédia histórica nascida de dois milenários de antissemitismo judaico-cristão, um século e meio de antissemitismo nacionalista (nazismo). Para escapar a essa tragédia, nasce Israel – e começa uma nova tragédia: a que Israel faz o povo palestino sofrer desde 1948.

