a apresentação da Acadêmicos de Niterói, no desfile de escolas de samba do Grupo Especial no carnaval 2026, cujo enredo apresentado contava a história do presidente Luís Inácio Lula da Silva, desde a fuga do Nordeste com a família, deixando para trás a miséria, a fome e a seca, até a ascensão à Presidência da República. Cada fase foi detalhada pelas alas e caracterizada por fantasias alusivas, com auxílio de alegorias. Assim, apareceu cada uma de suas eleições, que começaram com a direção de um dos mais fortes sindicatos do país, o de metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (SP), em 1975, quando as entidades sindicais de trabalhadores ainda eram força política, quando não tinham sido esvaziados pelo regime que vigorou no País de 1964 a 1985.
Embora mais acanhada, essa repercussão resiste e ainda tenta minar setores que já esqueceram ou abandonaram o episódio. Os provocadores são os políiticos profissionais.
Na apreciação acadêmica da conceituação aristotélica de homem animal político acaba-se enveredando pela divagação. Positiva e concretamente, abstraindo-se também a flutuação mental de renomados estudiosos que etiquetam tudo que veem e de que tomam conhecimento e lançam na conta da sociologia, tem-se que o homem adotou a expressão político (a) para acobertar seus instintos de dominação dos demais, de sobrepor-se, de transformar-se no “dono da cocada”, no “manda chuva”, de dar vazão a seus recalques e complexos. Este ponto de vista ignora as brilhantes análises do pensador grego, mas se deve considerar que ele não viveu no Século XXI, principalmente no Brasil, e não acompanhou o comportamento, a vivência, a trajetória das pessoas que usam o manto do que hoje a semântica apelidou de política. O mais brilhante aluno de Platão não contava com o avultamento da maldade, da ganância, da falta de caráter de meia dúzia de humanos. O que se tem, então? Os contestadores do enredo, do desfile, da homenagem, avançaram e avançam em picuinhas quando fazem algum comentário, mas não têm um fato, um tema central para embasar suas venenosas articulações.
O enredo Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil agradou grande parte do público presente à Marquês de Sapucaí, mas muitos dos foliões-torcedores ou não gostaram da história contada ou não quiseram comprometer-se aplaudindo o desfile. Os jurados certamente não gostaram e aproveitaram para chutar cachorro morto: já que era uma escola pequena vinda do grupo de acesso, tascaram nota baixa em todos os quesitos. Só não tiveram coragem de negar o valor do melhor samba-enredo entre os que foram cantados na festa. Era uma inteligente letra que evocava Wladimir Herzog, Rubens Paiva e, de quebra, Betinho, que teve morte natural. Não há como questionar as notas que garantiram a dura vitória da Unidos do Viradouro, isso nem está em discussão, não se contesta também a volta da Acadêmicos à Série Ouro.
Houve muita reclamação, muitas acusações de adversários políticos do presidente, usando o direito de discordar. Na falta de mais sólida argumentação, houve até quem dissesse que o enredo desrespeitava religiões. Ora, proclamar, privilegiar e defender uma delas em detrimento das demais pode? É lícito? Não discrimina as demais? Não.
A proposta não é defender ou exaltar o cidadão, mas reconhecer o valor da pesquisa e a qualidade do trabalho de lhe dar forma concreta em cores e sons. Então, é de difícil entendimento que uma agremiação homenageie um personagem e este responda na justiça pela homenagem que lhe foi feita. Ainda assim, o presidente não está livre de punição, até o impedimento de concorrer a nova eleição. Afinal, entre outras denúncias em exame pela Procuradoria Geral da República está a que cuida do suposto desrespeito a grupos religiosos. O artigo 208 do Código Penal prevê pena leve ou multa para quem escarneça de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impeça ou perturbe cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendie publicamente ato ou objeto de culto religioso. Isso não era a intenção dos dirigentes da Acadêmicos de Niterói.
Para os reclamantes, a parte é mais importante que o todo, a vírgula mais importante que o texto; a fantasia de lata de conserva mais importante que 3 mil pessoas sambando e cantando, exalando prazer e satisfação, num convite a que todos compartilhassem sua alegria. É a mentalidade tacanha dos incapazes de compreender e aceitar o todo.
A boa educação orienta-nos a aplaudir ainda que o espetáculo não seja dos melhores, e requer que se reconheça o esforço e dedicação dos atores. Houve quem não aplaudisse. Terá sido por falta de educação? Ou por simples ignorância e por estar no lugar errado na hora errada? Pior que não aplaudir foi apontar defeitos naquilo que é incapaz de fazer, prática comum entre os atacados pela bicheira da inveja ou cegos para as coisas do povo.
Senhores leitores, ao oferecer-lhes estas mal traçadas linhas A Razão constata que muito pouco entende de carnaval, especificamente de escolas de samba, patrimônio mundial que se desenvolve no Brasil, e de política e seus praticantes. Estes, porém, acham que sabem tudo, dão palpite em tudo e se dão ao prazer de criar para si um mundo irreal e inviável em que sua vontade seja absoluta, que toda a população baixe a cabeça a suas observações, que eles imaginam serem ordens. Triste, muito triste que esta seja a realidade.
Senhores vereadores, deputados e senadores, sua paga pelo quase nada de útil que fazem já foi dada pela população ao lhes conceder o muito bem remunerado emprego. Não procurem holofotes nem chifre em cabeça de cavalo, deixem essa população viver em paz com seus prazeres, não a atormentem com besteiras, não a privem da satisfação de ver o time de sua simpatia vencer no Maracanã, de ver sua Escola desfilar com garbo e sob aplausos na Avenida. Não se esforcem para arrastar incautos para o lamaçal malcheiroso de suas ideias, lembrem-se de suas promessas de campanha. Preocupem-se – isto, sim, é o que esperamos – em apresentar e votar projetos que beneficiem essa população que não os incomoda e que, na maioria dos casos, não está nem aí para sua existência.

