Existe muita coisa que rola acima das cabeças humanas, espertas ou ingênuas, que passam despercebidas dos mortais ou, se as percebem, nem se importam porque estão a salvo de tais acontecimentos. No presente caso é uma questão de dindim: quem tem está temeroso do que possa acontecer, do que possa perder; quem não tem não está nem aí: há coisas mais importantes na pauta. Por exemplo: o que mais pode afligir um assalariado do que a absurda elevação do preço da carne bovina, levando com ele o da suína, o das aves, dos ovos, do pescado?
Quem tem algumas economias, pequenos investimentos em CDB, caderneta de poupança, acompanha o noticiário por curiosidade, sabendo que não será alcançado: afinal, a era Collor/Zélia já passou. Esses, assistindo ao noticiário da TV, comentam com as respectivas patroas: isso é briga de cachorro grande. Quem, porém, tem economias para lá de seis dígitos, empresários com participação em certos fundos de investimentos suspeitos, mal relacionados, esses não se livram do estresse, estão dormindo mal, sonhando com bichos feios e até com distúrbios intestinais, buscando penitência pelos erros cometidos com as próprias finanças.
Alguns nomes vêm entrando no vocabulário do dia a dia e, com o tempo, deixando apenas a lembrança, e eis que ganhamos mais uma joia vocabular que, esperamos, saia de cena sem causar danos maiores que os que já causou: escândalo do Banco Master. O Banco Central e a Polícia Federal puseram um fim na novela que parecia não acabar nunca. E não acabou. O banqueiro controlador do Master foi preso. Seu sócio foi detido, mas as investigações prosseguem. Quanto mais cavucam mais respingos alcançam pessoas consideradas, até então, insuspeitas, mas que estão à sombra da instituição fraudulenta.
A manobra é muito alta, a Polícia Federal estima que a instituição financeira esteja envolvida em uma fraude de R$ 12 bilhões. Os investigadores acreditam que o Master usou a negociação de compra pelo Banco de Brasília (BRB) para esconder a fabricação de carteiras falsas de crédito consignado. O envolvimento do BRB no caso deixou Brasília com aroma desagradável e alguns políticos de cabelo em pé.
Esses investimentos usavam tomadores de crédito inexistentes e inflaram os resultados da financeira. A ideia é que a fusão entre as duas empresas misturaria os balanços e seria difícil rastrear o sumiço desses ativos.
A situação do Master, que tende a extinguir-se, poderia afetar o resultado das eleições nacionais marcadas para outubro? A resposta é sim. Não se sabe ainda até onde irão os veios de falcatruas que a Polícia está explorando e que já chegaram aos quintais mais vigiados, batendo às portas até do Supremo Tribunal Federal, com acusação a um ou outro de seus personagens. A cada momento espoca uma novidade escabrosa. Correm bombeiros daqui e dali para amenizar a crise, provar (?) que há engano na apuração, que não é bem assim… Nos indícios e fatos apurados ou na defesa de suspeitos de participação nas fraudes não se tem usado a palavra inocência. Parece que foi abolida, suprimida do dicionário.
Vivemos, talvez. o maior escândalo financeiro do século, com tamanha zoeira que acabará acordando o gigante adormecido. Situações assim, escabrosas, acontecem nas nossas barbas e pairam sobre este Brasil de rimas mil.

