Exaltação a personagens relevantes na música, na arte e até na política será levada ao mundo, pela TV, e aos privilegiados do Rio de Janeiro que conquistaram o direito de sentar-se diante do que se convencionou chamar de o maior espetáculo da Terra, sem conforto, dificuldade de acesso aos poucos banheiros, mas no carnaval vale tudo, ou quase tudo. Ninguém reclama dos detritos e rejeitos que escorrem da plataforma acima da do vitimado. Não é a hora nem o local para discussões e contendas, ao contrário, é uma sequência de momentos de grande alegria que se espraia e move os mais de 80 mil foliões que, em vez de estarem na arquibancada aplaudindo sua escola de samba preferida, gostariam mesmo é de estar na pista, numa ala, sentindo ainda mais intenso o calor do desfile. Entre os espectadores não se ouvem vaias, apenas aplausos, as torcidas se respeitam, não se ofendem, eventualmente uma crítica leve e inconsequente aqui, outra ali, quando realmente a apresentação da escola de samba deixa um furo.
Alimentação? Cada grupo com seus farnéis recheados de sanduíches, pastéis, refrigerantes, cerveja e água, porque os preços dessas necessidades, nos limites do sambódromo, são de chupar o olho do incauto. Os preços dos ingressos também são de arrancar o couro. Aos poucos, os usurpadores que se apropriaram da manifestação popular – organizou-a, é verdade – estão fartando-se de lucros com atenção especial aos turistas. Se esses bicões não apresentam a festa só para estrangeiros, oferecem-na também aos abastados, àqueles que adquirem, a peso de ouro, os direitos de uso de um camarote. Durante os desfiles, ninguém liga para isso. A cada agremiação anunciada pelo sistema de som da pista de desfiles eleva-se o tom das manifestações prenunciando uma grande apresentação; a cada escola que cruza a linha de finalização dos desfiles já vai alto o “já ganhou”. Na verdade, todas merecem ganhar, porque cada uma faz o que pode, força seus limites financeiros, endivida-se, compromete-se. Cada escola exibe novidades cênicas, cada bateria faz paradas e retomadas cada vez mais arriscadas, com mais graça e sutileza, homens e mulheres no domínio de seus instrumentos, cadência perfeita, sem vacilo. Aplauso, muitas palmas nas arquibancadas e neste artigo para os valorosos percussionistas. Escreveu e musicou um poeta: “…a alma de uma escola é a bateria”. As belas, ainda que demasiado altas, alegorias também têm peso na pontuação da escola, mas o valor maior é dado ao ser humano, aos passistas, à evolução das alas e à figura ímpar da rainha de bateria que nem precisaria de fantasia ou enfeite. Mais deslumbrante seria se os dispensasse.
Nem tudo é perfeito, porém. Passados os momentos de sorrisos e lágrimas de alegria, vêm os riscos, aspecto vulnerável da segurança pública do estado do Rio de Janeiro, principalmente da capital, mal que domina praticamente todas as cidades do país. A cada dia se tem no noticiário informações sobre novas modalidades de ataque aos cidadãos para lhe tirarem jóias baratas, alianças e o telefone celular. Que fascínio exerce essa pequena e útil peça na cabeça dos facínoras! Pior, por quanto tempo se estenderá a venda de celulares furtados, sem que a Polícia tome pé da situação?
Quando um governador decidiu que os desfiles, que mudavam de lugar praticamente a cada ano, com montagens e desmontagens de arquibancadas, deveriam voltar às origens, Praça XI, ou a suas proximidades, e ofereceu a Rua Marquês de Sapucaí, com estrutura arquitetônica de Oscar Niemeyer, houve quem torcesse o nariz, mas ninguém advertiu para um problema que então não existia ou era de fácil controle, mas que evoluiria, e hoje, 40 anos depois, aí está a passarela do samba, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no centro de uma área infestada de bandidos, não os moradores, mas um povo malvado procedente de todas as concentrações de marginais, ávido de exercer sua maldosa atividade. Nessas condições tornou-se um martírio evitar e desvecilhar-se de facínoras que se postam principalmente no espaço entre a passarela do samba e a estação de trem D. Pedro II, meio de transporte utilizado pela maioria dos frequentadores dos ensaios e desfiles.
Não é só isso: vicejam na área a punga, a ameaça com arma branca, o avanço de menores sob orietação de bandidos, agressões, correrias, arrastões… que dominam e enlouquecem os passantes, foliões ou não. O povo já está acostumando-se a essa condição de insegurança e continua votando em quantos prometem acabar com isso. Um dia vai aprender. Espera-se que não seja tarde demais. O sambódromo é do município, mas a segurança em seu entorno é obrigação do governo do Estado.
A violência que ameaça passantes não está à espreita apenas nas proximidades dos locais onde há desfile de escolas de samba, mesmo de grupos inferiores; o perigo se alastra por toda a cidade e periferia facilitado pelo descuido e autoconfiança das vítimas enquanto os agentes do mal, estimulados e encorajados pelo consumo de drogas pesadas que a Polícia não consegue conter, atuam livremente.
E nos blocos de embalo, de sujo e trios elétricos? Aí são pungas e assaltos à luz do dia com preferência por relógios de pulso, correntinhas de ouro e celulares que, por segurança e bom senso, devem ser deixados em casa.
Há risco também nos pratos rápidos e salgadinhos oferecidos em barracas e quiosques, principalmente por casual falta de higiene na manipulação dos produtos e seu condicionamento em temperatura imprópria. Só devem ser consumidas bebidas enlatadas, evitando-se, sempre, o contato da embalagem com a boca. Ah, sim! Falamos muito de Rio de Janeiro por ser aqui a sede de A Razão, mas o carnaval é todo o Brasil de rimas mil.

