O 13º trabalho de Hércules

Países considerados potências medianas, ou intermediárias, avidamente aproveitam a onda oportuna de agora para ganhar status, em meio aos conflitos irreconciliáveis na (des)ordem internacional. Qual o significado de potência mediana? No espectro internacional, abaixo da superpotência e da grande potência, pesa a influência, sobretudo regional. A origem do conceito vem lá do século XVI. Nos escritos do filósofo italiano Giovanni Botero, aponta-se desacordo quanto à definição: precisa ter força militar/posição geoestratégica e capacidade de liderança, com vistas à política externa. O primeiro conceito implica realidade; o segundo, pluralidade. O nicho diplomático tem alcance menor. Nem desafia o status quo no sistema internacional, nem tende ao revisionismo ou transformismo. São só intermediários e estabilizadores. Sempre pesando a segurança.

Termo e conceito despertam controvérsia. O autor Brad Grosserman diz que o fato de serem empoderadas é porque um hegêmona não constitui apelo. Mas precisam provar: “não há poder sem ação, nem energia sem movimento”.  O destino do mundo, julga, será determinado  pela reação do conglomerado de países que se abrigaram no guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos,  tomando como certa uma liderança ora sepultada.

Assim, o fantasma da segurança assombra todas. O Paquistão, potência nuclear, foi o primeiro a arvorar-se como o principal dos quatro intitulados mediadores da paz na guerra da Ásia ocidental, que incluem ainda o Egito, Turquia e Arábia Saudita. A grande potência financeira Arábia Saudita, já diversificando sua economia (investimentos na África, por exemplo), envolve-se na dança das alianças com pactos de segurança e cooperação militar. O anuário Sipri 2025 lista o país entre os cinco maiores gastadores com armas na região (mais o Qatar, Egito, Kuwait e Emirados Árabes Unidos). Há um ano, fechou acordo de defesa com o Paquistão, para resposta coordenada a ameaças regionais. Com direito à proteção do arsenal nuclear paquistanês. Este ano, outro acordo de defesa e cooperação militar, agora com a Ucrânia. Drones. De quebra, uma nova coalizão militar com a Somália e o Egito, para segurança no mar Vermelho.

Analistas falam em trabalho conjunto das potências médias e pequenas em coalizões com governos de ideias semelhantes – a alternativa da diversificação. Sem equidistância das grandes potências (Estados Unidos e Europa). Mas evitando a dependência em um único ator externo e expandindo as redes de parceria, que priorizam ganhos bilaterais a curto prazo. Com engajamento regional, fica mais difícil o desrespeito. Em tese, o formato negociável. O “padrão duplo” do Ocidente os leva a abandonar a cesta com todos os ovos em troca da escolha de não escolher lados, em assuntos globais. Tal conduta favorece o diálogo, a mediação, a desescalada. Rumos para o desenvolvimento, que se podem estender a outros medianos de outras regiões. Afinal, a Ásia ocidental experimenta, antes de muitos, esta fase de ruptura, como a nomeia o premier canadense Mark Carney.    

A guerra na Ásia Ocidental alça o Irã ao status dos grandes. Internacionaliza custos, constrói pressões para forçar a desescalada. Nas coxias, a China. É a Eurásia em xeque. Há que preservar os projetos de conectividade de longo prazo (corredores econômicos de cadeias de distribuição e transporte etc.), que dependem da ainda distante estabilidade regional. Com o estreito de Hormuz bloqueado aos inimigos, o Irã vincula o trânsito petroleiro a cargas pagas somente em petroyuans. Nem dólares, nem euros. Mais trunfos na rota de mudança do sistema financeiro global.

No início do ano, Egito e Israel anunciaram novo acordo do gás de Leviatã. Válido até 2040. Garante ao Egito de 15 a 20% de seu consumo mensal. Mas, em 20 de fevereiro, aconteceu o restabelecimento pleno de relações Egito-Irã, após 47 anos. Irá o Egito rezar o terço com o Golfo? Ou ficar com ambos? Os países do Conselho de Cooperação parecem cogitar (informações ainda no ar) renegociar/retirar seus investimentos dos Estados Unidos. A guerra não é nossa, alegam, mas chega com muita destruição local, ruim para o status. O outflow chegaria a uma ou duas dezenas de bilhões de dólares (YouTube Frum Report). 

Quanto à Turquia, vangloria-se de sua crescente influência regional (apesar dos vínculos com a Otan). O modelo do presidente Recep Tayyip Erdogan, que ele diz ser único, tem três vetores: o islâmico, o pós-otomano e o pós-soviético. E empenho em bem relacionar-se. O país enfrenta crise econômica e dissidência interna, face a eleições presidenciais em maio 2028. Em 19 março, da prisão de Silivri, Ekrem Imamoglu arroga-se o direito de divulgar seu pensamento confinado [projectsyndicate.com]. Prefeito de Istambul, foi afastado do cargo e preso, depois de proclamado candidato presidencial pelo Partido Republicano Popular.

A Ásia ocidental concedeu-lhe novo momento de pregação contra a política de poder, na qual, diz, a diplomacia reduz-se a pressões políticas e ameaças mascaradas como acordos e compromisso de bastidores. Aplaude a tarefa dos “medianos”.  Países aprendendo a agir em concerto, sem formar um único bloco formal. “Potências intermediárias podem coordenar sanções e corredores humanitários, intermediar troca de prisioneiros, abrir canais discretos e manter as instituições multilaterais funcionando, quando os maiores atores pulam fora ou se empenham em sabotagem”. Em suma, seriam os “do meio” os propensos a abrir vias por onde a diplomacia possa chegar ao “poder da lei”, rompendo com a “lei do poder”.

A Índia também já cresceu e apareceu, tem objetivos claros de política externa: resguardar-se com os “grandes”,  pela via de seu próprio multialinhamento, contra as incertezas da fragmentação vigente. Principalmente com o Ocidente americano, a China em ascensão e o parceiro tradicional, a Rússia.  Não será aliado subordinado a qualquer deles. Seus invocados direitos de liderança regional e status de grande potência já são acatados por Moscou. Quanto ao interesse nacional, satisfaz uma população que, em geral, opta pelo Ocidente. Entre abraços e beijinhos no Pentágono e Knesset, participa dos BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai. Compra petróleo da Rússia, foi ao Irã por petróleo cru, mas cumpre os termos americanos, por causa das sanções – bem como dos conglomerados indianos que levantam capital nos mercados americanos.

Qual, no Sul Global de tantas potências medianas subindo degraus, aproveitará o momento?  Lembra Marco Fernandez, representante do Brasil no Conselho Cívico dos BRICS+, que o peculiar da América Latina, como região, é o apoio de sua elite a Washington. Enfim, cada país tem agenda própria. Seus interesses, como potências intermediárias, não afetam diretamente os interesses das grandes, ou da superpotência, e podem prescindir de laços ideológicos. O Brasil que o diga.    

De novo, a voz dos analistas. Esta fase fluida da grande transformação – ou transição, ou ruptura – tende a levar anos, décadas talvez, para desembrulhar. Complexa, instável, fragmentada, com instituições regionais alternativas como o BRICS, o Novo Banco de Desenvolvimento, a Organização de Cooperação de Xangai, o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura, a União Africana etc. Aprofundam-se as linhas de divisão entre os velhos e novos centros de poder. As instituições globais passam a instrumentos complementares às regionais, levando a reposicionar política, economia e segurança. O retrato do hoje na Ásia ocidental, sobretudo no Golfo.