Está perto a festa da democracia

Entra em pré-fervura a campanha eleitoral, que já começou quente, nos idos de 2022. Mal o TSE proclamou a vitória do atual presidente da República, já a oposição iniciou seus ataques ao eleito e levou a pretensão de desforra ao 8 de janeiro, com repercussão mundial e, no país, cobranças que se estendem até hoje, com alguns presos, outros sob investigação e uma fugitiva. Hoje, de um lado, acusações, denúncias, fake news e um partido político sem unanimidade, de lideranças contestadas, vozes insatisfeitas aqui e ali, uma família que não se entende; de outro, o corre-corre para defender-se de ataques, abafar imputações maldosas e aparecer como grupo salvador da pátria, capaz de proporcionar felicidade aos brasileiros famintos, sem direito a água potável, saneamento básico, transporte digno e salário capaz de suprir as necessidades alimentares de uma família – mais que tudo, com a porta do cofre aberta para atender solicitações de aliados, simpatizantes e indecisos. Na busca do voto vale tudo, desde que não seja ilegal ou imoral. Eita Brasil de rimas mil! Tertius não exercem influência nem contra nem a favor de A ou de B, estão aí batendo palma para maluco dançar. Até aqui se tem que a luta pelo poder se restringe ao confronto da situação com um único representante da oposição.

Os dois extremos se digladiam em busca do apoio das mulheres, convencidos de que o voto feminino pode decidir a eleição presidencial. Quanta bobagem é dita nessa refrega, horas depois amainadas como fazia a velha borracha no caderno escolar! Mas frases escritas com caneta não desaparecem com o esfregão dessa borracha ou pedido de desculpas. É sabido que as palavras ditas não voltam e que a vergonha recai sobre a cabeça dos que não pensaram antes de falar e que vão carregar as consequências das desmedidas patacoadas. Pois que venham as mulheres às urnas, que exerçam cargos nas agremiações políticas, que tenham opinião, que ombreiem com os homens no exercício da cidadania, já que com eles disputam vaga na indústria, no comércio, nas profissões liberais e serviços. Não há motivo para pô-las no centro de discussões infrutíferas, preconceituosas e machistas.

Vem aí a discussão sobre o fim do 6×1. Salvo engano, alongar o período de descanso seja reconhecimento pela dedicação e empenho, medida benéfica, salutar, parece que o trabalhador brasileiro precisa mais de melhor salário do que de folgas, até porque com a mixaria do salário-mínimo vai passar mais tempo dentro de casa, numa cadeira de balanço cansando-se de descansar. Fazer o que nas folgas alongadas sem dinheiro? O lazer tem

custo. Até a praia, que é de graça, requer a despesa do transporte. E haverá os que aproveitarão a folga para um ou outro biscate, de modo a melhorar a renda.

Neste ponto entra um conto do vigário do atual governo, que insiste em afirmar para o mundo que a fome foi vencida. Onde, no Lesoto ou no Burundi? Porque no Brasil não foi e está muito longe disso. Ela está aí, associada às dificuldades para atendimento médico e exames pelo SUS; está aí na única refeição do dia à base de farinha de mandioca e fubá de milho para valorizar o feijão à paisana, está aí a clamar piedade dos que se empanturram de pratos finos e bebidas importadas, está aí em alguns casos estimulada pela carência de empregos. A merenda escolar pode quebrar o galho do pequeno, mas não o dos pais e irmãos ainda fora da escola. Disse o sociólogo Betinho: “a fome tem pressa”. Poucos, porém, ouviram o apelo, o sacode não alcançou os ombros certos, e a exortação caiu no vazio, embora hoje seja bonito dizer que a fome foi vencida. Mais um pouco e se dirá que o brasileiro chora de barriga cheia porque suas dificuldades foram sanadas. E haverá quem acredite. De passagem, haverá também quem aproveite o momento favorável para criar algum imposto, elevar percentuais dos atuais ou ampliar a abrangência destes.

Por que falamos em pré-fervura? Porque somente em final de julho começou o prazo para as convenções partidárias que definem os candidatos aos altos cargos da República, na festa da democracia, sem bolo e sem champanha (só para os eleitores) que se realizará em 4 de outubro, primeiro turno, e 25 de outubro, eventual segundo turno. Esse prazo se estende até dia 5 deste mês, e até o dia 15 os registros de candidatura devem ser entregues à Justiça Eleitoral. A propaganda eleitoral nas ruas e na internet começa em 16 deste mês. É aí que a campanha eleitoral ferve e o número de recursos ao TSE e TREs aumenta. Lá vêm as promessas que não serão cumpridas, a conversa fiada e os sorrisos congelados. Na TV, os pretendentes aos altos vencimentos e outras vantagens dos cargos eletivos aparecem sorrindo ou exibindo punhos cerrados, naturalmente após bom período de ensaio. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão vai de 28 de agosto a 1º de outubro, mais de um mês de blablablá. Os brasileiros escolherão presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Presidente e governadores levam junto seus respectivos vices. Só para não passar em branco, lembremo-nos do pesado custo do pleito. Talvez pudesse ser menos oneroso para o povo, que ainda é, estúpida e violentamente, obrigado a votar, ou a comparecer aos locais de votação, nem que seja para anular o voto.

Há certo rigor nas determinações legais que os candidatos devem cumprir, com previsão de multas, cassação da candidatura e até cadeia, mas os recursos e a benevolência de alguns julgadores deixam rolar. Compra de votos, distribuição de brindes (quem não gosta de um chaveirinho ou boné?), transporte de eleitores no dia da votação e boca de urna (não pode mesmo?) estão entre as proibições.

O período pré-eleitoral garante a imunidade contra prisões, que somente poderão ocorrer em caso de flagrante. A garantia vale tanto para candidatos, a partir de 19 de setembro, como para eleitores, a partir de 29. Até 14 de setembro, os sistemas eletrônicos de votação serão lacrados em cerimônia no TSE. Passadas as eleições, o cadastro eleitoral será reaberto em 3 de novembro. Quem não tiver votado no primeiro turno terá até 3 de dezembro para justificar a ausência. Os eleitos serão diplomados até 18 de dezembro e tomarão posse em janeiro de 2027.