À sua imagem e bel-prazer

Está para começar. O presidente Trump já anunciou uma inédita antecedência de meses para endossar candidaturas, pessolmente, pela mídia Truth Social, e assim canalizar o capital financeiro para as eleições de meio mandato. Garantir o próximo Congresso. Nessa jogada, em que ao final o eleitor vota, mas o sistema elege, basta um político carta marcada sobressair nas primárias para ascender nas eleições nacionais. Democracia à americana. Acentuados também estão os rumores de muita aposta e previsões de marketing, bastante populares, pois envolvem figuras políticas. Alguém da família Trump assessora a Kalshi e tem ações na Polymarket, os mercados de apostas em alta. O (ainda por criar) mercado de previsões será afiliado ao Truth Predict. Apostas quase com zero regulamentação. Truth Social tem de tudo um pouco, mas também é pouco seu uso. Figura em último lugar dentre onze mídias sociais, lideradas por YouTube (só três com 50% ou mais de uso), segundo pesquisa de 2025 do Pew Research Center.

Esse novo formato de apoio –influência direta – e a Inteligência Artificial – que rima com o sistema das contribuições à campanha, a partir do todo-poderoso complexo industrial militar e o lobby israelense – irão predominar nas eleições de novembro 2028. O ciclo das primárias abre o espetáculo, drenando gastos milionários, de olho no projeto futuro de regulamentação da tecnologia. Nos bastidores, consenso bipartidário de que o Congresso precisa criar leis federais para a IA, e facilitar seu desenvolvimento. Os esforços nesse sentido estagnaram, mas não os fluxos financeiros, sobretudo de grupos como a OpenAI e a Anthropic. Na corrida, disputam como configurar, comercializar e governar a IA. Em

xeque: empregos, custos econômicos e ambientais dos centros de dados e a segurança dos modelos. É pesado o investimento. A torneira de dólares deve continuar a fluir, mesmo após o juramento do novo Congresso, em janeiro. A governança da IA tornou-se uma batalha política. IA neutra é uma ilusão, reza o consenso. Seu controle faz-se mesclando assuntos técnicos e políticos e inventando instrumentos de política externa, com fins de influência. Por aí entra o controle da informação. Emergem duas abordagens competitivas: uma de formato clube exclusivo, outra de formato universal, sob uma estrutura contrária à dominância ocidental. Política em período difícil. Eleitorado crítico do governo que não funciona. Nem democratas nem republicanos cuidam em achar soluções, a presidência testa sua autoridade. Alinhada ao explícito veto presidencial à legislação, há uma esteira de pontos de veto. Diferentes autores desnudam a anatomia social dos dois partidos hoje, com traços nos anos 2010: reindustrialização verde, produção de combustível fóssil, combate à inflação e empenho em manter o dólar como o ativo mundial mais seguro. O bloco trumpista distanciou-se dos graduados (os brancos universitários), e os brancos não graduados foram a tábua de salvação. Do outro lado, o Partido Democrata escorou-se na noção de “entre as classes”: profissionais urbanos, ativistas liberais de esquerda, veteranos dos direitos civis, gente da inteligência. Cada uma e todas as facções do capital americano, com ambos os partidos comprometidos a preservar um hiperpoder americano no exterior.

É em textos que o trumpismo aparece sem disfarce. Como as estratégias e ordens executivas, mostrando o que Trump pensa do seu próprio país e do mundo, de aliados ou rivais. Discursos ajudam; garantem entrar bem na história. Um feito, o da celebração dos 250 anos da América, contundente contra o “ressurgimento do comunismo no país”. No cômputo, há quatro documentos fundamentais a considerar: a Estratégia de Segurança Nacional, a Estratégia de Defesa Nacional, o Relatório sobre o Poderio Militar da China e a Determinação Anual de Ameaça. O número quatro parece exercer algum sortilégio. Em Trump 1.0 representou o pilar familiar do ‘America First’, já com apelo à soberania e controle de fronteiras. São parte da “sobrevivência nacional”, mais a defesa da pátria – os mísseis defensivos. Pela geografia: primeiro, o Hemisfério ocidental. Que a Europa assuma suas responsabilidades de defesa. Com o Indo-Pacifico, competição. Em suma, tudo é negociável e se arrasta. Há sanções econômicas e acordos, mas sem descartar intervenção militar.

O Pew Research Center constata o humor azedo do povo americano neste aniversário. Apenas 29% dizem-se satisfeitos e 69% estão insatisfeitos com as coisas como vão. Mas o sentimento vincula-se ao partido e à presidência. Os satisfeitos são os republicanos e os insatisfeitos são os democratas. Resta um tanto de otimismo quanto ao futuro distante, 2050. O país então estará mais dividido politicamente e será menos importante para o mundo, 58% acreditam. Por ora, os democratas tentam retomar o Congresso. Summa cum laudae o ativismo do infatigável senador Bernie Sanders e da ala democrata feminina. Os Socialistas Democráticos da América despontam aguerridos. A rebelião política de Sanders agora leva alguns democratas a refazerem seus cálculos. Acusam vitórias relevantes (novembro 2025) nos governos da Virginia e Nova Jersey, triunfo também nas primárias democratas no Colorado, Nova York e Pensilvânia, mais candidatos concorrendo em Michigan (4 de agosto), no Missouri e até na Flórida. O partido, DSA na sigla em inglês, reúne 100 mil adeptos, com núcleos nos 50 estados do país. Além dos objetivos políticos, pretende que se acabe com a influência do dinheiro na política. Segundo pesquisas, nem gostar nem desgostar do DAS é a escolha mais comum.

Opina o cientista político britânico David Lane que, vitorioso o trumpismo, os Estados Unidos tanto ajustarão sua política externa quanto poderão inaugurar uma nova ordem

internacional. Talvez aproximando o Ocidente e a Rússia. Terá essa visão ressonância nas elites políticas européias? Poderá sobreviver à resistência dos oponentes entrincheirados no Deep State? E aos desafios dos neoconservadores no Partido Republicano? Para essas interrogações, Lane traz dois senões. Primeiro, se Trump poderia recuperar as políticas econômicas e os lucros. Segundo, se sua política externa, baseada no negociável, poderia assegurar uma paz duradoura na Ucrânia e resolver o relacionamento Rússia-Otan.

Sucesso tende a oferecer uma alternativa capitalista/nacional à globalização liberal e, portanto, reconfigurar a ordem internacional. Fracasso desacreditará Trump internamente. Seu poder cerceado, diversidade, políticas de equidade e inclusão seriam restabelecidas, o comércio interno (importações de consumo) teria termos mais brandos. Do ponto de vista internacional, volta ao intervencionismo e acirramento da guerra fria atual.

Salvo perspectivas outras, estas eleições de meio mandato avizinham-se um parque de diversões com tudo a que todos têm direito. Inclusive a escolha: a vitória republicana, com a continuidade do atual, ou a vitória democrata, com dois anos de pato manco.