A conversa que não terminou

Gilberto Silva, presidente do Racionalismo Cristão. 

João segurou o jornal, mas não o abriu. Havia outra coisa ocupando sua atenção.

— Mariana disse que eu também mudei.

— Disse.

— E você concordou rápido demais.

Clara sorriu de leve.

— Não me pareceu algo que exigisse defesa.

João ficou em silêncio por um instante, como quem procura a palavra certa.

— Passei anos achando que mudar era só questão de vontade.

— E não é?

— É também. Mas a vontade, sozinha, não basta. Para que encontre o caminho certo, a pessoa precisa estar fortalecida por dentro.

Clara esperou.

Ele continuou:

— Eu imaginava a mudança como uma lista de decisões: trabalhar menos, ter mais paciência, conversar com os filhos, prestar atenção em você…

— Não seria pouco.

— Não. Mas eu poderia fazer tudo isso e continuar sendo o mesmo homem. Só que com a rotina mais arrumada.

Clara riu.

— Você faria uma agenda.

— Naturalmente.

— Segunda e quarta: atenção à esposa.

— Vinte e cinco minutos.

— Filhos às terças e quintas.

— Com possibilidade de remanejamento.

Os dois riram. A brincadeira deixava mais claro o que ele tentava dizer.

— Não foi assim que aconteceu — disse João. — Eu não marquei hora para conversar com Mariana. Não decidi antecipadamente ajudar o Bruno com calma naquele dia. Nem planejei ficar depois do jantar conversando com você sem olhar o relógio. Tudo aconteceu espontaneamente, como consequência natural de algo maior que já vinha se formando.

Clara lembrou-se da noite anterior.

Ele respirou fundo.

— Em algum momento, eu simplesmente comecei a querer essas coisas. Quando me senti mais inteiro por dentro.

A frase ficou entre eles sem pressa, como ficam certas verdades quando finalmente encontram lugar.

Durante anos, trabalho, segurança e responsabilidade foram o eixo da vida de João. Nada disso perdera valor.

O que mudava era a proporção. Ele começava a enxergar o tamanho das coisas.

A família deixava de ser intervalo; tornava-se centro.

Clara puxou o caderno.

— Quero lhe mostrar uma coisa.

Abriu nas primeiras páginas e entregou a ele.

João folheou.

Frases copiadas do livreto. Trechos do jornal. Observações das conversas com Teresa.

— Olhando seus escritos, percebo que até aqui você só transcrevia.

— Continue.

Mais adiante, surgiam comentários próprios — primeiro tímidos, depois mais firmes.

— Aqui você começa a dialogar com o que leu no livreto.

— Houve pouquíssimas divergências.

— Ainda bem.

João avançou.

As citações rareavam.

Apareciam perguntas, reflexões, episódios da casa, conclusões provisórias.

Até que ele percebeu:

— A partir de determinado momento, a influência de Teresa quase desaparece.

Clara sorriu.

— Exatamente.

João levantou os olhos.

— Era isso que ela queria?

— Tenho quase certeza.

Ele voltou às páginas.

Entendeu o paradoxo: Teresa desaparecia porque sua presença havia cumprido o papel que lhe cabia — o de alguém que desejava verdadeiramente ajudar.

Ela não queria uma discípula.

Queria uma amiga mais consciente e independente.

Clara começava a escrever com a própria voz.

João fechou o caderno.

— Ela sabe o que aconteceu aqui?

— Algumas coisas. Mas não tudo.

João olhou para a sala.

Mariana dizia algo a Bruno; ele protestava com a convicção de quem enfrenta uma grande injustiça.

Segundos depois, os dois riam.

João escutou aquele riso como quem percebe um eco tardio de outra conversa.

— Teresa conversou com você naquele dia e em outras ocasiões — disse. — Mas as conversas não terminaram quando vocês se despediram. Aqueles diálogos ultrapassaram os momentos em que aconteceram, transcenderam as circunstâncias em que nasceram.

Clara não respondeu.

Ele passou a mão pela capa do caderno.

— Chegou até mim. Chegou a eles. E nenhum de nós estava naquela praça.

Clara olhou para o jornal, o livreto, o caderno.

Meses acreditando que aquele percurso era só seu.

Agora via que ele se espalhara pela casa como luz atravessando frestas.

Uma conversa começara num banco de praça.

Virara reflexão.

Depois gesto.

Depois convivência.

João voltou a olhar para a sala.

— É estranho pensar que tudo isso começou naquelas primeiras conversas.

Clara fechou o jornal.

— Talvez nem elas tenham sido o começo.

— Não?

Ela pensou em Teresa.

Pensou nas pessoas que, antes dela, haviam transmitido a outros o que um dia também receberam.

Nas palavras que precederam aquelas conversas e nas muitas outras que delas poderiam nascer.

— Creio que algumas coisas não tenham um começo que a gente consiga apontar.

João sorriu.

— Mariana aprovaria essa conclusão.

Clara também sorriu.

Olhou para o caderno.

E compreendeu: certas conversas só terminam para quem se despede.

As mais fecundas seguem adiante. Passam de uma pessoa a outra, atravessam casas, alcançam outras vidas.

E chegam muito mais longe do que poderia imaginar quem um dia as iniciou.