A face oculta da vergonha

Com esse mesmo título publicamos em nosso livro Virtudes eternas (2018) às páginas 141-144 esse tema sob a ótica da Filosofia e alguns pontos de vista da Psicologia.

Nesse nosso novo tema vamos tratar de uma das mais complexas emoções que é a vulnerabilidade humana íntima da vergonha. Trata-se de uma emoção que afeta, também, a vida social das pessoas e que desponta quando tivermos que avaliar nossas ações face às expectativas dos nossos semelhantes. Geralmente envolve várias outras emoções como, por exemplo, a autoestima. A vergonha atua, também, nos mecanismos de adaptação visando a influenciar o comportamento em sociedade.

Os aspectos mais presentes para compreensão das questões que afetam o impacto negativo dessa emoção são elencados a seguir:

1. Origem racional. A vergonha se comporta diferentemente de outros sentimentos por envolver mecanismos de comparação consciente em que nos sentimos desprezados pelo julgamento impiedoso alheio:

2. Impacto social. Ela pode se apresentar disfarçada como timidez, medo de falar em público ou mesmo de fobia social (Transtorno de ansiedade social):

Autocompaixão. para vencer a vergonha a pessoa precisa reconhecer que cometer erros é natural e ter em conta que não devemos nos impor culpa por expectativas difíceis de serem alcançadas, mas sim continuar esforçando-se para vencer esse problema.

A vergonha na política. Aqui entramos no reino dos desvios de conduta. Nos países genuinamente democráticos tanto os servidores federais como os estaduais e municipais têm o dever ético de aplicar as leis com todo o rigor ético e moral. O povo que elegeu seus representantes pelo voto para cuidar do bem público deve permanecer vigilante todo o tempo. No Brasil da República do século passado foi lapidada uma frase durante uma campanha eleitoral por um dos candidatos que dizia: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Nesse aspecto de engajamento político a vergonha precisa ser considerada não só como um mecanismo de controle social, mas também como uma ferramenta de lapidação moral e cívica. Se, apesar disso, a esperada dignidade dos homens públicos decai e passa a imperar a impunidade e a roubalheira por parte dos que lá foram colocados pelo voto popular e não resta nenhuma expectativa de sua recuperação, o povo tem o direito e o dever de reagir com profunda indignação e abreviar o poder que confiou aos seus representantes.

Não devemos permitir que nossa passividade tolere os sem-vergonhas por profissão, pois eles não terão, por ato de sua própria vontade, recuperação moral.

A vergonha e seu aspecto moral. Seria possível considerar a vergonha como um freio moral? Sim, quando políticos e seus auxiliares aceitam propinas para venderem facilidades e cometem desfalques e roubos do bem público é porque eles estão praticando desvios de conduta, pois lá foram colocados pelo voto popular confiando nos melhores deles, se eleitos. Seus atos de corrupção são intoleráveis pela população mais esclarecida. Eles quebram o decoro e sua exposição pública moralmente geram a emoção da vergonha. Contudo, suas consciências estão toldadas pela ambição de riqueza e poder, contrariando as leis protetoras da população em geral. Em síntese, a confiança dos eleitores foi quebrada!

Eles passam a ser rejeitados e até processados pelos seus atos delituosos, mas as autoridades de órgãos do Poder Judiciário muitas vezes fecham os olhos e os absolvem ou aplicam penas de curto prazo.

Há dois aspectos a considerar com relação à vergonha. De um lado, temos a transformação e de outro a apatia. A vergonha nacional tem potencial transformador.

Ela está na raiz dos acontecimentos políticos de revanche cheia de ódio que força líderes políticos a falsear, sem o menor constrangimento, os fatos negativos em narrativas insustentáveis que acabam irritando as pessoas e até causando sérios protestos e ruptura do status quo. Embora racional, a consciência não o aceita como tal. O povo, dono do voto, sempre clama por transparência e responsabilidade.

Sob o ponto de vista da apatia a situação é mais caótica ainda, atingindo a maioria da população – oponentes dos que não estão no poder. A ação de seus líderes leva à descrença nas organizações democráticas e até ao isolamento político, gerando a desmobilização do esforço combativo das ideias que defendiam. Trata-se aí de uma vergonha crônica, levando muitos líderes oponentes e se exilarem em outros países.

Aspectos doentios e positivos da vergonha. No caso de pessoas que sentem a vergonha como um traço de suas personalidades, ela está incubada e causa uma faixa de sintomas reveladores, como doenças psicossomáticas. Ela se torna crítica e tóxica, prejudicando o desenvolvimento social e impedindo bons relacionamentos.

A vergonha social saudável atua como um freio moral e ético. Sua atuação ajuda na socialização e estabelece os aspectos doentios e saudáveis possíveis. Elas não contrariariam as normas e regras estabelecidas.

Consequências da vergonha. São inúmeras as consequências da vergonha quando ela é reprimida ou excessiva, causando uma série de transtornos psicológicos, a saber:

1. Ansiedade e fobia social por medo exagerado do julgamento alheio sobre as consequências futuras;

2. Depressão por surgirem muitas críticas e insultos violentos direcionados à sua própria pessoa e

3. Sério abuso no consumo de álcool ou drogas para neutralizar a própria dor que resulta e minimizar as inibições sociais.

Conclusão.  Este artigo nos mostrou diversas interrelações com outras emoções delas derivadas ou geradoras delas. Trata-se de um mecanismo complexo que pode ser analisado sob diversas óticas segundo o contexto. A consciência é a nossa bússola reguladora interna que cresce com nosso amadurecimento e reconhecimento dos erros que cometemos, Basicamente, a vergonha é sempre uma resposta emocional profunda que está ligada ao medo do julgamento alheio e da nossa exclusão social afetando, assim, a nossa identidade moral e ética, ou seja, o nosso caráter. Nesse texto analisamos vários mecanismos de modo sintético para mostrar o panorama visto da ponte.