Carisma: poder invisível que move consciências – 1

Este texto integra uma série de reflexões produzidas a partir do XI Curso de Atributos Espirituais ocorrido em junho passado, na Filial Santos, no qual tive a honra de proferir a palestra Carisma, quando uma consciência impacta outra. Podemos iniciar esta reflexão com algumas perguntas norteadoras: “Como uma única pessoa consegue mobilizar milhões?”; “Por que algumas presenças silenciosas transformam ambientes?”; “Por que certos líderes conduzem multidões para a paz… enquanto outros, para a destruição?”

Isto se explica muito pela palavra carisma, palavra que vem do grego Kharisma (χάρισμα), e significa dom, graça, favor concedido, capacidade de inspirar. Na tradição cristã primitiva: carisma era entendido como um dom espiritual concedido para influenciar e servir.

No cenário atual, marcado pela comunicação instantânea e pela ampliação sem precedentes do alcance das mensagens humanas, em que as pessoas vivem boa parte do tempo conectadas, em redes sociais, streamings, internet em geral, games, este conceito amplia seu alcance, incluindo ao lado do carisma natural aquilo que poderíamos chamar de carisma ‘fabricado’. Este, construído com base nas comunicações facilitadas, rápidas, de fácil alcance, mas também regado a uma boa dose de superficialidade, criando-se os conceitos de influencers. Estes exercem um carisma sobre multidões, atraídos pelos shows acrescidos de ferramentas pirotécnicas, eventos gigantescos, gerando até uma competição nada velada sobre quantos milhões de pessoas um “influencer” tem a capacidade de atrair, sempre acompanhados de luzes, marketing, catalizados por algoritmos. Bem, poderíamos nos enveredar por esta nova vertente do conceito carisma, mas no plano espiritual vamos focar naquele que se mostra tão potente quanto, mas originado das luzes vibracionais naturais, do carisma pela força das palavras, consistência, profundidade de conteúdo e trazendo valor às palavras, sustentável ao longo do tempo, atemporal, gerador de legados.

Nesta nossa reflexão, poderíamos considerar fazer uso de ferramentas de comunicação que, se bem aplicadas, catalizariam ainda mais o alcance do carista verdadeiro transformador? A resposta seria sim! As modernas ferramentas de comunicação ampliaram enormemente o alcance da influência humana. Nunca foi tão fácil impactar milhares ou milhões de pessoas. Entretanto, permanece atual uma reflexão: o que realmente sustenta essa influência ao longo do tempo? A tecnologia amplia vozes, mas não substitui conteúdo, coerência ou propósito.

Assim, como diferenciar o que é carisma real, daquele que é fruto de uma amplificação artificial? Poderíamos dizer que o carisma artificial impressiona; o carisma verdadeiro transforma.

Fazendo um apanhado histórico, vamos rever os possíveis impactos já evidenciados, aqui didática e metaforicamente apresentados em o carista que leva à luz… e o que leva à sombra.

Como explicar o impacto gerado quando milhões vibram medo, ódio e fanatismo ao mesmo tempo, criando-se uma força (catarse) coletiva destrutiva? Seria este o que leva à “sombra”? Já tivemos esta evidência na história da humanidade? Sim! E talvez um dos exemplos mais emblemáticos do século XX seja a Segundo Guerra Mundial Guerra Mundial, ocorrida de 1939 a 1945, período que se destaca no livro intitulado Adolph Hithler. O Carisma que conduziu milhões ao abismo, por Laurence Rees. O título do livro, por si só, já endossa a nossa hipótese. Carisma tem o poder de impactar multidões, e pode ser responsável por dizimar milhares de pessoas, como aconteceu com os judeus, negros e outros direta ou indiretamente conectados.

Em contrapartida, podemos trazer aqui o carisma moral, muito bem demonstrado por Mahatma Gandhi, que tinha a força sem espetáculo, um verdadeiro exemplo de força vibracional elevada impactando multidões. Enquanto Hitler não media esforços para aplicar a guerra pela violência, Gandhi pregava “a guerra sem violência; a guerra dizendo não contra o ódio”, marcado pela histórica Marcha do Sal, de 1930. Como podemos ter decisões tão opostas para o mesmo tema: Imperialismo! Um, buscando um imperialismo hegemônico na Europa e, por que não dizer, objetivando conquistar o mundo; e o outro contra o imperialismo britânico, buscando a sua emancipação, no caso, nos referindo à Índia emancipada. Um, querendo tudo, o outro, buscando o que era de direito, sem ostentação, sem exageros, sem ódio, sem brigas, cujo legado gerou o Dia Internacional da Não Violência, dia 2 de outubro.

Outros grandes exemplares, inspirados pelo carisma de Gandhi, temos Nelson Mandela, que dizia: “Faça com que as pessoas se sintam maiores na sua presença”. Observemos aqui a colocação do protagonismo no outro, e não nele. Assim, gerando o engajamento legitimo, mobilizando para a “prática do bem” que tanto repetimos na nossa limpeza psíquica, ao final da irradiação B: “para praticar o bem”! e tão ardiloso para ser traduzido para a prática, em especial quando estamos nos referindo a impactar multidões! A liderança de Mandela nos oferece uma das mais inspiradoras manifestações do verdadeiro carisma que parece ir além da capacidade de reunir multidões em torno de nós, mas sim a de despertar o melhor que existe em cada um de nós!

Como nas manchetes de jornais temos muitos exemplares do carisma que gera sombras, vamos trazer aqui os que se apoiam no carisma que gera Luz, por exemplo, Martin Luther King Junior, carisma inspirador para a prática do bem, que, não por acaso, faz parte da plêiade do Astral Superior do Racionalismo Cristão. Frases ditas em referência a ele destacam o poder de vibração espiritual elevada impactando o seu entorno: “Havia nele algo que ia além das palavras! Criando uma frequência emocional transformadora coletiva.” Assim como comentamos acima sobre a capacidade dos atuais “influencers” em atrair multidões, nesses casos, às custas de ferramentas catalizadoras visuais, virtuais e regadas a pirotecnias, no caso de Luther King Junior, a capacidade de conduzir milhões para ouvirem suas palavras sem que para isto tivesse feito uso de um único sequer mecanismo de comunicação de massa, só mesmo o “boca a boca”. Uma convocação silenciosa emblemática dele foi quando conduziu mais de 1,5 milhão de pessoas para o seu discurso nos Estados Unidos, e se consagrou pelo “Eu tenho um sonho” “I have a dream”.

Para percebermos as diferenças de estilos no uso da habilidade “CARISMA”, convidamos ao leitor que assista o “discurso de Nuremberg” feito por Hitler, e compare reflexivamente com o de Martir Luther King, quando proferiu o discurso acima e atente-se para o tom, ambos se mostram firmes e inspiradores, embora um impactando pelo tom claramente ríspido, ditatorial, inquisitivo, e o outro, pela sua gentileza e cordialidade inspiradora. 

Bem, coroando nossos líderes neste processo de exercer a liderança pelo seu carisma inspirador, trazemos aqui Jesus Cristo. Cristo, sem absolutamente alguns meios de comunicação; sem poder político; sem riqueza; sem exército, fazia com que multidões o seguissem, além do que, suas frases e colocações filosóficas atravessaram séculos, milênios, impactando até os dias de hoje. Que tipo de força faz uma consciência atravessar mais de dois mil anos?” Que poder é este? Seriam estes os exemplos, referenciais máximos, da palavra Carisma: o poder invisível que move consciências! Talvez o maior diferencial do carisma de Jesus Cristo tenha sido a capacidade de continuar inspirando consciências muito depois de sua passagem pela Terra, demonstrando que algumas influências transcendem o tempo e permanecem atuantes através das ideias e valores que deixam como legado.

Neste apanhado histórico percebe-se que Jesus Cristo é um inspirador-referência, que atravessou o tempo. Mais didaticamente, temos Gandhi que inspirou Mandela; Gandhi inspirou Luther King; Luther King inspirou gerações posteriores, e assim uma consciência impacta outra, que impacta outra, que impacta milhões. A variável tempo nos traz a reflexão do tempo presente, quando se observa uma pessoa de grande evolução espiritual que, atuando com grande carisma, gera um impacto que perdura, se sustenta, e segue transformando gerações e gerações.

O que nos leva a trazer outra reflexão, indo de um patamar bastante alto quanto ao seu alcance populacional e histórico, para a seguinte pergunta:  Seria o carisma um privilégio de líderes históricos? E “nós” seríamos aqueles que lemos e acompanhamos estes casos, mas não nos identificamos com eles, tipo: isto não é para mim?! Este tipo de “carisma transformador” seria para poucos, e não me enquadro dentro deste seleto grupo? O que seria uma pessoa carismática no nosso dia a dia? nos referindo aqui ao “eu e você, você e eu”!

Mas talvez a pergunta mais importante ainda esteja por ser respondida: Afinal, o que significa ser uma pessoa verdadeiramente carismática na vida comum?

É sobre isso que refletiremos na próxima edição.