Critérios definidores

Algumas vezes ouvimos no meio social frases do tipo: “Minha intuição me diz que devo seguir por este caminho”, “Aposte em sua intuição e confie que vai dar certo”. É verdade: as intuições são frequentemente concebidas como uma espécie de voz ou iluminação interior capaz de influenciar nossas escolhas e decisões, representando uma dimensão subjetiva e espiritual de valor inestimável comum a todos os seres humanos, que são naturalmente intuitivos.

Tema recorrente no campo de nossos estudos filosófico-espiritualistas através dos ensinamentos do Racionalismo Cristão, as intuições, que têm como principal fundamento experiências acumuladas e conhecimentos adquiridos ao longo do itinerário de aprimoramento espiritual no qual todos se acham inseridos, podem funcionar, por assim dizer, como um instrumento apto a captar e a transmitir aspectos transcendentes, alheios à realidade física que nos circunda. Contudo, não é dessa característica especial das intuições que trataremos no presente encontro.

As boas intuições induzem bons sentimentos e sugerem soluções para muitos dos desafios que cotidianamente enfrentamos. Nesse contexto, surge uma indagação acerca da qual concentraremos nossas análises na presente reflexão: quais são os critérios que definem as boas intuições?

Apesar da multiplicidade de aspectos e estudos relacionados às boas intuições, certo é que o ser humano que pretende assumir o protagonismo da própria vida, conquistar autonomia e desenvolver conscientemente seus atributos espirituais deve definir racionalmente parâmetros e critérios que o possam auxiliar, em termos práticos, a discernir as intuições de valor das inspirações inadequadas e sabotadoras.

Nessa perspectiva e visando auxiliar o maior número possível de pessoas a superar tal desafio, suscitado não raras vezes pelo desconhecimento dos aspectos transcendentes da vida, informaremos sinteticamente na sequência quais são, a nosso ver, os três principais requisitos para admitirmos que determinada intuição é autêntica, benfazeja e, portanto, digna de crédito.

A primeira premissa, que representa, por assim dizer, uma verdadeira pedra de toque para o reconhecimento de uma intuição positiva, favorável e elevada, consiste na clareza e dignidade inerentes a seu conteúdo. Em outras palavras, determinada ideia suscitada por uma intuição não deve se apresentar de forma obscura e indefinida, contrária ao bom senso e antagônica aos princípios racionalistas cristãos da ética, da honestidade, da moralidade, da transparência, da prudência, da empatia, do respeito e da disciplina. Uma intuição que vá contra esses princípios deve ser imediatamente rechaçada e desqualificada pelo ser humano, em benefício de seu próprio equilíbrio emocional e psíquico.

As boas intuições fazem parte de uma realidade sumamente harmônica e relacionada ao bem comum. Por isso produzem nas pessoas, de forma invariável, uma nítida sensação de paz e benquerer – sensação que confere à existência humana, ainda que momentaneamente, equilíbrio, ânimo, bem-estar e um destacado senso de empatia.

Uma intuição jamais poderá ser considerada positiva se gerar inquietações, mau humor, egoísmo e desarmonia psíquica. Logo, o segundo critério para identificar uma boa intuição consiste em avaliar o efeito positivo e fecundo que ela produz no âmbito existencial.

Nesse contexto, cabe ressaltar que não se deve confundir uma ideia insistente, produtora de sobressalto e agitação, com aquela propensão sadia, comum às pessoas de personalidade dinâmica que, dotadas de grande criatividade e entusiasmo, estão sempre envolvidas em projetos e empreendimentos de valor. Em tais pessoas, as boas intuições potencializam sobremaneira os talentos inatos.

Se porventura uma intuição nos auxiliar e nos fortalecer no sentido de bem cumprirmos com nossos deveres e responsabilidades, poderemos estar convictos de que nos encontramos diante de uma ótima intuição, donde se conclui que o terceiro critério de identificação de uma intuição positiva consiste em avaliar o quão estimulante ela nos é – ou, posto de outra forma, o quanto ela nos impulsiona a fazer o que deve ser feito e a concluir o que foi iniciado, tudo isso sem desculpas, subterfúgios e procrastinação, mas com valor, dignidade e bom humor.

Para ampliar a compreensão do tema que ora estudamos, uma dicotomia parece-nos oportuna: se, por um lado, o materialista, embotado por pensamentos mesquinhos, fúteis e imediatistas, nos quais se compraz obstinadamente, se fecha ao influxo das boas intuições, impedindo que brote em si a mais tênue ideia de valor e o mais singelo pensamento producente, por outro lado, o espiritualista, inclinado ao autoconhecimento e à vivência consciente dos princípios da transcendência, o qual de maneira cotidiana e disciplinada realiza a limpeza psíquica, desenvolve a capacidade de ver para além das aparências e de interpretar de maneira ampliada a realidade ambiente.

As ações empreendidas pelo espiritualista estudioso de nossa Filosofia possibilitam, sem dúvida, que ele evolua consideravelmente por meio da compreensão e assimilação da multiplicidade de sentidos que a vida oferece a partir das boas intuições, que devem fluir de maneira lúcida, natural e espontânea.

Os seres humanos não podem assimilar as oportunidades de crescimento espiritual que surgem a sua volta, tampouco desfrutar de suas faculdades, vocações e talentos, sem o contributo das boas intuições. Com certeza, a vida oferece incontáveis ocasiões que põem em evidência a veracidade de tal afirmação.

As boas intuições dissipam dúvidas e evitam os devaneios da imaginação. Por essa razão, valorizamo-las de forma tão enfática.

Procuramos, no transcurso desta reflexão, evitar ambiguidades e mal-entendidos. Assim, optamos por adjetivar o substantivo intuição, concentrando nossa atenção não em qualquer gênero de intuição, mas, de forma particular, nas boas intuições. São estas que nos interessam.

Trabalhamos para que a concepção de intuição disseminada na sociedade seja completamente transformada. Estamos convictos de que as intuições não podem ser entendidas como fruto de um processo involuntário e casual. Mormente no que tange às boas intuições, afirmamos que elas guardam total correlação com a forma como as pessoas pensam e se conduzem na vida.

Amigos, vivamos sob a égide dos princípios da espiritualidade defendida pelo Racionalismo Cristão, sejamos criteriosos quanto aos insights que nos vêm à mente, cultivemos a arte de bem pensar, selecionemos os ambientes que frequentamos, não descuidemos de fazer todos os dias nosso preparo mental, antecedido de autorreflexão. Seguidos esses passos, é certo que nossa existência será constantemente permeada das melhores e mais auspiciosas intuições e, por via de consequência, seremos mais felizes. Muito Obrigado!