Cuidado, viciado: as Bets, sem piedade, te levam para o buraco

Lá vai o incréu, inocentemente ou não, arriscar o pão de cada dia na ânsia de enricar, ou, ao menos, melhorar de vida, dar mais conforto à família, livrar-se das atribulações a cada fim de mês vendo as contas aumentarem e os aportes financeiros, geralmente somente o curto salário, aniquilarem-se. Vai sem se dar conta de que está seguindo a passos largos para o terreno dos que já se despediram, física ou moralmente, dos que se acomodaram a sete palmos da superfície ou andam por aí fuçando latas de lixo. Na verdade, mais felizes estão os que se foram sem banda de música e sem salva de palmas, apenas com exclamações dispersas: “Era um bom homem!”, ou “Mais um bravo que se vai!”. Que nada! Era um pobre de espírito dominado pelo vício que via, dia após dia, seu fim aproximar-se. Crescia nele a ambição, o desejo de ascender na sociedade à custa do dinheiro somente.

E foi assim que, acreditando nessa possibilidade, nem reparou, ou tinha consciência de que vida mudava para pior, o status ia ladeira abaixo. O dinheiro que aplicava nos jogos implicava menos pão, menos leite, menos carne; menos consertos nos canos dágua com vazamentos e na fiação elétrica que em alguns casos ofereciam perigo; menos passeios e sem pizza no fim de semana; sorvete? Que nada!

O que é isso? É um retrato em preto e branco da vida do pobre e até da classe média baixa diante das facilidades e promessas das Bets. São comprometimentos nunca cumpridos, nunca satisfeitos. Jamais chega a premiação esperada. As parcas economias escorrem pelas malfadadas apostas. O dinheiro vai para a fogueira e os anunciantes convidam para brincar, divertir-se. Brincar com o dinheiro no fogo? Vejam só: brincar com o chorado salário na expectativa do enriquecimento, ou ao menos de melhores dias. O tempo vai passando, as apostas aumentando e com elas as carências na alimentação e no lazer. A partir daí a esperança vai definhando e o desespero tornando-se mais robusto. O chefe da casa e sua primeira-dama não resistem ao chamado da fortuna. Nem o júnior nem a mais nova, já que os apostadores não precisam aparecer nas casas de apostas. Estes sacrificam suas magras mesadas, quando as recebem. Enquanto isso, ocorrem nas suas barbas fatos que os esperançosos viciados não percebem ou não querem perceber.

Vejam: rolar dadinho não pode, jogar ronda não pode, poker não pode, pif-paf não pode, cunca não pode, tranca não pode, sete e meio não pode, vinte e um não pode, carta maior não pode, roleta não pode, bacará não pode, bingo não pode, jogo de bicho não devia poder, mas a Polícia faz vista grossa. Pelos botequins se veem as máquinas de jogos eletrônicos nos quais ninguém ganha; todos os apostadores perdem. Perdem para quem? Para as máquinas ou para seus donos?

Nenhum jogo que envolva apostas em dinheiro pode. Quase tudo é proibido, mas nas patas dos cavalos pode, nas loterias da Caixa pode e nas Bets pode. Neste caso, com as bênçãos do Governo, ávido em sua paranoia arrecadatória. O Executivo já deve estar estudando a possibilidade de isentar no Imposto de Renda as verbas que vazam pelos bueiros cuja canalização leva a endereço certo e conhecido e onde (quem sabe?) pode estar ocorrendo o rateio com percentuais igualmente definidos em benefício sabe-se lá de quem. Ninguém é ingênuo bastante para não entender a mecânica do toma lá dá cá. Viciados, apostadores contumazes não se dão conta de que em qualquer modalidade de apostas em dinheiro quem ganha é a banca, o total de prêmios pagos a eventuais ganhadores deixa altíssimo saldo.

Viciados na jogatina precisam entender que estão sustentando grupos espúrios que se locupletam com as vantagens que o sacrifício alheio lhes proporciona.

Qual o critério, afinal? A jogatina está proibida ou liberada? Os cassinos estão fechados, mas o velho “feito!” vem sendo repetido aqui e ali. A Lei das Contravenções Penais, Decreto-Lei nº 3.688/1941, que impõe aplicação de penas mais leves para os “crimes” de menor potencial ofensivo (chamados de contravenções) trata dos jogos de azar: o jogo em que o ganho e a perda dependem exclusiva ou principalmente da sorte. E aí? As tais Bets, a Mega Sena, a Loteria de São João, a Loteria da Independência têm algum truque, manipulação ou conchavo, ou seus resultados dependem exclusiva ou principalmente da sorte? Como sorte e azar não existem, sustenta o Racionalismo Cristão…

Há que se moralizar, e se é para cumprir a lei, que se não introduzam atalhos que permitam acrescentar modalidades com matrizes no exterior e legalizar o afano. Levantamentos recentes indicam que as Bets duplicaram o faturamento nos cinco primeiros meses deste ano sobre o de igual período de 2025 e as perspectivas são de que o total de apostas cresça ainda mais em função a Copa do Mundo.

Na internet lê-se que desde que começaram a operar legalmente no Brasil, em janeiro de 2025, as Bets só cresceram e o faturamento praticamente duplicou, sempre na casa dos bilhões.

A receita de janeiro a abril de 2026 foi R$ 12,2 bi. O faturamento de todo o ano de 2025 foi R$ 36,9 bi. As Bets licenciadas devem pagar uma taxa de licença de R$ 30 milhões. Com isso, a arrecadação com impostos sobre apostas saltou de R$ 2,2 bilhões nos quatro primeiros meses do ano passado para R$ 4,5 bilhões em igual período de 2026, valor que se aproxima do que é pago em tributos pela indústria do tabaco, cerca de R$ 1 bilhão por mês.

Desde 2025, o governo emitiu 85 licenças, autorizando a operação de 187 sites. A expectativa é que o setor fature ainda mais com a Copa do Mundo de futebol. A consultoria H2 Gambling Capital projeta entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões em valores depositados para apostas esportivas durante o evento.

Hoje, os maiores patrocínios do futebol nacional vêm justamente do setor de apostas. A Betano fechou contrato com o Flamengo estimado em R$ 268,5 milhões por três anos. A Esportes da Sorte desembolsa R$ 150 milhões, também por três temporadas, em acordo com o Corinthians.

Enquanto as bets lucram, cresce a preocupação com o impacto sobre a população e a economia. Um estudo sobre jogos aponta um cenário de dependência no Brasil pior do que a média mundial: 25 milhões de CPFs fizeram apostas no Brasil em 2025. No fim do primeiro semestre, eram 17 milhões; quase metade dos usuários de Bets diz apostar para obter renda extra e pagar contas, R$ 143 bilhões foram drenados do varejo para apostas, segundo a Confederação do Comércio.

O governo federal exulta com a bolada que o ajuda a encher os cofres para gastar não se sabe onde, nem como, nem por que, em benefício de qual parlamentar em atenção a sua emendas, já que assim é neste Brasil de rimas mil.

É hora de reajustar os hábitos, evitar os supérfluos, economizar no que for possível. Dificilmente o jogo lhe dará o prazer da vitória e a fortuna.