Jogo feito, fichas na mesa, roleta girando até o 2º turno

O país atravessa mês de grande instabilidade meteorológica; muita trovoada, raios que se formam nos choques das plúmbeas nuvens carregadas de ódio, rancor, denúncias, xingamentos velados e traições, tudo que não presta, precipitação de granizo em áreas teoricamente protegidas pela ordem jurídico-democrática, ventos fortes que não assumem direção ou sentido, vão e voltam simultaneamente, enlouquecendo o observador. No meio disso, um entra-e-sai, volta, fica, descarta, anula, alfineta, assopra, libera sigilo. Dark horse ou white bear, o grande amigo? Poxa vida! O que pode decorrer desse temporal? Terreno apropriado para um mau-caráter se proclamar salvador da pátria e tentar avançar sobre os limites constitucionais e criar um 8 de janeiro particular.

Tudo que não podia ou não devia acontecer está acontecendo, justamente no momento em que grande parte da população queima pestanas e pelos do nariz para escolher quem lhe pareça confiável e seja merecedor de assumir a faixa presidencial. Nestes tempos é mais fácil adotar um pet entre todos os disponíveis do que escolher um entre os 12 candidatos à Presidência da República. Já que todo brasileiro no gozo de seus direitos políticos pode candidatar-se, eis que aparecem algumas formigas almejando deglutir uma fatia, ao menos uma isca, do bolo. É sabido que sobra farelo para todos eles, porque se apresentam como apoiadores. Querem uma colher de chá, porque as benesses repercutem no Legislativo, locomotiva de qualquer Governo: sem apoio dos deputados a vaca vai pro brejo, porque as propostas pelo Executivo não passam ou ficam na gaveta.

Na verdade, a refrega é extracampo. Que nesse jogo candidatos se digladiem com fake news e conversa fiada é prática comum nos períodos eleitorais. Incomum é que confrontos cheguem ao Supremo Tribunal Federal, órgão máximo do terceiro Poder da República, e com tal magnitude que tão intensamente repercutam de modo a fazer pender a balança ora para este, ora para aquele candidato à Presidência. Estamos a acompanhar o desenvolvimento da crise no STF em torno de apoio, aproximação, conversas, benefícios e vantagens auferidas de um banqueiro já no banco dos réus. É um jogo de vaivém que acaba por envolver outros personagens, incluindo os bombeiros. Em quem confiar? Quem é inocente?

Ambiente confuso: A acusa B; B ofende C; C se volta contra A; um qualquer só falta sair no tapa com B. Charada? Revisão de Abecedário? Nada disso: é apenas o que aconteceu entre ministros do Supremo Tribunal a partir da dinheirama esparramada pelo Banco Master na compra de votos e consciências. O ministro de maior destaque no Supremo é acusado de favorecer banqueiro responsável por práticas ilegais no mercado financeiro, causando prejuízos incauculáveis em várias frentes. Nada que um pedido de vista não acalme os ânimos e jogue as disputas para a frente.

Estamos num processo eleitoral em dois tempos, modalidade que permite aos dois candidatos mais votados voltar à rinha com esforços redobrados e o reforço dos “apoiadores”, interesseiros nos fragmentos quase desprezíveis da máquina administrativa. Dependendo do peso desse apoio pode sobrar, até um ministério entre os de menos destaque. Ainda assim essa é a esperança dos apoiadores. Ora, não custa lembrar aqui que o político não é trouxa, as pesquisas de opinião vêm mostrando as chances de cada candidato, mas até os que registram traço nessas pesquisas mantêm a candidatura, ao invés de pegar o boné e cair fora. Qual! Continuam ali gastando na campanha o dinheiro que não é deles, mas do povo que paga impostos.

Ao final deste mês teremos novo presidente eleito e fortalecida a esperança de que não ofereça mais do mesmo ou soluções estapafúrdias para os problemas que requerem soluções inteligentes, imparciais e rápidas. O povo quer comida, não por favor, mas que ele possa comprar com salários dignos; o povo quer segurança, para que se efetive o direito de ir e vir; quer saúde, com SUS ou sucedâneo que elimine as longas filas para procedimentos médicos, exames de imagem, tratamentos de doenças mais graves; quer transporte com dignidade e tarifas acessíveis; quer seus momentos de lazer com a família. Entendeu, senhor presidente eleito deste Brasil de rimas mil? (JBA)